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A onda de protestos ganhou força a partir de 28 de dezembro, quando a insatisfação explodiu em Teerã após uma nova e brusca desvalorização da moeda iraniana frente ao dólar. Imagens confirmadas dos últimos dez dias mostram manifestações antigoverno em mais de 50 cidades, inclusive em áreas historicamente consideradas leais ao regime.
Mais de cem vídeos, geolocalizados e checados quanto à data de publicação, revelam a extensão da instabilidade, com pessoas ocupando ruas de grandes centros urbanos. Trata-se, segundo a BBC, do maior teste ao Estado iraniano desde os protestos “Mulher, Vida e Liberdade”, deflagrados em 2022.
Os registros incluem atos em Qom, no centro do país, e Mashhad, no nordeste — cidades tradicionalmente associadas a forte apoio à República Islâmica. Para especialistas, a presença de protestos nessas localidades é reveladora e indica que até a base de sustentação do governo sofre os efeitos da crise econômica.
Historicamente, as autoridades iranianas recorrem à violência para reprimir levantes. Em 2022, após a morte sob custódia de Mahsa Amini, detida por uso considerado inadequado do hijab, mais de 550 pessoas teriam sido mortas por forças de segurança, segundo organizações de direitos humanos. Desta vez, a resposta inicial pareceu mais contida, mas vídeos verificados mostram intensificação do uso da força desde sábado.
A BBC Persian confirmou até agora a identidade de ao menos 11 mortos desde 28 de dezembro, com base em vídeos de funerais e entrevistas com familiares. Já a ONG HRANA, sediada no exterior, estima pelo menos 35 mortos, incluindo dois integrantes das forças de segurança, enquanto a ONG Iran Human Rights (IHR), com sede na Noruega, reportou ao menos 27 manifestantes, incluindo cinco menores de idade, mortos em balanço divulgado nesta terça-feira.
A agência de notícias Fars reportou, nesta quarta-feira, duas mortes e cerca de 30 feridos. Segundo o comunicado, os comerciantes participavam de um ato na cidade de Lordegan, a 455 quilômetros ao sul de Teerã, quando “arruaceiros começaram a lançar pedras contra as forças da ordem”, entre os quais havia alguns com armas militares e de caça que “abriram fogo repentinamente contra a polícia”. A Fars não detalhou se os mortos eram policiais ou manifestantes.
Ordens de não repressão
O presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, ordenou, nesta quarta-feira, às forças de segurança que não reprimam os protestos e distinguiu entre os manifestantes e aqueles que chamou de “vândalos”.
Pezeshkian não é a figura mais importante do governo da república islâmica, representada pelo líder supremo, aiatolá Ali Khamenei, mas o fato de Pezeshkian ter se sentido obrigado a ordenar que as forças de segurança mostrem moderação é interpretado como um sinal de que o governo está preocupado.
Manifestante arremessa pedra contra prédio do governo em Fasa, no sul do Irã, durante protesto
UGC / AFP
Em um vídeo publicado pela agência de notícias Mehr após uma reunião do gabinete, o vice-presidente Mohammad Jafar Ghaempanah disse que Pezeshkian “ordenou que não fossem adotadas medidas de segurança contra os manifestantes”. “Quem porta arma de fogo, facas, facões e ataca delegacias e locais militares são vândalos, e é preciso distinguir entre manifestantes e vândalos”, acrescentou Ghaempanah.
O general Amir Hatami, comandante do exército iraniano, alertou que Teerã não tolerará ameaças externas.
Segundo a agência de notícias Fars, Hatami disse que “se o inimigo cometer um erro”, a resposta do Irã seria mais contundente do que durante a guerra de 12 dias com Israel, em junho de 2025.
Falas de Trump
Nos últimos dias, o presidente americano, Donald Trump, ameaçou intervir no Irã “se começar a matar pessoas como fez no passado” e o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, expressou seu apoio aos protestos.
O regime iraniano respondeu, afirmando que a segurança local era uma “linha vermelha”. Não se sabe até que ponto Trump está disposto a usar seu poderio militar — como quer um de seus maiores aliados , Israel — mas o resultado final pode não ser o esperado pela Casa Branca.
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A mensagem publicada por Trump na rede Truth Social foi publicada na última sexta-feira em tom enigmático: se o regime matasse manifestantes, “como é seu costume, os Estados Unidos da América virão em seu auxílio”, e que seu governo está “pronto para agir”. Ele não deu detalhes sobre o que poderia fazer, ou qual seria o limiar para uma ação.
Em Teerã, o regime reagiu com declarações inflamadas e ameaças. Ali Larijani, secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional, disse que Trump “deveria saber que a interferência americana nessa questão interna equivale ao caos em toda a região e à destruição dos interesses americanos”. Abbas Araghchi, chanceler, chamou o comportamento do americano de “inconsequente e perigoso”. Ali Shamkhani, conselheiro do líder supremo, Ali Khamenei, declarou que a segurança do Irã é uma “linha vermelha, e não é material para postagens aventureiras”, e que “qualquer tentativa de interferência na segurança do Irã sob pretextos será interrompida com uma resposta lamentável”.







