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O anúncio de Trump ocorreu horas depois de ele ter dito a líderes europeus em Davos, na Suíça, que não aceitaria nada menos do que a posse da Groenlândia pelos Estados Unidos — ao mesmo tempo em que retirava a ameaça de invasão. O presidente americano havia prometido graves consequências econômicas e de segurança para a Europa caso não conseguisse o que queria.
Na terça-feira, o republicano havia aumentado suas ameaças e provocações às vésperas de sua participação do Fórum Econômico Mundial, em Davos, e o Parlamento Europeu reagiu com o anúncio de suspensão da ratificação do acordo de comércio assinado com Washington em julho passado, que removeria tarifas sobre produtos industriais dos EUA.
Aplicando forte pressão sobre oponentes à anexação da Groenlândia, Trump anunciou dias atrás tarifas de 10% a oito países europeus a partir de 1º de fevereiro — e que podem aumentar para 25% em junho, até que aceitem a anexação — o que levou a reações fortes na Europa. Além da suspensão da ratificação, a União Europeia discute a imposição de tarifas retaliatórias aos EUA no valor de 93 bilhões de euros (R$ 580 bilhões), assim como restrições ao acesso de empresas americanas ao bloco europeu.
Ao chegar a Davos nesta quarta-feira, Trump descartou o uso da força para incorporar a Groenlândia, mas reiterou que apenas Washington teria condições de garantir a segurança da ilha. Na publicação realizada em sua rede social Truth Social, o presidente americano afirmou ainda que o vice-presidente JD Vance, o secretário de Estado Marco Rubio, o enviado especial Steve Witkoff e outros funcionários continuariam liderando as negociações sobre a Groenlândia. Rutte e os líderes da Dinamarca também não divulgaram detalhes. A Otan não respondeu imediatamente a um pedido de comentário no New York Times.
Em entrevista à CNBC, Trump afirmou ter chegado a um “conceito de acordo” envolvendo a Groenlândia, mas ofereceu poucos detalhes, além de descrever a duração do acordo como “eterna”. Questionado por um repórter da CNN se o acordo que ele estava negociando com os líderes europeus ainda envolvia a posse da Groenlândia pelos EUA, Trump hesitou, olhando para cima enquanto pensava no que dizer, antes de afirmar:
— É um acordo de longo prazo. É o acordo de longo prazo definitivo. (…) Não há prazo limite. É um acordo para sempre — respondeu.
A declaração do líder republicano indica que Rutte teria conseguido diminuir a tensão com Trump após dias de ameaças e insultos contra líderes europeus que resistiam à sua expansão territorial. Independentemente dos detalhes de qualquer acordo, a decisão do presidente de recuar na imposição de novas tarifas elevadas sobre países europeus ocorreu dias depois de os mercados financeiros reagirem negativamente à perspectiva de uma escalada comercial de retaliação entre os dois países. Alguns analistas acreditavam que uma batalha prolongada ameaçava prejudicar a economia dos EUA, e não apenas os países que Trump vinha pressionando em relação à Groenlândia.
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No entanto, não foi a primeira vez que o presidente recuou de seus planos tarifários, especialmente após uma forte reação do mercado. Desde o início de sua guerra comercial, ele tem adotado uma postura intermitente em relação a algumas de suas tarifas mais punitivas.
Em discurso que reacendeu tensões com aliados europeus, o líder republicano evocou a Segunda Guerra Mundial para afirmar que Copenhague foi incapaz de defender o território no passado e insistiu na abertura imediata de negociações para a compra da região, que classificou como estratégica em um cenário global de crescentes ameaças militares. O americano não poupou palavras ao classificar a Dinamarca como “ingrata” e declarar que sua ambição em relação à ilha é “pequena” se comparada a “tudo o que os EUA fizeram” pela aliança militar do Ocidente (Otan).
Mais cedo, dirigindo-se a uma sala repleta de chefes de Estado, bilionários e outros líderes mundiais, Trump afirmou repetidamente que os Estados Unidos precisavam da Groenlândia para fins de segurança nacional. Ele declarou que somente os EUA são fortes o suficiente para defender a Groenlândia de ameaças externas e que defendê-la só faria sentido se os Estados Unidos fossem os donos da ilha.
Ele pediu “negociações imediatas” para discutir a transferência da propriedade do território para os EUA e ridicularizou os países europeus, dizendo que eles estão irreconhecíveis em relação à sua antiga beleza e dependentes dos Estados Unidos.
— Sem nós, a maioria dos países nem funciona — disse Trump.
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Coação para conquistar
O dia sintetizou a abordagem do presidente americano em seu segundo mandato em relação ao poder global e à formulação de políticas: alternando entre coagir e humilhar aliados outrora próximos na busca de um objetivo que ele parece considerar uma peça fundamental de seu legado.
— Provavelmente não conseguiremos nada a menos que eu decida usar força excessiva, onde seríamos, francamente, imparáveis — afirmou Trump. — Mas eu não farei isso. Essa é provavelmente a declaração mais importante, porque as pessoas pensavam que eu usaria a força. Eu não preciso usar a força. Eu não quero usar a força. Eu não usarei a força. Tudo o que os Estados Unidos estão pedindo é um lugar chamado Groenlândia.
Poucos instantes depois, porém, Trump fez ameaças explícitas e implícitas aos líderes europeus caso não atendessem aos seus desejos. Ele lembrou à plateia que havia imposto unilateralmente taxas sobre as importações para os Estados Unidos provenientes de países da Europa e de outros continentes, tendo já ameaçado aumentar as tarifas sobre a Dinamarca e outros países europeus que defendem a soberania dinamarquesa sobre a ilha.
Como costuma acontecer em suas delicadas relações com Trump, alguns líderes europeus reagiram ao que consideraram o ponto mais positivo do discurso — sua promessa de não enviar tropas — e expressaram esperança de que pudessem chegar a um acordo sobre o futuro da Groenlândia.
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Rasmus Jarlov, presidente da comissão de Defesa do Parlamento dinamarquês, disse em entrevista que “já ouvimos coisas muito piores” de Trump.
— Fico feliz que ele esteja descartando o uso da força militar — disse Jarlov. — Não vi em seu discurso de hoje uma escalada. Ele insiste que quer a Groenlândia, mas isso não é novidade. É claro que continuamos insistindo que não vamos entregar a Groenlândia.
O discurso do presidente americano, no entanto, deixou pouca margem para concessões. Muitos líderes europeus têm afirmado que não podem aceitar ceder a Groenlândia aos Estados Unidos, mas também dizem estar abertos a quase qualquer outro acordo que expanda a presença americana na região. Na quarta-feira, Trump disse, novamente, que isso não seria suficiente.
— É preciso que os proprietários defendam isso — afirmou. Um instante depois, acrescentou: — Quem diabos quer defender um contrato de licença ou um arrendamento?
(Com New York Times)








