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A lógica da evolução sugere que organismos que se reproduzem dessa forma deveriam desaparecer com o tempo. Sem a mistura de genes proporcionada pela reprodução sexual, mutações prejudiciais tenderiam a se acumular geração após geração, enquanto a capacidade de adaptação a novos desafios ambientais seria reduzida. Mas a molinésia-amazona parece ter encontrado uma maneira de escapar dessa previsão.
Um estudo publicado na revista “Nature Ecology & Evolution” sequenciou o genoma da espécie e revelou que, ao contrário do esperado, o peixe não apresenta sinais significativos de deterioração genética. Pelo contrário: os pesquisadores encontraram níveis surpreendentes de diversidade genética, especialmente em regiões associadas ao sistema imunológico.
Como funciona a clonagem natural
A espécie utiliza uma estratégia reprodutiva conhecida como ginogênese. Embora produza descendentes geneticamente idênticos a si mesma, a fêmea ainda precisa acasalar com machos de espécies aparentadas para iniciar o desenvolvimento dos ovos. O esperma penetra na célula reprodutiva, mas seu DNA acaba completamente descartado durante o processo.
Na prática, o macho funciona apenas como um gatilho biológico. Nenhum de seus genes é transmitido para a geração seguinte. O resultado é uma população formada inteiramente por clones femininos.
— Segundo as teorias estabelecidas, essa espécie não deveria mais existir. Ela deveria ter sido extinta há muito tempo ao longo da evolução — afirmou o bioquímico Manfred Schartl, da Universidade de Würzburg, na Alemanha, um dos autores da pesquisa.
Os cientistas compararam o genoma da molinésia-amazona com o de duas espécies sexualmente reprodutivas das quais ela descende. A análise mostrou que as diferenças são pequenas e que a espécie mantém mais de 25 mil genes codificadores de proteínas. Entre as descobertas mais curiosas está a presença de genes relacionados à produção de espermatozoides e ao desenvolvimento de machos, mesmo em uma população composta apenas por fêmeas.
O segredo da sobrevivência
As estimativas indicam que a espécie surgiu entre 100 mil e 200 mil anos atrás, quando duas espécies diferentes de molinésias cruzaram e deram origem a um híbrido capaz de se reproduzir por clonagem. Considerando que uma nova geração nasce a cada três ou quatro meses, isso significa que a molinésia-amazona já atravessou cerca de meio milhão de gerações — um número muito superior ao que muitos modelos teóricos consideravam compatível com a sobrevivência de uma linhagem exclusivamente assexuada.
Para os pesquisadores, o segredo pode estar justamente em sua origem híbrida. A combinação inicial dos genomas das espécies ancestrais teria produzido um conjunto genético excepcionalmente robusto, preservando níveis elevados de heterozigose — a presença de versões diferentes de um mesmo gene — e garantindo uma resposta imunológica mais ampla contra vírus, bactérias e outros patógenos.
A descoberta levou os autores a propor uma nova explicação para a raridade de vertebrados que se reproduzem sem sexo. Em vez de considerar essas espécies evolutivamente inferiores, a chamada “hipótese da formação rara” sugere que o verdadeiro obstáculo está na origem. A criação de um híbrido geneticamente compatível, capaz de sobreviver e se reproduzir indefinidamente, seria um evento extremamente incomum.
Hoje, cerca de 50 espécies de vertebrados são conhecidas por utilizar algum tipo de reprodução assexuada, incluindo peixes, anfíbios e répteis. Nenhuma, porém, se tornou um símbolo tão marcante desse desafio às regras tradicionais da evolução quanto a molinésia-amazona.







