À beira do colapso: Sem petróleo da Venezuela, crise de Cuba se aprofunda e expõe fragilidades estruturais
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Caixas de papelão, sacolas usadas, garrafas plásticas e trapos se acumulam nas esquinas da capital à beira-mar, enquanto alguns moradores reviram os resíduos deixados a céu aberto em busca de itens que possam reutilizar, e motoristas, pedestres e ciclistas são obrigados a contornar os montes de lixo. Em outras cidades da ilha — que abriga cerca de 11 milhões de pessoas — moradores recorreram às redes sociais para alertar sobre os riscos à saúde pública.
— Está pela cidade toda — disse o morador local José Ramón Cruz à agência Reuters. — Já faz mais de 10 dias que um caminhão de lixo passou por aqui.
Cuba enfrenta uma gravíssima crise energética desde o fim do fornecimento de petróleo por parte da Venezuela, na esteira da queda de Nicolás Maduro em janeiro, e diante das ameaças de Washington de impor tarifas aos países que vendam petróleo à ilha. Impulsionado pelo sucesso da operação militar que capturou o venezuelano, o presidente dos EUA, Donald Trump, acredita que cortar o fornecimento de mais de 27 mil barris de petróleo por dia que Cuba recebia do regime chavista será o golpe final. Sempre que é questionado sobre a ilha, ele diz:
— Parece que está prestes a cair.
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As ações são um golpe brutal para um país que já enfrenta sua pior crise econômica desde a revolução de 1959 e lida com apagões, escassez de alimentos e medicamentos e a redução das reservas em moeda estrangeira. O governo comunista passou a aplicar um pacote de medidas emergenciais que restringe a venda de combustível e reduz o transporte público, ao mesmo tempo em que vê o declínio de sua influência sobre a esquerda global e governos aliados.
— A esquerda internacional não está sendo muito enfática. Veja o caso do Brasil, por exemplo. [O presidente Lula tem se limitado a condenar o bloqueio]. Tampouco o governo espanhol está dando uma resposta de alto perfil — disse o historiador cubano Rafael Rojas ao El País. — Há uma erosão da legitimidade de Cuba no cenário internacional devido à falta de democracia e à repressão sistemática, e esse chamado à solidariedade tem efeito muito limitado.
Encontro na Rússia
Em Moscou, o porta-voz de Putin, Dmitri Peskov, reforçou que “a Federação Russa se opôs de forma constante ao bloqueio contra Cuba” e que “presta ajuda” aos seus “amigos”. Horas antes do encontro com Putin, o chanceler cubano reuniu-se com seu homólogo russo, Serguei Lavrov, que recorreu à linguagem da era soviética para criticar Washington. Lavrov disse estar “em solidariedade” com Havana e descreveu Cuba como “um Estado irmão”:
— Pedimos aos EUA que mostrem bom senso e se abstenham do bloqueio militar-marítimo à ilha da liberdade — disse ele, sem fazer promessas concretas de apoio material e condenando o governo americano pela “deterioração da ordem internacional, que já era injusta e precária, mas que hoje está sendo substituída pelas práticas do governo dos EUA”.
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Desde que enviou tropas à Ucrânia, em 2022, Moscou — sob fortes sanções ocidentais — tem reforçado alianças da era soviética, como seus laços com a Coreia do Norte. Cuba não condenou a ofensiva russa na Ucrânia e, ao longo dos quatro anos de guerra, surgiram relatos de que combatentes cubanos estariam sendo recrutados pela Rússia.
Para justificar o bloqueio energético, o presidente americano alega repetidamente que Cuba representa “uma ameaça excepcional” para a segurança nacional dos Estados Unidos devido às relações que mantém com Rússia, China e Irã. Havana tem sido parceira de Moscou desde a revolução socialista da década de 1960, e durante décadas dependia da União Soviética para apoio econômico e político.
Apoio limitado de aliados
Ainda assim, especialistas avaliam que as respostas de países aliados têm sido insuficientes. Para Rojas, a rejeição ao bloqueio de Washington não tem se traduzido em ajuda além da assistência humanitária, o que, avaliou, “não é suficiente para evitar um colapso”. Ele diz que o retorno de Trump à Casa Branca inaugurou uma nova ordem mundial na qual o multilateralismo e as organizações internacionais estão em retração, deixando o papel de Cuba cada vez mais isolado.
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México, Chile e Rússia estão entre os poucos países que saíram em defesa de Havana, condenando publicamente a ofensiva de Trump. Mesmo assim, Moscou prometeu ajuda financeira de maneira pouco convincente, afirmando apenas que enviaria cargas de petróleo bruto e combustível “em um futuro próximo”, sem especificar data. E, embora a presidente mexicana, Claudia Sheinbaum, insista que tenta reativar o fluxo de petróleo, a verdade é que ele foi interrompido, e os envios consistem somente em leite em pó e outros produtos básicos.
O Chile também denunciou o bloqueio e anunciou o envio de ajuda humanitária. Mas a pressão de Trump se intensifica por meio de países vizinhos: nesta semana, a Nicarágua, aliada de Cuba, concordou em fechar a principal rota de exilados cubanos, negando entrada a cidadãos da ilha em situação irregular. A Guatemala anunciou a retirada de todos os médicos cubanos que atuavam no país.
Na segunda-feira, a Espanha divulgou que fornecerá ajuda humanitária a Cuba por meio do sistema das Nações Unidas. O anúncio foi feito pelo Ministério das Relações Exteriores espanhol após uma reunião, em Madrid, entre o chanceler José Manuel Albares e Rodríguez. Em comunicado, a chancelaria espanhola informou que prestará ajuda “nas áreas de alimentação e produtos sanitários de primeira necessidade”. A nota não especificou prazos nem valores do apoio.
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“A economia cubana atravessa provavelmente a pior crise de sua história, marcada por uma combinação de fatores internos e externos”, aponta um estudo da Embaixada da Suíça em Havana, que atua como mediadora entre Cuba e EUA. Trump sustenta que ofereceu um acordo e que os dois governos estão negociando. Havana reconhece apenas que houve alguns contatos sobre questões técnicas e nega que existam negociações sérias.
(Com AFP)










