‘Droga e estupro’, ‘efeitos do ecstasy’: Senador francês acusado de dopar deputada para abuso fez buscas suspeitas no Google
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Joël Guerriau foi considerado culpado de administrar, sem o conhecimento da vítima, uma substância capaz de alterar o discernimento — identificada pelo Ministério Público como ecstasy — à deputada da Assembleia Nacional Sandrine Josso. Ele também foi condenado por posse ilegal de entorpecentes.
No veredicto, o tribunal concluiu que Josso ingeriu ecstasy “em um nível muito acima da dose recreativa usual”, o que provocou “problemas físicos significativos que prejudicaram seu discernimento e o controle sobre seus atos”.
A sentença impôs a Guerriau quatro anos de prisão, sendo 30 meses em regime suspenso, além de cinco anos de inelegibilidade eleitoral. Ele também deverá pagar à deputada uma indenização de 9 mil euros, cerca de 11 mil dólares. Os juízes rejeitaram a tese da defesa de que a droga teria sido administrada “inadvertidamente”. O advogado do ex-senador afirmou, após o julgamento, que irá recorrer da decisão, o que suspende a execução da pena.
“Espero que outras vítimas também consigam se reconstruir um pouco”, disse Josso a repórteres no tribunal. Ela afirmou ainda que o desfecho do processo trouxe um “alívio enorme”.
A decisão judicial também determina que Guerriau, de 68 anos, seja submetido a tratamento psicológico ou psiquiátrico e o proíbe de manter qualquer contato com a deputada.
Debate sobre ‘submissão química’
O julgamento ocorreu em meio a um contexto de forte sensibilidade na França sobre crimes sexuais facilitados por drogas. Um ano antes, um tribunal havia condenado Dominique Pelicot e dezenas de outros homens por estuprar a ex-esposa de Pelicot, Gisèle Pelicot, enquanto ela estava sedada.
Segundo a imprensa francesa, Guerriau — que renunciou ao mandato de senador em outubro de 2025 — admitiu em juízo possuir a substância, mas afirmou não saber que se tratava de ecstasy e negou ter drogado Josso conscientemente ou ter tido intenção de agredi-la sexualmente.
Durante os dois dias de julgamento, a defesa sustentou que o ex-senador teria colocado a droga em um copo para consumo próprio no dia anterior, mas não a utilizou, esquecendo-se de que a substância permanecia no fundo do recipiente quando serviu o champanhe à deputada. Guerriau não comentou publicamente o caso.
As acusações remontam a novembro de 2023, quando Josso relatou o episódio em entrevista ao canal France 5, poucos dias após o ocorrido. Segundo ela, Guerriau, amigo de longa data, a convidou para seu apartamento para comemorar sua reeleição. Após beber champanhe, começou a passar mal.
“Ele estava na cozinha e colocou um saquinho branco de volta em uma gaveta embaixo da bancada”, disse Josso. “E então eu entendi. Pensei comigo mesma: ‘O que é esse saco?’”
A deputada contou que conseguiu deixar o local, chamando um táxi para retornar à Assembleia Nacional. Ela passou a noite no hospital e registrou queixa na polícia na manhã seguinte. “Achei que ia morrer”, afirmou.
Ainda na entrevista à France 5, Josso disse que o episódio revelou a dimensão do problema: “Os médicos e enfermeiros me disseram: ‘Senhora, pessoas como a senhora chegam aqui todos os dias, três vezes por dia’. Eu disse: ‘Isso não é possível’.”
Desde então, a parlamentar passou a alertar publicamente sobre a chamada “submissão química”, prática de drogar vítimas com fins criminosos. Ela também prestou apoio a vítimas em outros grandes julgamentos na França, como o de Dominique Pelicot e o do cirurgião Joël Le Scouarnec, condenado por estuprar e agredir sexualmente 299 pessoas ao longo de 25 anos, muitas delas sob anestesia.
Josso se associou a organizações como a “Don’t Put Me to Sleep” (“Não Me Faça Dormir”), criada por Caroline Darian, filha de Gisèle Pelicot, para conscientizar sobre crimes facilitados por drogas. A deputada também articulou a criação de uma comissão parlamentar para investigar o problema no país.
Em dezembro passado, a ministra da Saúde, Stéphanie Rist, acatou recomendação da comissão para permitir o reembolso de exames médicos destinados à detecção de drogas sem a exigência prévia de registro policial. Três regiões francesas passaram a adotar a medida neste mês, de forma temporária, com validade prevista de três anos.
Em entrevista à rádio France Info, Josso afirmou que desenvolveu dores crônicas nas costas e problemas dentários em decorrência do estresse causado pelo crime e que ainda enfrenta dificuldades para retomar a vida normal.
“O trauma psicológico é como ficar congelada”, disse. “Seu cérebro continua preso ao dia da provação.”
Ao defender a criação de uma “verdadeira política pública” para enfrentar crimes relacionados ao uso de drogas, a deputada disse esperar que o julgamento tenha caráter pedagógico.
“O que eu realmente quero é que as vítimas na França deixem de ser invisíveis e socialmente isoladas”, concluiu.








