Um novo relatório do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) aponta que quase metade das crianças no planeta mora em locais sujeitos a mais do que três tipos de riscos climáticos.
A organização aponta que 1,1 bilhão de meninos e meninas enfrentam ao mesmo tempo eventos como enchentes, temporais, secas, incêndios, tempestades de areia e ondas de calor.
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O número saiu de uma nova base de dados criada pelos autores do relatório, que tem como objetivo ajudar o poder público em políticas de adaptação ao clima para contemplar as necessidades da infância e da juventude.
O Relatório de Risco Climático das Crianças 2026 é acompanhado de dados locais, em que é possível mapear populações vulneráveis a esses eventos climáticos extremos com uma precisão de 10 km.
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Os dados levam em conta diversas maneiras com que a crise do clima pode afetar a vida das crianças, incluindo o acesso a saúde, educação, alimentação e saneamento básico. O clima também torna a infância mais vulnerável à perda de serviços de proteção e a violações de direitos fundamentais indica o trabalho.
Segundo Danilo Moura, especialista em clima e meio ambiente do Unicef Brasil, apesar de os impactos da mudança climática se manifestarem de maneira geral na população, o poder público precisa dar atenção especial às crianças nesse contexto.
— Quando a gente olha para a mudança do clima, a gente está olhando para um fenômeno que impacta as crianças de uma forma desproporcional — diz. — O exemplo mais simples é o dos dias com calor extremo. O impacto das altas temperaturas nas crianças pequenas, especialmente nos dois primeiros anos de vida, é muito maior do que nos adultos, porque no começo da vida, fisiologicamente, o corpo é menos capaz de lidar com o calor.
Na área da saúde, esse problema se manifesta também no espalhamento de doenças infecciosas e no impacto da poluição, dois temas indiretamente ligados ao aquecimento global, mas que também foram contemplados no relatório do Unicef.
Uma análise da Organização Mundial de Saúde (OMS) citada no relatório indica que quase 90% do impacto das doenças que serão agravadas pela crise do clima recai sobre crianças de até 5 anos.
Escolas destruídas
O relatório dá atenção especial, também, as formas com que a crise do clima atinge a educação.
“Tempestades destroem escolas e ondas de calor interrompem o aprendizado, roubando o futuro das crianças. Só em 2024, pelo menos 242 milhões de estudantes em 85 países e territórios tiveram sua escolaridade prejudicada por eventos climáticos extremos”, afirma o relatório.
— Aqui no Brasil, em 2024, mais de um milhão de crianças tiveram seus estudos interrompidos por um período longo só pelos dois principais eventos climáticos extremos daquele ano, que foram a enchente do Rio Grande do Sul e a seca na Amazônia — diz Moura.
Quando se olha para o impacto social como um todo no país, porém, o dano é muito maior. Ao todo 16 milhões de crianças brasileiras estão expostas a três ou mais riscos climáticos, como ondas de calor ou secas, o equivalente a 30% da população infantil. Olhando para dois ou mais riscos, são mais de 30 milhões de crianças.
O Brasil não figura na lista dos países onde o problema é mais preocupante, porém. Seções especiais do relatório são dedicadas a Paquistão, Iraque, Líbano, Camboja e Etiópia. O relatório também destaca o pequenos países-ilhas do mundo em desenvolvimento, sobretudo no Caribe e no Pacífico, e a região do Sahel, ao sul do deserto do Saara.
Impacto desigual
O desafio brasileiro, segundo Moura, é encontrar maneiras de atender necessidades de populações mais pobres, nas quais a crise do clima tem impacto muito maior.
— Quando a gente mapeia essas crianças que estão expostas a múltiplos riscos no território brasileiro, o que a gente vê é uma grande sobreposição com o mapa das desigualdades — diz — Nós vemos ali as crianças que moram nas periferias, que são na sua maioria, crianças negras, as crianças indígenas que vivem em comunidades rurais, as crianças quilombolas ou crianças que pertencem a outros povos e comunidades tradicionais.
Num prefácio escrito para o relatório, a diretora-executiva do Unicef, Catherine Russel, diz que a ideia é que os dados que a organização está gerando para ajudar formuladores de política a enfocarem políticas climáticas para a infância consigam dar conta das diferenças regionais mais localizadas.
“Agora podemos ver onde as crianças estão expostas a uma variedade de riscos dentro dos países com um nível de detalhamento sem precedentes”, diz. “Combinando esses dados com informações sobre o acesso e a capacidade dos serviços sociais existentes, os governos podem mapear onde as crianças estão mais vulneráveis aos impactos e estresses climáticos. Os dados deste relatório são uma ferramenta fundamental para os tomadores de decisão, ajudando-os a planejar de forma mais inteligente, agir com mais rapidez e investir de forma mais eficaz em serviços resilientes às mudanças climáticas para crianças.”
Moura afirma que os dados de populações infantis vulneráveis por tipo de evento climático poderão ser consultados em nível de estado e município, para ajudar essas duas esferas de governo a fazerem seus planejamentos.
Um aspecto preocupante do novo relatório é que todo o impacto climático sobre a infância listado ali se refere a eventos correntes. Em outras palavras, não está computado ali ainda o agravamento de situação que deve vir quando o planeta superar 1,5°C acréscimo à média da temperatura global, o que pode acontecer já na próxima década.