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— Ele já consegue andar e falar — disse Ledy de um centro de detenção no Texas. — Sinto muita falta dele.
Uma nova análise sugere que mais de 100 mil crianças e adolescentes foram separados de seus pais pela repressão à imigração promovida pelo governo Donald Trump. E aproximadamente três quartos deles, como Alonzo, provavelmente são cidadãos americanos, de acordo com estimativas da Brookings Institution compartilhadas com o The New York Times.
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A estimativa da organização sobre o número de crianças e adolescentes cidadãos americanos é mais que o dobro do número esperado para o mesmo período, com base em dados oficiais do Departamento de Segurança Interna (DHS). Os pesquisadores, cujo relatório se baseia em uma análise estatística da população detida, argumentam que os dados oficiais subestimam os números por causa da forma como o governo coleta essas informações.
As descobertas apontam para uma escala de separações familiares que supera em muito a da política de “tolerância zero” do primeiro governo Trump, em 2018, quando cerca de 5,5 mil crianças e adolescentes foram separadas de seus pais imediatamente após cruzarem a fronteira sul.
O DHS não respondeu diretamente às perguntas sobre o número de pais que foram detidos ou sobre a análise que sugere que as estatísticas oficiais não refletem o número total de crianças e adolescentes nascidos nos EUA cujos pais foram presos. Em um comunicado, o departamento afirmou que os pais têm a opção de serem deportados com seus filhos ou de entregar seus filhos nascidos nos EUA a um responsável designado.
— De qualquer forma, há dezenas de milhares de crianças e adolescentes que sofreram com a detenção de seus pais desde que este presidente assumiu o cargo — disse Tara Watson, pesquisadora sênior da Brookings Institution. — A maioria delas são cidadãos americanos.
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Guillermo Arias/AFP
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Os pesquisadores estimaram que cerca de 205 mil menores de idade tiveram um dos pais detidos, geralmente um prenúncio de deportação, incluindo cerca de 145 mil que são cidadãos americanos. Eles utilizaram dados do Censo dos EUA e de prisões realizadas pelo Serviço de Imigração e Alfândega (ICE) para determinar o número provável de filhos que os detidos tinham, com base em seu status imigratório, sexo, idade, nacionalidade e estado civil.
Os EUA abrigam mais de 13 milhões de imigrantes vulneráveis à deportação, seja por estarem em situação irregular ou por terem status temporário. Cerca de cinco milhões de menores de 18 anos vivem com pelo menos um dos pais imigrante em situação irregular, segundo estimativas de diversos centros de pesquisa, e mais de quatro milhões deles são cidadãs americanas.
O governo Trump prendeu cerca de 400 mil imigrantes durante operações de fiscalização no país. Não há informações confiáveis sobre quantos filhos os detidos têm, ou o que aconteceu com eles depois que seus pais foram presos.
A economista Sarah Watson e sua coautora, Maria Cancian, professora de políticas públicas da Universidade de Georgetown, buscaram responder a essas perguntas.
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ROBERTO SCHMIDT / AFP
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As estimativas partem do pressuposto de que a fiscalização da imigração é essencialmente aleatória — que pais imigrantes têm a mesma probabilidade de serem detidos que imigrantes sem filhos. Mas as pesquisadoras também criaram uma ferramenta interativa que estima o número provável afetados pela detenção de um dos pais em diferentes cenários e suposições de fiscalização. A estimativa mais conservadora para o número de crianças e adolescentes nascidos nos EUA com um dos pais detido é de cerca de 117,4 mil. A estimativa mais alta é de aproximadamente 175 mil.
Os pesquisadores afirmaram que consideravam 145 mil a estimativa mais precisa e projetaram que esse número aumentará, visto que o Congresso destinou US$ 45 bilhões na “Lei Grande e Bonita” de Trump para expandir a capacidade de detenção.
A estimativa contrasta com números divulgados pelo DHS, os quais indicam que os pais de cerca de 60 mil menores de idade nascidos nos EUA foram presos no mesmo período. As pesquisadoras levantaram a hipótese de que a discrepância se devia ao fato de o departamento não estar perguntando consistentemente sobre menores de idade, ou porque os detidos temiam revelar que tinham filhos, preocupados em colocar a eles ou a seus responsáveis em risco.
Com base em entrevistas com agências de proteção à infância, as pesquisadoras estimaram que apenas uma pequena fração das crianças acaba em lares adotivos ou em arranjos semelhantes.
— Descobrimos que um número surpreendentemente pequeno acaba em lares adotivos. A maioria dos menores de idade fica com amigos e familiares que não têm obrigação legal de cuidar delas — disse Maria, que estuda bem-estar infantil e imigração.
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Muitas escolas e organizações de assistência jurídica têm ajudado imigrantes a designar um responsável para seus filhos caso sejam separados.
No entanto, as crianças e adolescentes frequentemente ficam sob os cuidados de irmãos mais velhos ou de famílias da classe trabalhadora que já enfrentam dificuldades financeiras e situações migratórias precárias, o que torna esses arranjos insustentáveis, segundo especialistas.
Se o governo está separando menores de idade de bons pais que por acaso são indocumentados, ele tem “a obrigação de zelar pelo bem-estar delas”, afirmou Maria.
A Public Counsel, uma organização sem fins lucrativos de assistência jurídica em Los Angeles, já orientou mais de 4 mil imigrantes sobre planos de custódia desde o ano passado, garantindo que alguém tenha o poder de tomar decisões médicas e escolares.
Ainda assim, a organização recebe ligações frequentes de escolas, igrejas e outras entidades em busca de ajuda para crianças e adolescentes cujos pais foram detidos recentemente.
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Stephen Maturen / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / Getty Images via AFP
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— Estamos vendo menores de idade em situações delicadas, deixadas com vizinhos que não têm a documentação necessária; irmãos mais velhos que já têm filhos; e casos em que o pai não consegue cuidar de crianças pequenas — disse Sharon Cartagena, advogada de direito familiar na organização.
Casey Revkin, diretora executiva da Each Step Home, que começou auxiliando famílias imigrantes que eram detidas na fronteira, em 2018, agora se dedica quase exclusivamente a ajudar pais detidos que vivem nos EUA há muitos anos e foram separados de seus filhos.
— Quase todos os dias somos contatados por mães detidas que foram presas e separadas de seus filhos — disse Casey, cujo grupo arrecada fundos para ajudar pais detidos a pagar ligações telefônicas para seus filhos. — Desta vez, a crueldade está sendo infligida a crianças e adolescentes cidadãos americanos.
A mãe de Samantha Lopez, uma cidadã americana de 3 anos, foi entregue ao ICE no mês passado por um policial após uma abordagem de trânsito enquanto dirigia para o trabalho em um restaurante, disse seu marido, que pediu para não ter seu nome completo divulgado por medo de ser alvo do ICE.
Ele contou que a esposa informou aos agentes que tinha uma filha pequena, sem sucesso.
— Sinto um vazio e uma angústia enormes — disse ele. — Quando nossa filha conversa com a mãe, ela ouve atentamente e depois começa a chorar. Minha filha americana está sendo prejudicada.
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Lopez, um operário da construção civil, disse que precisava fazer o máximo de horas extras possível para pagar um advogado e conseguir a libertação de sua esposa, mas também precisava cuidar da filha depois da creche.
Ironicamente, ter um filho nascido nos EUA pode manter famílias separadas.
Ledy Ordonez, que está separada de seu filho nascido nos EUA há mais de 10 meses, disse que implorou aos agentes há muito tempo para que permitissem que os dois ficassem em um centro de detenção familiar enquanto ela lutava por seu caso. Mas cidadãos americanos não podem ser mantidos em centros de detenção de imigração.
— Eu nunca quis ser separada do meu único filho — disse ela.
Os agentes avisaram a Ledy que sua deportação é iminente, disse ela. Para acompanhar a mãe, Alonzo precisa de um passaporte. Ela tem tido dificuldades para consegui-lo, acrescentou. Os agentes a avisaram recentemente que a deportariam sem o menino se ela não obtivesse o documento, deixando-o com seus atuais cuidadores.
— Eles não são da família nem nada do tipo, só estão cuidando dele como um favor — disse ela, chorando.— Se me deportarem, quero levar meu filho.









