O advogado ultradireitista Abelardo de la Espriella venceu neste domingo a eleição presidencial da Colômbia e derrotou o senador de esquerda Iván Cepeda, herdeiro político do presidente Gustavo Petro. Com apoio declarado do líder americano, Donald Trump, Espriella chega ao poder prometendo uma guinada na política de segurança, conduzindo uma ofensiva contra grupos armados e narcotraficantes, além de uma agenda econômica de redução de impostos e do tamanho do Estado.
Contexto: Votação para presidente começa na Colômbia em segundo turno disputado
Abelardo de la Espriella: Advogado de figuras controversas, ‘El Tigre’ quer retomar o poder para a direita
A vitória encerra uma das eleições mais polarizadas da história recente da Colômbia. Espriella venceu com 49,65% dos votos, contra 48,70% de Cepeda, em uma eleição acompanhada de perto internacionalmente após o apoio de Trump ao advogado e as críticas do presidente americano a Cepeda, a quem chamou de “marxista radical de esquerda”. A margem apertada levou Petro a afirmar que todos devem aguardar a “contagem final”, que começa na segunda-feira nas comissões eleitorais e deve prosseguir por diferentes instâncias — auxiliares, municipais, departamentais e o Conselho Nacional Eleitoral (CNE).
“As seções eleitorais sem assinaturas de jurados devem ser contestadas imediatamente”, escreveu o presidente no X. “O Cartório Eleitoral está enviando formulários sem assinaturas de jurados. Essas seções eleitorais devem ser contestadas imediatamente (…). O empate técnico, sem que nenhum candidato alcance 50%, nos obriga a aguardar os resultados oficiais”.
Um dos integrantes da campanha de Cepeda, Jorge Rojas anunciou que os resultados do pleito serão contestados onde teriam ocorrido compra de votos na região do Caribe colombiano. Ele também pediu que se aguarde a apuração oficial dos votos.
— Nossos advogados e observadores eleitorais começarão seus trabalhos amanhã de manhã. Já temos um sistema de monitoramento eleitoral em funcionamento. Conclamamos a uma fiscalização pacífica por parte dos cidadãos, a partir desta noite.
Espriella construiu sua candidatura sobre a promessa de combater com mão dura guerrilhas e organizações ligadas ao narcotráfico, defendendo megapresídios, retomada da exploração de petróleo e maior aproximação com Washington. Cidadão americano e filiado ao Partido Republicano, o advogado recebeu aprovação de Trump, que sinalizou que as relações entre os dois países melhorariam “significativamente” com sua vitória.
Cepeda, por sua vez, apostou na continuidade da agenda de Petro, com programas sociais, redistribuição de terras e negociações com guerrilhas e organizações criminosas para alcançar a chamada “Paz Total”. Ele, que contou com forte apoio entre colombianos de baixa renda, além de negros e indígenas, afirmava que aumentaria os impostos sobre os mais ricos e redistribuir terras para pequenos agricultores.
— É motivo de orgulho concluir hoje esta longa jornada eleitoral, prolongada. Fizemos uma campanha limpa, transparente, honesta, na qual apresentamos aos cidadãos nossas ideias, nosso programa, nossos princípios e nosso caminho e destino para a Colômbia nos próximos anos — disse Cepeda à imprensa após comparecer ao seu local de votação neste domingo. — Quando vencermos, vamos governar para todo o país, e não apenas para um setor.
Entenda: Polarização entre extrema direita e esquerda no segundo turno força limites institucionais na Colômbia
Espriella, por outro lado, votou usando a camisa da seleção colombiana de futebol, cercado por centenas de apoiadores vestidos da mesma forma, que gritavam “Fora, Petro!” em Barranquilla, seu principal reduto político. Em declaração à imprensa, ele, que se autodenomina “O Tigre”, disse que veio para “mudar a política para sempre”, definindo a votação deste domingo como “a mais importante da história da Colômbia”.
Divisão e violência
Espriella foi o mais votado no primeiro turno, com 43,7% dos votos e mais de 10,3 milhões de apoios, quase três pontos percentuais à frente dos obtidos por Cepeda, que até então era considerado o favorito. Petro, sem apresentar provas, lançou dúvidas sobre o resultado — postura que reiterou mais cedo neste domingo, afirmando que atores “tentaram escravizar o povo colombiano ao retirar sua liberdade de decidir”.
No X, Petro também denunciou supostas irregularidades na votação de colombianos no exterior. Segundo relatou, seu filho Andrés Petro foi votar e descobriu que uma mulher já havia votado em seu nome. Embora finalmente tenham permitido que seu filho votasse, o mandatário pediu mais fiscalização, escrevendo: “O cônsul disse que isso estava acontecendo muito e que antes não acontecia com tanta frequência. Deve aumentar a vigilância dos fiscais no exterior”.
Iván Cepeda: Senador, que teve pai morto pelo Estado, busca repetir milagre da esquerda
A votação foi amplamente vista como um referendo sobre o governo do atual presidente. Seus apoiadores atribuem ao governo a ampliação de programas sociais e o aumento da visibilidade política de grupos historicamente marginalizados. Já os críticos citam o que definem como uma problemática intervenção estatal no sistema de saúde e gastos públicos excessivos, que deixaram a dívida pública colombiana em níveis comparáveis aos registrados na pandemia.
Os eleitores também mancionaram preocupações com criminalidade, extorsão e o crescente poder de grupos armados em áreas rurais. A violência aumentou mesmo durante a campanha eleitoral, marcada pelo assassinato de um candidato à Presidência, pela morte de dois integrantes da campanha de Espriella e pelo sequestro temporário do candidato a vice-presidente de Cepeda.
Críticos afirmam que a estratégia de “Paz Total”, principal marca do governo Petro, permitiu que essas organizações se fortalecessem durante os cessar-fogos. Organizações humanitárias afirmam que a violência atingiu o nível mais alto desde o acordo de paz de 2016, embora a Colômbia continue sendo muito mais segura do que era durante o auge do conflito nas décadas de 1980 e 1990.
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Apenas em 2025, autoridades registraram 14,7 mil homicídios — incluindo o candidato presidencial conservador Miguel Uribe —, o maior número desde pelo menos 2015. Os casos de extorsão também dispararam, chegando a 13,4 mil ocorrências em 2025, mais que o dobro do registrado em 2015. Espriella responsabiliza Petro, a quem chama de “chefe da máfia” e ameaça levar à Justiça dos Estados Unidos. Cepeda, muito mais moderado, só elevou o tom na reta final: chamou o adversário de “banal”, “perigoso” e “sem escrúpulos”.
Considerado sóbrio e pouco carismático, o senador precisou se reinventar nas últimas três semanas. Ele mergulhou nas redes sociais, cercou-se de jovens e buscou proximidade com eleitores que lhe faltava para competir com a campanha digital e milionária de Espriella. Embora sua equipe acredite que ele conseguiu ganhar impulso, também reconhece que a nova postura pode ter sido adotada tarde demais.
Reação nos EUA
Algumas das promessas de campanha de Espriella lembram políticas adotadas por outros líderes de direita da América Latina, como Nayib Bukele, de El Salvador, e Javier Milei, da Argentina. Sua plataforma inclui a construção de dez megapresídios, a redução do tamanho do Estado e a cooperação com os EUA no combate ao narcotráfico.
Ele também é conhecido por recorrer à Justiça contra seus adversários, incluindo jornalistas. Depois de receber o apoio de Trump e de alguns parlamentares republicanos, Espriella passou a afirmar que perseguiria qualquer pessoa que o desafiasse com ajuda dos EUA.
Na semana passada, o secretário de Estado americano, Marco Rubio, divulgou um memorando afirmando que a atuação do ativista Beto Coral, residente no Arizona, interferia na política externa americana, após ele criticar o então candidato. Coral, de 40 anos, foi detido por autoridades de imigração dos EUA na terça-feira, medida que foi condenada por democratas no Congresso e por organizações de direitos humanos.
— O que me preocupa é a polarização que existe entre nós: há dois lados muito extremos, e a violência é preocupante — disse à AP o advogado John Manrique, morador de Bogotá. — O que espero é que as pessoas aceitem quem vencer. (Com AFP, Bloomberg e New York Times)
Contexto: Votação para presidente começa na Colômbia em segundo turno disputado
Abelardo de la Espriella: Advogado de figuras controversas, ‘El Tigre’ quer retomar o poder para a direita
A vitória encerra uma das eleições mais polarizadas da história recente da Colômbia. Espriella venceu com 49,65% dos votos, contra 48,70% de Cepeda, em uma eleição acompanhada de perto internacionalmente após o apoio de Trump ao advogado e as críticas do presidente americano a Cepeda, a quem chamou de “marxista radical de esquerda”. A margem apertada levou Petro a afirmar que todos devem aguardar a “contagem final”, que começa na segunda-feira nas comissões eleitorais e deve prosseguir por diferentes instâncias — auxiliares, municipais, departamentais e o Conselho Nacional Eleitoral (CNE).
“As seções eleitorais sem assinaturas de jurados devem ser contestadas imediatamente”, escreveu o presidente no X. “O Cartório Eleitoral está enviando formulários sem assinaturas de jurados. Essas seções eleitorais devem ser contestadas imediatamente (…). O empate técnico, sem que nenhum candidato alcance 50%, nos obriga a aguardar os resultados oficiais”.
Um dos integrantes da campanha de Cepeda, Jorge Rojas anunciou que os resultados do pleito serão contestados onde teriam ocorrido compra de votos na região do Caribe colombiano. Ele também pediu que se aguarde a apuração oficial dos votos.
— Nossos advogados e observadores eleitorais começarão seus trabalhos amanhã de manhã. Já temos um sistema de monitoramento eleitoral em funcionamento. Conclamamos a uma fiscalização pacífica por parte dos cidadãos, a partir desta noite.
Espriella construiu sua candidatura sobre a promessa de combater com mão dura guerrilhas e organizações ligadas ao narcotráfico, defendendo megapresídios, retomada da exploração de petróleo e maior aproximação com Washington. Cidadão americano e filiado ao Partido Republicano, o advogado recebeu aprovação de Trump, que sinalizou que as relações entre os dois países melhorariam “significativamente” com sua vitória.
Cepeda, por sua vez, apostou na continuidade da agenda de Petro, com programas sociais, redistribuição de terras e negociações com guerrilhas e organizações criminosas para alcançar a chamada “Paz Total”. Ele, que contou com forte apoio entre colombianos de baixa renda, além de negros e indígenas, afirmava que aumentaria os impostos sobre os mais ricos e redistribuir terras para pequenos agricultores.
— É motivo de orgulho concluir hoje esta longa jornada eleitoral, prolongada. Fizemos uma campanha limpa, transparente, honesta, na qual apresentamos aos cidadãos nossas ideias, nosso programa, nossos princípios e nosso caminho e destino para a Colômbia nos próximos anos — disse Cepeda à imprensa após comparecer ao seu local de votação neste domingo. — Quando vencermos, vamos governar para todo o país, e não apenas para um setor.
Entenda: Polarização entre extrema direita e esquerda no segundo turno força limites institucionais na Colômbia
Espriella, por outro lado, votou usando a camisa da seleção colombiana de futebol, cercado por centenas de apoiadores vestidos da mesma forma, que gritavam “Fora, Petro!” em Barranquilla, seu principal reduto político. Em declaração à imprensa, ele, que se autodenomina “O Tigre”, disse que veio para “mudar a política para sempre”, definindo a votação deste domingo como “a mais importante da história da Colômbia”.
Divisão e violência
Espriella foi o mais votado no primeiro turno, com 43,7% dos votos e mais de 10,3 milhões de apoios, quase três pontos percentuais à frente dos obtidos por Cepeda, que até então era considerado o favorito. Petro, sem apresentar provas, lançou dúvidas sobre o resultado — postura que reiterou mais cedo neste domingo, afirmando que atores “tentaram escravizar o povo colombiano ao retirar sua liberdade de decidir”.
No X, Petro também denunciou supostas irregularidades na votação de colombianos no exterior. Segundo relatou, seu filho Andrés Petro foi votar e descobriu que uma mulher já havia votado em seu nome. Embora finalmente tenham permitido que seu filho votasse, o mandatário pediu mais fiscalização, escrevendo: “O cônsul disse que isso estava acontecendo muito e que antes não acontecia com tanta frequência. Deve aumentar a vigilância dos fiscais no exterior”.
Iván Cepeda: Senador, que teve pai morto pelo Estado, busca repetir milagre da esquerda
A votação foi amplamente vista como um referendo sobre o governo do atual presidente. Seus apoiadores atribuem ao governo a ampliação de programas sociais e o aumento da visibilidade política de grupos historicamente marginalizados. Já os críticos citam o que definem como uma problemática intervenção estatal no sistema de saúde e gastos públicos excessivos, que deixaram a dívida pública colombiana em níveis comparáveis aos registrados na pandemia.
Os eleitores também mancionaram preocupações com criminalidade, extorsão e o crescente poder de grupos armados em áreas rurais. A violência aumentou mesmo durante a campanha eleitoral, marcada pelo assassinato de um candidato à Presidência, pela morte de dois integrantes da campanha de Espriella e pelo sequestro temporário do candidato a vice-presidente de Cepeda.
Críticos afirmam que a estratégia de “Paz Total”, principal marca do governo Petro, permitiu que essas organizações se fortalecessem durante os cessar-fogos. Organizações humanitárias afirmam que a violência atingiu o nível mais alto desde o acordo de paz de 2016, embora a Colômbia continue sendo muito mais segura do que era durante o auge do conflito nas décadas de 1980 e 1990.
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Considerado sóbrio e pouco carismático, o senador precisou se reinventar nas últimas três semanas. Ele mergulhou nas redes sociais, cercou-se de jovens e buscou proximidade com eleitores que lhe faltava para competir com a campanha digital e milionária de Espriella. Embora sua equipe acredite que ele conseguiu ganhar impulso, também reconhece que a nova postura pode ter sido adotada tarde demais.
Reação nos EUA
Algumas das promessas de campanha de Espriella lembram políticas adotadas por outros líderes de direita da América Latina, como Nayib Bukele, de El Salvador, e Javier Milei, da Argentina. Sua plataforma inclui a construção de dez megapresídios, a redução do tamanho do Estado e a cooperação com os EUA no combate ao narcotráfico.
Ele também é conhecido por recorrer à Justiça contra seus adversários, incluindo jornalistas. Depois de receber o apoio de Trump e de alguns parlamentares republicanos, Espriella passou a afirmar que perseguiria qualquer pessoa que o desafiasse com ajuda dos EUA.
Na semana passada, o secretário de Estado americano, Marco Rubio, divulgou um memorando afirmando que a atuação do ativista Beto Coral, residente no Arizona, interferia na política externa americana, após ele criticar o então candidato. Coral, de 40 anos, foi detido por autoridades de imigração dos EUA na terça-feira, medida que foi condenada por democratas no Congresso e por organizações de direitos humanos.
— O que me preocupa é a polarização que existe entre nós: há dois lados muito extremos, e a violência é preocupante — disse à AP o advogado John Manrique, morador de Bogotá. — O que espero é que as pessoas aceitem quem vencer. (Com AFP, Bloomberg e New York Times)










