Ambição declarada: Secretário de Estado dos EUA diz a parlamentares que Trump quer comprar a Groenlândia
‘Tesouro do Ártico’: Na mira de Trump, Groenlândia reflete velhas ambições expansionistas dos EUA e também é alvo de interesse de Rússia e China
Diante disso, o flerte expansionista de Trump, seja ele real ou bravata, esbarra mais uma vez em algo maior e mais complexo: a própria Otan. Fundada em 1949, a organização conta hoje com 32 membros, que desde a Segunda Guerra Mundial nunca se enfrentaram militarmente — em 2020, Grécia e Turquia tiveram uma tensa disputa de fronteira, mas a questão foi resolvida no âmbito diplomático. A postura de Trump traz um cenário inédito para o grupo transatlântico.
De acordo com a primeira-ministra da Dinamarca, Mette Frederiksen, não restam dúvidas, um ataque dos Estados Unidos a um país da Otan seria o fim da aliança militar do Ocidente. Os dinamarqueses estabeleceram controle colonial sobre a região no século XVIII e concedeu autonomia ao território no século XX.
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Na segunda-feira, o secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, disse a parlamentares que o presidente americano pretende comprar a Groenlândia, e não invadir o território, mesmo que este não esteja à venda. A declaração foi feita em uma reunião de esclarecimento com integrantes das principais comissões de serviços armados e de política externa da Câmara e do Senado, segundo relatos de autoridades americanas. No mesmo dia, Trump pediu que seus auxiliares apresentassem uma versão atualizada de um plano para adquirir a ilha. Rubio, porém, não entrou em detalhes sobre o que quis dizer com a compra.
O magnata o cobiça a Groenlândia desde o primeiro mandato, também por causa de seu potencial de riqueza em minerais críticos. Conhecida como “tesouro do Ártico” por suas riquezas naturais e posição geoestratégica, a ilha contém abundantes recursos naturais ainda inexplorados (como hidrocarbonetos e terras raras). Com uma área de quase 2,2 milhões de quilômetros quadrados — equivalente a quatro vezes o tamanho da Espanha —, dos quais cerca de 80% estão cobertos por uma camada de gelo, esse vasto território situado entre o Atlântico e o Ártico tem apenas 57 mil habitantes, sendo uma das regiões menos densamente povoadas do planeta.
O Serviço Geológico dos EUA estima que a região do Ártico abrigue até 90 bilhões de barris de petróleo, 47,2 bilhões de metros cúbicos de gás natural e 44 bilhões de barris de gás natural liquefeito (GNL). Também é rica em terras raras, que podem ser aproveitadas na fabricação de chips de última geração, um mercado hoje dominado pela China.
O que diz o estatuto da Otan?
O Artigo 5 da Otan determina que um ataque contra um de seus integrantes deve ser considerado uma ofensiva contra toda a aliança, o que pressupõe uma reação conjunta. O dispositivo não faz referência direta a situações nas quais a agressão parte de um próprio membro, nem estabelece distinção clara entre ameaças internas e externas. Na prática, o tratado não inclui uma previsão específica para conflitos entre aliados, deixando esse cenário aberto a leituras e interpretações.
Segundo especialistas, como o Tratado do Atlântico Norte não traz disposições explícitas sobre a condução de um conflito entre países-membros, as consequências de uma escalada desse tipo não são totalmente claras. Eles afirmam, porém, que o próprio texto do acordo oferece diretrizes que poderiam embasar uma resposta possível — ainda que passível de controvérsia.
Avalia-se que, em um cenário hipotético no qual um país da Otan ataque outro membro da aliança, haveria a possibilidade de o Artigo 5 ser acionado. Ainda assim, os desdobramentos dependeriam de qual Estado fosse identificado como o “agressor”, isto é, o responsável por iniciar o confronto. Eles destacam que, na prática, atribuir com precisão quem deu o primeiro passo em uma escalada militar costuma ser um processo complexo — inclusive para os próprios atores envolvidos.
A aliança militar transatlântica
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Trump expressou dúvidas nesta terça-feira de que seus parceiros do tratado de defesa do Atlântico Norte apoiem os Estados Unidos caso precisem deles, de acordo com uma publicação na quarta-feira em sua rede Truth Social.
“Estaremos sempre lá para a OTAN, mesmo que eles não estejam lá para nós”, escreveu ele, um dia depois de a Casa Branca garantir que a via militar está entre as formas possíveis de conseguir a anexação da Groenlândia.
Ele repete em sua mensagem que os gastos militares de muitos membros da OTAN eram insuficientes até que ele interveio. “Os Estados Unidos pagavam tolamente por eles! Com todo o respeito, eu os fiz chegar a 5% do PIB” destinado ao orçamento de defesa, afirmou.
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Há anos, Trump é crítico à Otan. Ele reclamava, antes, da falta de investimento em defesa por parte do Canadá e dos países europeus, e durante o seu primeiro mandato ameaçou se retirar da aliança se os demais membros não aumentassem os gastos militares. Também disse durante a campanha presidencial de 2024 que não seguiria a cláusula de defesa coletiva se os sócios da aliança militar ocidental não cumprissem as metas de desembolso, afirmando que incentivaria a Rússia a fazer “o que diabos quiser” com a Ucrânia.
Ao longo da História, os Estados Unidos têm arcado com mais de 60% do orçamento da Otan. Durante muitos anos, poucos integrantes cumpriram a meta de destinar 2% do PIB à defesa — em 2014, apenas três países atingiam esse patamar. Esse quadro mudou em 2024: após dois anos de guerra na Ucrânia, 23 membros passaram a cumprir o objetivo.
Os defensores da aliança reconhecem que a Europa se beneficiou de décadas de gastos militares reduzidos, o que permitiu priorizar políticas de bem-estar social em vários países. Ao mesmo tempo, argumentam que Washington também foi favorecido pelo compartilhamento do esforço de segurança, pela queda nos custos de vigilância em meio ao mais longo período de paz do continente e pelo fortalecimento de sua posição como principal potência na Europa.







