Trump se pronuncia após morte: ‘Deixem os nossos agentes de imigração fazerem seu trabalho’
Entenda o caso: Homem baleado por agente federal em Minneapolis morre no hospital e seria cidadão americano; governador denuncia caso como ‘atroz’
Vídeos compartilhados nas redes sociais que mostram o momento que um homem foi baleado por agentes federais em Minneapolis. O Departamento de Segurança Interna (DHS) afirmou que o episódio começou depois que um homem abordou agentes da Patrulha da Fronteira com uma arma de fogo, e que eles tentaram desarmá-lo.
No entanto, imagens do local analisadas pelo New York Times mostram que o homem segurava um telefone na mão enquanto se aproximava dos agentes. Ele também não parece ter tentado sacar a arma enquanto era imobilizado, embora não esteja claro de onde partiu o primeiro disparo. Algumas das gravações circulam nas redes.
‘O estado vai cuidar disso’: Governador do Minnesota diz que ‘não se pode confiar’ em investigação federal sobre disparos
Medo de retaliação
Os relatos das testemunhas constam em declarações sob juramento apresentadas em um tribunal federal de Minnesota no final da noite de sábado, poucas horas após o assassinato de Pretti. Os depoimentos fazem parte de um processo movido por uma organização americana sem fins lucrativos de direitos civis, a ACLU, em nome de manifestantes de Minneapolis contra a secretária do DHS, Kristi Noem, e outros funcionários do Departamento de Segurança Interna que comandam a repressão à imigração na cidade.
Os nomes de ambas as testemunhas foram omitidos nos documentos públicos. Uma delas é uma mulher que filmou o vídeo mais nítido do tiroteio fatal e a outra é profissional médica que mora nas proximidades do local onde Pretti foi morto e disse que inicialmente foram impedidos por agentes federais de prestar socorro à vítima do tiro.
Em seu depoimento, a mulher que filmou os disparos logo atrás de Pretti, vestindo um casaco rosa, identificou-se como “uma animadora infantil especializada em pintura facial”. Ela testemunhou que foi ao local a caminho do trabalho porque tem participado de atividades de observação na comunidade, porque, segundo ela, “é muito importante documentar o que o ICE está fazendo com meus vizinhos”.
Vice-presidente: Vance culpa ‘extrema esquerda’ por ‘caos’ em Minnesota após morte de homem baleado por agentes federais
Ela descreveu a cena angustiante de Pretti sendo imobilizado por agentes federais após socorrer outra pessoa que havia sido atingida por spray de pimenta e derrubada pelos agentes. Um agente federal então borrifou um agente químico nos rostos de Pretti e da mulher que ele tentara ajudar. A testemunha relatou não ter visto nenhum sinal de que o enfermeiro estivesse com uma arma em nenhum momento.
Segundo a testemunha, Pretti estava observando e ajudando a direcionar o tráfego ao redor de um comboio de veículos federais antes de ela e a vítima se aproximarem para documentar a atividade de imigração com seus celulares. Quando um agente pediu que eles recuassem, a testemunha contou que eles foram para a calçada, mas Pretti permaneceu na rua filmando. Na sequência, o enfermeiro se aproximou de outros dois observadores na rua enquanto eles eram ameaçados com spray de pimenta e um deles foi empurrado ao chão, disse a testemunha. Um agente então borrifou spray no rosto dos três, e Pretti colocou as mãos acima da cabeça e foi borrifado novamente e empurrado pelo agente, acrescentou.
— Os agentes derrubaram o homem no chão. Eu não o vi tocar em nenhum deles, ele nem estava virado para eles. Não parecia que ele estava resistindo, apenas tentando ajudar a mulher a se levantar. Eu não o vi com uma arma — relatou a mulher em depoimento. — Eles o jogaram no chão. Quatro ou cinco agentes o imobilizaram e começaram a atirar nele. Atiraram tantas vezes… Eu não sei por que atiraram nele. Ele só estava ajudando. Eu estava a um metro e meio dele e eles simplesmente atiraram.
Leia mais: Casaco de comandante do ICE vira símbolo de batalha por imigração por semelhança com uniforme nazista
O relato oficial do DHS foi de que o homem teria confrontado agentes da Patrulha da Fronteira dos EUA — deslocados para o estado a mando de Trump — armado com uma pistola durante uma operação que tinha por alvo um imigrante acusado de violência. O agente, segundo o departamento, efetuou disparos contra Pretti “ao temer pela própria vida”.
Em uma entrevista coletiva na noite de sábado, a secretária de Segurança Interna, Kristi Noem, afirmou que Petti tinha como objetivo matar policiais, repetindo alegações feitas por outros membros do governo. Greg Bovino, um comandante da Patrulha da Fronteira, chamou Pretti de “homem armado” e disse que ele abordou agentes federais “empunhando” uma arma e ameaçou “massacrá-los”.
Em seu relato, a mulher que acompanhou o momento de perto disse que leu a declaração do DHS sobre o incidente e a classificou como “errada”, reiterando que o enfermeiro não estava armado, mas segurando uma câmera. A animadora infantil contou ainda que está com medo de sofrer represálias dos agentes por ter testemunhado a situação e por isso não retornou à sua casa já que, segundo ela, os oficiais estariam a procurando.
— Não sei o que os agentes farão quando me encontrarem. Eu sei que eles não estão dizendo a verdade sobre o que aconteceu.
‘Terrorista doméstico’ ou ‘Força do bem’?: Morte de enfermeiro por disparos de agentes federais nos EUA alimenta narrativas políticas
Sem prestação de socorro
A segunda testemunha, uma pessoa cujo nome e gênero não foram revelados, disse em seu depoimento que viu o momento dos disparos da janela de seu apartamento, próximo ao local. Antes do tiroteio, a testemunha — um profissional médico de 29 anos — contou que viu Pretti gritando com os oficiais, mas “não o viu atacar os agentes ou sacar qualquer tipo de arma”. Depois dos disparos, a pessoa afirmou que tentou prestar socorro médico, foi inicialmente impedida.
— A princípio, os agentes não me deixaram passar — disse. — Mas nenhum dos que estavam perto da vítima estava realizando RCP (manobras de reanimação cardiopulmonar), e eu percebi que a vítima estava em estado crítico. Insisti para que os agentes do me deixassem avaliá-lo.
Mais um shutdown?: Morte de enfermeiro por agentes federais em Minneapolis aumenta possibilidade de outra paralisação do governo dos EUA
Segundo o relato, quando a testemunha finalmente convenceu os agentes a deixá-la passar, ela disse que ficou confusa sobre o motivo de a vítima estar deitada de lado, mas, em vez de os agentes estarem verificando seu pulso ou realizando RCP, eles “pareciam estar contando seus ferimentos à bala”.
— A vítima tinha pelo menos três ferimentos à bala nas costas — disse a testemunha, além de um na parte superior esquerda do tórax e outro possível ferimento de bala no pescoço. — Verifiquei o pulso, mas não senti nenhum.









