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Em depoimento no tribunal na terça-feira, David G. negou todas as acusações.
— Olhando para trás agora, percebo que deveria ter sido mais cuidadoso perto das crianças, mantido mais distância, brincado menos com elas e evitado colocá-las no colo com tanta frequência — afirmou.
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Ele pode ser condenado a até 10 anos de prisão e multa de 150 mil euros (cerca de R$ 880 mil). A sentença deve ser anunciada em 7 de julho.
David G. integrava a equipe não docente da escola Alphonse Baudin, um jardim de infância no centro de Paris, próximo a alguns dos bairros mais sofisticados da cidade. De acordo com o Ministério Público, ele foi preso após pais relatarem à direção mudanças no comportamento de seus filhos, levando a escola a denunciar o caso às autoridades.
O homem também é acusado de assediar ou abusar sexualmente de duas colegas adultas. A direção da escola não comentou publicamente o caso, e o Ministério da Educação francês se recusou a comentar um processo em andamento.
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David G. está entre dezenas de funcionários não docentes do sistema escolar parisiense investigados por suspeitas de abuso sexual contra crianças, frequentemente durante atividades extracurriculares ou no recreio. As denúncias provocaram uma crise de confiança no sistema educacional da cidade e se tornaram um dos primeiros desafios do novo prefeito de Paris, Emmanuel Grégoire.
Em meio ao aumento das denúncias, o ministro da Justiça da França, Gérald Darmanin, pediu nesta quarta-feira um “despertar coletivo” para que crianças vítimas de abuso sexual sejam ouvidas. Segundo ele, o “#MeToo infância” na França “está apenas começando”.
— Devemos despertar coletivamente para que as crianças sejam ouvidas, para que as vítimas estejam no centro do processo penal, e não os autores — afirmou.
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As declarações foram feitas durante a apresentação de um projeto de lei de proteção de menores ao lado do ministro da Educação, Edouard Geffray, que anunciou a criação de uma “lista negra” de funcionários com comportamentos considerados inadequados em relação a crianças.
Na terça-feira, o Ministério Público pediu três anos de prisão para David G., mas abriu caminho para que ele cumpra apenas um ano sob monitoramento eletrônico. A possibilidade gerou frustração entre familiares das vítimas, que defendiam prisão imediata.
No tribunal, David G. foi acusado de tocar alunos de forma inadequada, mas negou as acusações.
— Esperamos que este caso represente um ponto de virada na proteção das crianças — afirmou Rebecca Royer, advogada que representa seis das famílias das vítimas ao lado da também advogada Hannah Kopp.
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Segundo Royer, os clientes aceitaram permitir a presença do público no julgamento “para que a sociedade entenda que estes não são casos isolados”.
Pais relataram sintomas preocupantes e, em alguns casos, persistentes nas crianças, como mudanças bruscas de humor, masturbação compulsiva, distúrbios alimentares e episódios de urinar ou defecar involuntariamente.
— Isso foi um choque sísmico para toda a nossa família — disse uma das mães ao tribunal. Segundo ela, a melhora recente da filha trouxe esperança, embora a família continue cautelosa. — Sabemos que nunca voltará a ser como antes.
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No sistema educacional francês, professores contratados pelo Ministério da Educação são responsáveis pelas aulas, enquanto funcionários contratados pela prefeitura supervisionam recreios, horário de almoço e atividades após as aulas.
Segundo Grégoire, a maioria desses funcionários é contratada temporariamente, o que significa que muitos recebem pouca formação e baixos salários. De acordo com sindicatos, dos 13 mil trabalhadores não docentes em Paris, cerca de 10 mil são temporários. Isso dificulta uma supervisão coordenada das crianças, afirmou o prefeito durante reunião pública com pais na semana passada.
O tema ganhou ainda mais atenção em janeiro após a exibição de um documentário produzido por um popular programa investigativo de televisão.
Com imagens gravadas por uma jornalista infiltrada no jardim de infância St.-Dominique, no centro de Paris, o programa mostrou funcionários supervisionando mais crianças do que o permitido pelas regras e gritando com os alunos. Em uma das cenas mais alarmantes, um funcionário aparece beijando uma criança na boca.
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Após a exibição do documentário, dezenas de famílias registraram denúncias por estupro, abuso sexual e violência.
Em novembro, a prefeitura de Paris anunciou medidas emergenciais para enfrentar o problema, como ampliar a participação de funcionários mais experientes nas entrevistas de contratação, reforçar o treinamento das equipes não docentes, suspender automaticamente supervisores denunciados por comportamento inadequado e melhorar a comunicação com as famílias.
No mês passado, Grégoire afirmou à imprensa francesa que 78 funcionários escolares haviam sido suspensos desde o início do ano, incluindo 31 por suspeitas de violência sexual. Ele classificou o tema como sua “prioridade máxima” e prometeu investir 20 milhões de euros (cerca de R$ 117 milhões) para enfrentar a crise.
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Em entrevista posterior ao jornal Le Monde, Grégoire reconheceu uma “responsabilidade coletiva” e falhas de comunicação entre diferentes setores do sistema educacional, “com equipes de gestão local atuando, às vezes, de forma isolada”.
— Em muitos desses casos, tenho a impressão de que, se houve uma falha coletiva, foi tratar esses incidentes como casos isolados quando, na verdade, refletem um risco sistêmico — acrescentou.
O caso da escola St.-Dominique — o maior em Paris até agora pelo número de crianças e funcionários envolvidos — voltou às manchetes na semana passada quando o Ministério Público anunciou a prisão de 16 funcionários da escola e de outras duas instituições vizinhas. As detenções ocorreram após entrevistas com 44 crianças.
O Ministério Público informou que dois dos funcionários foram formalmente indiciados por crimes sexuais e colocados em prisão preventiva.
(Com New York Times e AFP)








