Nasa e China planejam instalar reatores nucleares na Lua: Especialista explica estes projetos à luz do direito espacial
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Perguntado sobre as implicações jurídicas da demarcação perante países fora dos Acordos Artemis — bloco liderado pelos Estados Unidos do qual a China não faz parte —, o administrador da Nasa, Jared Isaacman, desconversou.
“Estamos operando muito cientes do Tratado do Espaço”, disse, referindo-se ao acordo da ONU de 1967 que proíbe qualquer nação de reivindicar soberania sobre territórios em corpos celestes. “Queremos explorar. Vamos fazer reconhecimento”, completou, sem aprofundar. A resposta esquiva não disfarçou a mensagem implícita de que chegar primeiro é chegar melhor.
O instrumento central dessa estratégia territorial é o Moonfall, um drone lunar capaz de realizar múltiplos voos de curta distância entre pontos distintos da superfície, sendo essencialmente um minifoguete reutilizável, tecnologia inédita na exploração espacial.
O uso previsto para os veículos vai além do reconhecimento científico: posicionados estrategicamente, eles funcionarão como balizas físicas que antecipam a chegada dos astronautas e estabelecem, na prática, os limites da zona de operação americana.
Novo plano de construção da base lunar americana
Divulgação/Nasa
Para entender o momento atual da disputa, é preciso olhar para o passado. Em 2020, os Acordos Artemis estabeleceram regras de conduta para a exploração civil do espaço, entre elas a delineação de zonas de segurança operacional ao redor de infraestruturas lunares — ao que Pequim respondeu criando um tabuleiro paralelo, ao lado da Rússia.
Apesar das analogias tentadoras, classificar a atual conjuntura como uma mera repetição da Guerra Fria parece simplificar uma realidade bastante multifacetada. Tratados internacionais, como o do Espaço Sideral da década de 1960, proíbem expressamente reivindicações de soberania sobre a Lua ou qualquer corpo celeste.
No entanto, o Artigo IX do mesmo tratado exige que os países evitem “interferência prejudicial” nas missões de outros Estados. Na prática, quem chegar primeiro ao polo sul lunar controlará zonas operacionais estratégicas imensas.
Frente ao rápido avanço do programa espacial chinês, os Estados Unidos estabeleceram recentemente uma guinada radical na empreitada lunar. O cronograma, há muito pressionado por atrasos técnicos e orçamentários, foi virado de cabeça para baixo pela nova liderança da Nasa, sob o comando de Isaacman.
Veículos lançadores de EUA e China
Editoria de Arte
Pela ousadia técnica do projeto, a Nasa o atribuiu ao tradicional Jet Propulsion Laboratory (JPL), laboratório responsável por suas missões robóticas mais ambiciosas. A empresa Firefly, que realizou um pouso lunar bem-sucedido no ano passado, foi contratada para levar os drones à superfície.
Para percorrer esse território delimitado, a Nasa contratou as empresas Astrolab e Lunar Outpost para desenvolver os Lunar Terrain Vehicles (LTVs), veículos que transportarão dois astronautas cada, com velocidade máxima de 10 km/h e autonomia de até 200 km, quatro vezes o total acumulado por qualquer rover já operado em outro corpo celeste.
O transporte dos veículos até a superfície ficará a cargo da Blue Origin, com o módulo Blue Moon Mark 1. Além de pilotados, os LTVs poderão operar de forma autônoma, como missões robóticas. A General Motors integra o consórcio como subcontratante da Lunar Outpost.
A nova marca “Moon Base”
Outro movimento importante do anúncio desta terça foi incorporar formalmente ao programa missões que já estavam em fase avançada de desenvolvimento. A primeira delas, rebatizada Moon Base 1, será conduzida pelo próprio Blue Moon Mark 1, da Blue Origin, de Jeff Bezos, com lançamento previsto ainda neste ano.
O sucesso da missão é estratégico, já que a Blue Origin também é fornecedora de módulos de pouso tripulados, e o desempenho do Mark 1 pavimenta o caminho para o Mark 2, versão tripulada que deverá levar astronautas à superfície.
Projeto de base dos EUA na Lua
Nasa
As missões Moon Base 2 e 3 envolverão módulos da Astrobotic e da Intuitive Machines. A experiência recente das duas empresas ainda é uma questão, pois a primeira tentou, sem sucesso, um pouso anterior; a segunda realizou dois pousos com os módulos tombados, mas ainda operacionais. A programação é que os dois módulos devem voar antes de dezembro.
Três fases até a base permanente
O plano está dividido em três etapas. A primeira, em curso até 2029, prevê 25 missões, sendo 21 com pouso efetivo. O pacote de exploração também inclui testes de energia, navegação e comunicação, e a entrega de quatro toneladas de equipamentos para validar sistemas na superfície.
Rovers da Nasa que pousará na Lua
Divulgação/Astrolab
A segunda fase, entre 2029 e 2032, inclui a instalação de energia solar expandida, possivelmente reatores de fissão nuclear, e os primeiros módulos de habitação, com até 60 toneladas de carga em 24 pousos. A terceira, a partir de 2032, prevê rotação regular de tripulações, energia nuclear contínua e abastecimento anual de até 38 toneladas para manter a base em funcionamento permanente.
O programa regular de cargas lunares contratadas com empresas privadas segue em paralelo, com novos contratos previstos para o próximo mês. A Nasa também abrirá chamada de propostas para uma fase 2.0 do programa, com prazo até 30 de junho, com o objetivo de acelerar o ritmo das missões robóticas antes que qualquer outro país consolide presença na mesma região.







