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Um comunicado da Fundação de Veteranos e Mártires do Irã, citado pela televisão estatal, afirmou que 2.427 pessoas do total de mortos, incluindo integrantes das forças de segurança, são consideradas “mártires” segundo o islamismo e descritos como vítimas “inocentes”.
As autoridades iranianas classificaram o movimento de contestação como um incidente “terrorista”, marcado por “distúrbios” supostamente incentivados pelos Estados Unidos.
Por outro lado, grupos de defesa dos direitos humanos afirmam que milhares de manifestantes foram mortos a tiros pelas forças de segurança.
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A ONG Iran Human Rights (IHR), com sede na Noruega, diz ter verificado a morte de 3.428 manifestantes pelas mãos das forças de segurança, mas alerta que o número real pode ser maior. Segundo a entidade, algumas estimativas indicam que “entre 5 mil e 20 mil manifestantes podem ter sido assassinados”.
De acordo com a instituição, a maioria dos mortos era formada por homens jovens, embora mulheres e menores de idade também estejam entre as vítimas.
As organizações que monitoram o número de vítimas afirmam que os esforços para determinar uma cifra precisa foram seriamente prejudicados pelo bloqueio da internet imposto pelas autoridades iranianas.
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A Netblocks, organização especializada em cibersegurança, afirma que essa obstrução das comunicações já dura mais de 300 horas.
A Fundação de Veteranos e Mártires, organização financiada pelo Estado, afirma ainda que muitos dos mortos “eram transeuntes” que morreram baleados durante os protestos.
O texto também sustenta que “alguns eram manifestantes que foram atingidos por tiros disparados por elementos terroristas organizados infiltrados na multidão”, sem apresentar provas ou detalhes.
Perfil das vítimas
Com a suspensão parcial do bloqueio da internet no país, histórias individuais começam a circular, revelando a diversidade de perfis atingidos pela repressão: profissionais liberais, artistas, trabalhadores autônomos e estudantes.
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Uma dessas vítimas é Negin Ghadimi, de 28 anos, formada em engenharia biotecnológica. Segundo relato de uma fonte próxima da família à IHR, Negin participava de uma manifestação em Tonekabon, na província de Mazandaran, quando foi baleada pelas forças de segurança.
Durante a dispersão do protesto, após o uso de gás lacrimogêneo, ela se separou do pai, que tentou convencê-la a deixar o local. “Por que deveríamos voltar? Do que você tem medo?”, teria respondido antes de ser atingida por um disparo. Ferida no lado do corpo, morreu antes de conseguir chegar a um hospital.
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Outro caso é o de Reza Eskandarpour, carpinteiro de 37 anos e dono de uma oficina em Teerã. Segundo a IHR, ele foi morto no dia 8 de janeiro, no oeste da capital, ao tentar socorrer um amigo baleado durante um protesto. Reza foi atingido por seis tiros disparados por um atirador posicionado no topo de um prédio próximo.
No enterro, realizado no cemitério Behesht Zahra, familiares entoaram slogans contra o governo. De acordo com uma fonte, agentes de segurança apagaram imagens da cerimônia dos celulares da família.
Entre as mulheres mortas, está Sara Behboodi, de 45 anos, montanhista experiente que havia escalado alguns dos principais picos do Irã. Ela morreu baleada na cidade de Rasht, uma das regiões que concentraram protestos mais intensos, segundo a IHR.
Imagens divulgadas pelo site IranWire mostram Sara sorrindo no topo do monte Kamal, no noroeste do país, dias antes de sua morte.
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Na cidade vizinha de Lahijan, Sanam Pourbabayi, professora de violino, também foi morta durante a repressão, de acordo com a ONG Hengaw, igualmente sediada na Noruega. Após sua morte, um vídeo em que ela aparece tocando violino ao lado de um guitarrista passou a circular nas redes sociais.
A ONG Hengaw afirma que ao menos 33 mulheres foram mortas desde o início das manifestações, entre elas uma mulher grávida e mães de crianças pequenas.
Apesar dos números divulgados oficialmente, entidades de direitos humanos alertam que a dimensão real da repressão pode ser significativamente maior, dificultada pelo controle estatal da informação e pelo bloqueio prolongado da internet no país.
(Com AFP)








