Convidamos nossos leitores a enviar perguntas sobre o tema. As questões selecionadas pela Redação foram respondidas pelo repórter Bruno Rosa, que ouviu especialistas para explicar o que esperar na hora de abastecer.
Veja abaixo as perguntas dos leitores e as respostas:
O brasileiro deve se preparar para uma nova disparada no preço da gasolina e do diesel — e existe risco real de faltar combustível no país — diante da crise no Oriente Médio e da alta do petróleo? (Por Patricya Reis Oliveira)
O Brasil sente os efeitos de uma nova escalada nos preços dos combustíveis desde o início da guerra no Irã, e o cenário pode piorar. Há risco real de novos aumentos na gasolina e no diesel, além de preocupação com o abastecimento diante da pressão internacional sobre o petróleo. Os reajustes já começaram a aparecer nas bombas em todo o país. Dados da Agência Nacional do Petróleo (ANP) mostram que os preços acumulam altas. O diesel subiu mais de 23%, enquanto a gasolina avançou quase 8% em apenas um mês.
Esse movimento ocorre apesar das medidas adotadas pelo governo, como a zeragem de tributos federais (PIS/Cofins). Foi criada uma subvenção de R$ 1,20 por litro de diesel importado, valor equivalente ao ICMS. Pela proposta, R$ 0,60 serão bancados pela União e os outros R$ 0,60 pelos estados. Nesta segunda-feira, dia 6 de abril, o governo anunciou uma subvenção de R$ 0,80 por litro ao diesel. Além disso, o governo vai publicar um decreto que zera o PIS/Cofins que incide sobre o biodiesel. Segundo o Palácio do Planalto, a medida vai gerar uma economia de R$ 0,02 por litro do combustível.
O cenário externo segue como principal fator de pressão. A continuidade da guerra envolvendo o Irã mantém o preço do petróleo acima de US$ 100 por barril, elevando os custos globais. No Brasil, a dependência de importações agrava o problema. A Petrobras consegue suprir cerca de 70% da demanda de diesel e aproximadamente 90% da gasolina consumida no país. O restante precisa ser importado, o que deixa os preços domésticos fortemente expostos às oscilações do mercado internacional. E como a Petrobras não segue os preços internacionais para gasolina e diesel, essa defasagem tem gerado distorções relevantes. Segundo a Abicom, que reúne os importadores, na primeira semana de abril, a gasolina vendida pela Petrobras estava cerca de 59% abaixo do preço internacional. No caso do diesel, a diferença chegava a 70%.
Esse cenário pressiona os importadores, que enfrentam dificuldades para competir. Com preços internos muito inferiores aos praticados no exterior, muitas empresas evitam importar combustíveis, temendo prejuízos na revenda no mercado brasileiro. O resultado é um ambiente de incerteza. Enquanto a política da Petrobras ajuda a conter repasses imediatos ao consumidor, ela também pode reduzir a atratividade das importações. Com isso, há hoje um cenário de restrição de abastecimento em diversas partes do país, sobretudo, em estados ligados ao agronegócio, já que estamos em período de safra, quando há demanda maior por diesel.
Lauro Jardim: Em meio a alta dos combustíveis, Justiça manda leiloar 7,3 milhões de litros de diesel
Aumento: Diesel e gasolina têm preços estáveis no início de abril, mas acumulam alta de até 23,5% nos postos
Bomba sem gasolina e sem diesel em posto no Engenho Novo, no Rio, em março
Domingos Peixoto / Agência O Globo
Qual será o impacto da guerra no preço do combustível da aviação? Poderemos ter rotas aéreas internacionais sem tráfego? Que rotas poderiam ser afetadas? (Por Luis Correia)
A guerra e a disparada do petróleo também acendem um alerta no setor aéreo. Diferentemente da gasolina e do diesel, o QAV segue uma dinâmica própria de reajuste. Por contrato, a Petrobras é obrigada a repassar mensalmente às companhias aéreas as oscilações do dólar e do petróleo. Com o barril saltando da faixa de US$ 60 para mais de US$ 100, o impacto foi imediato. A estatal anunciou um reajuste próximo de 55% nos contratos de abril, uma alta que pressiona ainda mais os custos das empresas aéreas. Para amenizar o efeito, a Petrobras passou a oferecer, a partir de 6 de abril, um termo de adesão que permite diluir esse aumento.
Na prática, as companhias que aderirem poderão pagar cerca de 18% de reajuste imediato, enquanto o restante será parcelado em seis vezes, com início em julho de 2026. A medida busca preservar a demanda e reduzir o impacto no setor, altamente sensível a variações de custo. Ainda assim, o ambiente é de cautela. Segundo especialistas, o encarecimento do QAV tende a pressionar o preço das passagens, o que pode reduzir a demanda — especialmente em rotas menos rentáveis.
Por enquanto, nenhuma companhia anunciou cortes na malha aérea. No entanto, o risco já está no radar do setor. Em um cenário de custos elevados e incertezas prolongadas, voos com menor ocupação podem ser os primeiros a sofrer ajustes, caso a pressão sobre os combustíveis persista. O desdobramento desse cenário dependerá, sobretudo, da duração do conflito e da trajetória do petróleo no mercado global, fatores que seguem ditando o ritmo da aviação mundial.
Alta do QAV: Petrobras reajusta preço do querosene de aviação em até 56,3%
Impacto: Técnicos do governo temem alta de 20% nas passagens aéreas com reajuste no QAV
Como a política de preços da Petrobras impacta o valor da gasolina e do diesel no Brasil em momentos de alta volatilidade externa? (Por Leia Santana)
A política de preços da Petrobras voltou ao centro do debate em meio à forte volatilidade do mercado internacional. Desde o início do governo Luiz Inácio Lula da Silva, a estatal abandonou a política de paridade de importação (PPI) e passou a adotar critérios próprios para definir os reajustes de gasolina e diesel. Na prática, isso significa que os preços domésticos deixaram de seguir automaticamente as cotações internacionais do petróleo e do câmbio. A Petrobras afirma que leva em conta fatores como custos internos, capacidade de produção, nível de refino no país e condições de mercado.
Esse novo modelo ajuda a explicar a defasagem recente. No caso da gasolina, o último reajuste ocorreu em janeiro, quando houve uma redução do preço nas refinarias, de R$ 2,71 para R$ 2,57 por litro. Desde então, não houve novos ajustes. Já o diesel foi reajustado mais recentemente: em 13 de março de 2026, a estatal elevou o preço em R$ 0,38 por litro para as distribuidoras, passando de R$ 3,27 para R$ 3,65.
Apesar da forte alta do petróleo no mercado internacional, a Petrobras tem evitado novos reajustes. A estratégia reflete, em parte, a tentativa de suavizar a volatilidade externa no mercado doméstico. E também há a influência do governo, principal acionista da companhia, em um cenário de grande instabilidade.
Navio no Estreito de Ormuz: controle da passagem pelo Irã durante a guerra dificulta a distribuição global de petróleo
Giuseppe CACACE / AFP
Abasteço toda semana. O Brasil está preparado para lidar com eventuais interrupções no fornecimento global de diesel, considerando sua dependência de importações? (Por Luana Madureira)
A resposta, segundo especialistas, é direta: não. O Brasil, assim como outros países, não está plenamente preparado para enfrentar uma eventual ruptura no abastecimento global. Hoje, cerca de 30% do diesel consumido no país é importado, o que torna o mercado doméstico dependente das condições internacionais. Essa dependência ganha ainda mais relevância em um momento de forte demanda global por diesel, o que eleva preços e aumenta a competição entre países compradores.
Um dos principais pontos de vulnerabilidade está na ausência de uma política robusta de estoques estratégicos. Diferentemente de regiões como Europa e Estados Unidos, que mantêm reservas relevantes para enfrentar crises de abastecimento, o Brasil não possui uma política pública estruturada nesse sentido. Atualmente, o país conta apenas com estoques operacionais mínimos, suficientes para cerca de um mês em caso de interrupções, o que limita a capacidade de resposta diante de choques mais prolongados.
Para especialistas, esse cenário reforça a necessidade de revisão da estratégia energética nacional. A própria Petrobras já indicou que pretende ampliar sua capacidade de produção de diesel, hoje em torno de 70% da demanda interna. No entanto, avançar nessa direção não é simples. A expansão do parque de refino, incluindo a construção de novas refinarias — exige investimentos elevados e prazos longos de execução. Enquanto isso, o Brasil seguirá dependente das importações. E, em momentos de escassez ou preços elevados no mercado internacional, isso significa pagar mais caro para garantir o abastecimento interno.
Diesel: Possível não adesão de distribuidoras à subvenção preocupa e governo está fiscalizando, diz Ceron
Autossuficiência: Petrobras avalia meta de 100% de diesel nacional em cinco anos









