Entenda: Chance de sucesso de tentativa de Trump de vincular acordo com Irã à normalização de relações com Israel é pequena
Análise: Para conseguir abrir Estreito de Ormuz, Trump deixará outros assuntos espinhosos para depois
A manifestação de Mojtaba foi divulgada por ocasião da festividade muçulmana do Sacrifício (Eid al Adha), um dia após um funcionário do Ministério da Saúde iraniano afirmar que os ferimentos sofridos pelo líder supremo no ataque americano-israelense de 28 de fevereiro, que matou Ali Khamenei, pai e ex-líder supremo, foram apenas “superficiais”. A liderança ainda não fez nenhuma aparição pública, o que levou autoridades dos EUA, incluindo o secretário de Defesa Pete Hegseth, a afirmarem que ele estaria “ferido e desfigurado”.
Um porta-voz do ministério iraniano afirmou na segunda que Mojtaba “entrou na sala de cirurgia junto com outros feridos”, mas que além de “ferimentos superficiais no rosto, na cabeça e nas pernas”, “nada grave ocorreu”. O funcionário rejeitou que tenha sido realizado procedimento de amputação, referindo-se a “um ou dois pontos de sutura”.
Initial plugin text
“O que está claro é que as engrenagens do tempo não voltarão atrás e que os países da região não servirão mais de escudo para as bases americanas”, disse Mojtaba no texto, acrescentando que Washington estaria perdendo influência no Golfo, “afastando-se a cada dia que passa do ‘status’ que tinham” antes do início do conflito.
O comunicado do aiatolá acompanha o tom de desafio de outras autoridades iranianas. O ministro das Relações Exteriores Abbas Araghchi acusou Washington de violar o acordo cessar-fogo vigente desde abril com os ataques de segunda-feira, que o Comando Central dos EUA (Centcom) classificou como uma operação “de autodefesa” na região do Estreito de Ormuz, a fim de proteger tropas americanas de ameaças. A Guarda Revolucionária do Irã ameaçou responder com força a qualquer bombardeio.
“Sem dúvida, a República Islâmica do Irã não deixará nenhum ato de vandalismo impune e não hesitará em defender a integridade do país”, apontou a chancelaria iraniana em um comunicado.
Embora Teerã tenha sofrido os danos mais intensos provocados pela guerra, incluindo a destruição de grande parte de suas capacidades militares e a eliminação de lideranças políticas e militares, as ações iranianas tiveram um efeito mais profundo do que o revelado pelas autoridades ocidentais no decorrer do conflito. Mísseis, foguetes e drones iranianos atingiram ao menos 228 bases e equipamentos militares dos EUA na região, segundo uma investigação do Washington Post.
No fim de semana, o presidente do Parlamento do Irã e principal negociador do país, Mohammad Bagher Ghalibaf, disse que as Forças Armadas iranianas foram reconstruídas durante o cessar-fogo, ameaçando fortes ações militares fortes se o conflito for retomado. A Guarda Revolucionária afirmou ter interceptado um drone MQ-9 americano nesta terça.
Bases militares dos EUA atingidas pelo Irã no Oriente Médio
Arte/O Globo, com Planet Labs PBC/AFP
Diplomacia sob fogo
A ação militar americana de segunda-feira não foi a primeira denunciada por Teerã como uma violação do cessar-fogo. No início de maio, forças americanas atingiram instalações militares iranianas após ataques considerados “não provocados” contra navios de guerra dos EUA que transitavam pela região. A agressão atual, porém, acontece em um momento delicado das negociações de paz, que os dois países deram sinais de que está progredindo, embora apontem que ainda há gargalos a serem superados.
O Ministério das Relações Exteriores iraniano afirmou que os países alcançaram entendimentos sobre muitas questões no âmbito de suas conversas sobre um acordo para encerrar a guerra, mas advertiu que um texto final ainda não é iminente. O secretário de Estado americano, Marco Rubio, disse nesta terça-feira que um acordo ainda era possível, apesar de novos ataques americanos. O presidente dos EUA, Donald Trump, agendou um encontro em Camp David com integrantes do Gabinete de governo na quarta-feira, em meio à expectativa de um acerto.
— Houve algumas conversas no Catar hoje, então vamos ver se conseguimos avançar. Há muita discussão de um lado para o outro sobre a redação específica do documento inicial, então vai levar alguns dias — disse Rubio em Jaipur, durante uma visita oficial à Índia. — O presidente expressou seu desejo de conseguir. Ele ou vai fazer um bom acordo ou não vai ter acordo.
Trump acenou com a possibilidade de um encerramento do conflito no fim de semana, ao afirmar que “grande parte de um acordo” havia sido negociado sob mediação do Paquistão. No entanto, o próprio presidente precisou recuar ainda no domingo, após ser alvo de críticas de republicanos e democratas, que questionaram os supostos termos. Em sua defesa, o presidente americano disse que o texto não estava pronto, e que não iria “se precipitar”.
Em uma publicação na Truth Social no fim de semana, Trump sugeriu que qualquer plano deveria incluir a adesão obrigatória de países de maioria muçulmana do Oriente Médio e regiões próximas aos Acordos de Abraão, mecanismo criado em seu primeiro mandato para a normalização dos laços com Israel. O Irã exige que o Líbano seja alcançado pelo cessar-fogo, algo rejeitado por Israel, que continua a bombardear o Hezbollah.
Sinais de Teerã
Internamente, o regime iraniano tem tentado passar uma imagem de coesão social e força após os danos sofridos no conflito. O aparato governamental intensificou uma campanha de sufocamento de dissidências internas, o que fez o país se tornar o segundo país do mundo com mais execuções de presos, e incitou a participação civil na defesa da unidade nacional, promovendo treinamentos ao uso de fuzil em espaços públicos.
Autoridades iranianas anunciaram a execução de um homem condenado por espionagem para o serviço de inteligência israelense Mossad nesta terça-feira, o mais recente de uma série de casos semelhantes desde 28 de fevereiro.
Em contrapartida, o governo deu um sinal à população civil de uma possível reabertura. O país começou a restabelecer o acesso à internet, bloqueado por 88 dias segundo o monitor da NetBlocks, tornando-se “o mais longo bloqueio nacional da internet na história moderna”. (Com NYT e AFP)






