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De acordo com o estudo do Centro para Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS), desde a decisão do presidente Vladimir Putin de invadir o país vizinho, tomada em fevereiro de 2022, 1,2 milhão de militares russos morreram, foram feridos ou estão desaparecidos — o número de mortos é estimado em 325 mil. O ano passado foi o mais violento para as tropas, com 415 mil baixas, ou cerca de 35 mil por mês. A Rússia não atualiza seus números há mais de dois anos.
“O número de mortos russos nos campos de batalha da Ucrânia é mais de 17 vezes maior do que o número de mortos soviéticos no Afeganistão durante a década de 1980, 11 vezes maior do que durante a Primeira e a Segunda Guerras da Chechênia, nas décadas de 1990 e 2000, respectivamente, e mais de cinco vezes maior do que o total de mortos em todas as guerras russas e soviéticas combinadas desde a Segunda Guerra Mundial”, afirma o CSIS.
As estatísticas se referem apenas a combatentes, e não incluem mortes entre civis: segundo a ONU, cerca de 15 mil pessoas morreram desde 2022, mas o número real pode ser ainda maior.
Pelo lado ucraniano, estima-se cerca de 600 mil baixas, com até 140 mil mortes confirmadas. Caso a guerra siga seu curso atual, ou seja, sem acordos de paz ou pausas temporárias, o levantamento afirma que o número combinado de mortos, feridos e desaparecidos passará de dois milhões no segundo semestre de 2025.
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Nos primeiros dias da invasão, muitos no Kremlin e fora dele apostaram em uma invasão rápida, com as tropas russas avançando sem dificuldades até Kiev, onde poderiam depor o presidente Volodymyr Zelensky e instaurar um governo mais afável a Moscou. A realidade se mostrou um pouco mais complexa: o comboio de blindados e tanques russos rumo à capital ucraniana virou alvo fácil da artilharia e dos drones ucranianos, e o que se começou como uma possível intervenção relâmpago virou uma violenta guerra de trincheiras.
Para os responsáveis pelo estudo, a Rússia apostou na guerra de atrito como parte de uma estratégia para desgastar as forças ucranianas e pressionar a sociedade do país a aceitar uma capitulação. Segundo pesquisas realizadas dentro da Ucrânia, apesar do número de pessoas favoráveis a um acordo rápido ter aumentado, a maioria não quer se render.
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Conquistas de cidades importantes foram obtidas a um elevado custo humano, e nos últimos dois anos os avanços foram cada vez mais tímidos, mesmo com a diferença entre os poderios militares de Rússia e Ucrânia. Em três ofensivas estratégicas no leste ucraniano — Chasiv Yar, Kupiansk e Pokrovsk — o avanço médio diário das tropas foi de menos de 100 metros por dia. O ritmo foi mais lento do que o de um dos mais famosos episódios da Primeira Guerra Mundial, a Batalha do Somme, exemplo clássico de guerras travadas em trincheiras.
“A Rússia sofreu o maior número de baixas entre as grandes potências em qualquer guerra desde a Segunda Guerra Mundial, e seu desempenho militar tem sido fraco, com taxas de avanço historicamente lentas e pouco território conquistado nos últimos dois anos”, afirma o estudo. “Para efeito de comparação, o Exército Vermelho levou 1.394 dias após a Operação Barbarossa (a invasão alemã da União Soviética) para chegar a Berlim na Segunda Guerra Mundial. A Rússia atingiu essa marca (1.394 dias) em 19 de dezembro de 2025, mas mal havia chegado a Pokrovsk, a mais de 500 quilômetros de Kiev.”
Soldados russos erguem bandeira do país no centro de Pokrovsk, cidade estratégica na Ucrânia
Ministério da Defesa da Rússia / AFP
Longe do front, em território russo, a guerra também se faz sentir, e não apenas nos ataques com drones ucranianos. O CSIS destacou o impacto na economia, citando as sanções internacionais impostas a empresas de energia e ao sistema financeiro local, a queda no volume de investimento externo e nos níveis de produtividade, e da inflação, hoje em 5,6% ao ano, mas que esteve perto dos 10% há alguns meses. O esforço de uma economia de guerra, afirma o estudo, ajudou a manter o crescimento do PIB, mas deixou lacunas em indústrias como a de alta tecnologia e serviços.
O iminente retorno de centenas de milhares de veteranos, muitos deles criminosos condenados que foram à linha de frente em troca do perdão, já causa efeitos econômicos (na forma de pensões) e sociais, especialmente em áreas mais pobres. E embora a propaganda oficial garanta que o apoio da sociedade à guerra segue intacto, pesquisas recentes expõem o cansaço dos russos com o conflito que ainda parece longe do fim.






