Contexto: Vídeos mostram incêndios, ônibus destruído e protestos antimigração na Irlanda do Norte
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O suspeito, identificado como Hadi Alodid, foi acusado de tentativa de homicídio, porte de faca em local público e ameaças de morte contra um funcionário do sistema público de saúde britânico. Em audiência nesta quarta-feira no Tribunal de Magistrados de Belfast, ele teve a prisão preventiva mantida por quatro semanas. Alodid participou da sessão por videoconferência e contou com a assistência de um intérprete de árabe.
A vítima, identificada em tribunal como Steven Ogilvy, permanece hospitalizada. Segundo informações citadas na audiência, ele perdeu o olho esquerdo, sofreu danos no olho direito e teve ferimentos no pescoço e nas costas. O ataque ocorreu na área da Kinnaird Avenue, no norte de Belfast, na noite de segunda-feira. Um vídeo que mostra a agressão circulou amplamente nas redes sociais nas horas seguintes ao incidente.
Após o ataque, uma onda de violência se espalhou por diferentes áreas de Belfast. No leste da cidade, um ônibus foi tomado por manifestantes e incendiado. Veículos foram queimados em vias públicas, enquanto lixeiras em chamas foram usadas para bloquear ruas. O Serviço de Bombeiros do país informou ter atendido 62 ocorrências.
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Diversas famílias precisaram deixar suas casas sob proteção policial. O chefe da polícia local, Jon Boutcher, afirmou que entre os resgatados havia um bebê de apenas dois meses. Policiais retiraram famílias de diferentes comunidades para levá-las a locais seguros, disse, ressaltando que “não há justificativa” para os episódios registrados e insistindo que os responsáveis pelos distúrbios serão tratados de acordo com a lei.
— Resgatamos muitas famílias. E, alías, não eram apenas famílias de comunidades étnicas minoritárias; [mas] de diversas comunidades que acabaram envolvidas nesse comportamento repugnante da noite passada — disse, antes de ser questionado sobre este ser o terceiro ano consecutivo de episódios de violência no país. — Isso vai passar.
Uma das residências atingidas pelo fogo pertence a Jamie Corrie, morador do leste de Belfast há 13 anos. À BBC, ele disse que sua casa foi destruída após um carro estacionado do lado de fora ser incendiado. Segundo Corrie, o veículo pertencia a estrangeiros que viviam ao lado. Ele afirmou que tentou alertar os responsáveis antes que o incêndio começasse, mas não conseguiu evitar a destruição do imóvel.
— Ficar ali vendo sua casa queimar é uma sensação da qual nunca vou me recuperar. — disse. — O que isso resolve? O que isso realmente faz? Incendiar carros, destruir a própria comunidade, e agora um dos seus próprios moradores acabou de perder a casa. A ruazinha era tranquila. Sei que há pessoas de várias nacionalidades ali, estrangeiros, eu entendo isso, mas… eu cuido da minha vida. Tudo naquela casa foi destruído, de cima a baixo. Havia coisas de valor sentimental que não podem ser substituídas e que nunca mais vou recuperar.
Jamie Corrie diante de sua casa destruída pelo fogo em Belfast após uma noite de violência anti-imigrante que incendiou veículos e imóveis
Paul Faith / AFP
A ministra da Justiça da Irlanda do Norte, Naomi Long, condenou os ataques contra famílias que nada tinham a ver com o esfaqueamento, destacando que crianças e jovens famílias ficaram sem casa após os episódios de violência. Long também declarou que o debate sobre o status migratório do suspeito era irrelevante para a avaliação do crime e afirmou que o homem possuía situação migratória regularizada e autorização para permanecer no Reino Unido por cinco anos.
‘Holofote perigoso’
A primeira-ministra da Irlanda do Norte, Michelle O’Neill, classificou os ataques contra residências como “covardia repugnante” e afirmou que não existe justificativa para os episódios. Ela também descreveu o ataque a faca como “hediondo e errado”, mas alertou para tentativas de usar o caso para atacar pessoas inocentes que vivem e trabalham na região.
Já o premier britânico, Keir Starmer, afirmou que as cenas registradas em Belfast foram “chocantes e completamente inaceitáveis”. No X, ele disse que estava claro que pessoas foram alvo por causa de sua origem e afirmou que os responsáveis pelos atos de violência sentirão “todo o peso da lei”. Starmer acrescentou que conversou com líderes locais, além de representantes da polícia e dos serviços de emergência.
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A deputada Claire Hanna, líder do Partido Social-Democrata e Trabalhista, comparou os acontecimentos a uma “perseguição baseada em raça”. Segundo ela, houve relatos de homens percorrendo bairros para identificar e expulsar estrangeiros. A parlamentar do Sinn Féin Deirdre Hargey afirmou que mensagens divulgadas nas redes sociais incentivaram protestos e ajudaram a mobilizar pessoas para as ruas.
Entre os que repercutiram o caso nas redes sociais esteve Tommy Robinson, ativista britânico de extrema direita cujo nome verdadeiro é Stephen Yaxley-Lennon. Ele teria convocado manifestações após o ataque. O bilionário Elon Musk também compartilhou publicações e informações sobre locais de encontro para manifestantes.
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A polícia enfrentou críticas após inicialmente informar que o suspeito seria originário da Somália. Posteriormente, as autoridades corrigiram a informação e esclareceram que ele é sudanês. Suleiman Abdulahi, líder comunitário que trabalha com refugiados na Irlanda do Norte, afirmou que o erro colocou a comunidade somali sob um “holofote muito perigoso” e contribuiu para alimentar a violência contra inocentes.
A família da vítima, por sua vez, divulgou um comunicado pedindo privacidade e agradecendo às pessoas que prestaram socorro durante o ataque. Os familiares afirmaram que a rápida intervenção de moradores ajudou a salvar a vida de Ogilvy e agradeceram aos profissionais dos serviços de emergência e aos médicos e enfermeiros envolvidos. E pediram, por fim, que a população rejeite a violência:
“Estamos cientes das tensões e das discussões sobre protestos após este incidente. Queremos deixar absolutamente claro que os distúrbios ocorridos durante a noite não são bem-vindos, e que o protesto pacífico é o único caminho a seguir”, escreveram. “Temos muitos migrantes que dão uma contribuição valiosa ao nosso país, inclusive em nosso sistema de saúde e no setor de hospitalidade, e dependemos deles para o funcionamento do país. Não queremos que esta terrível tragédia seja usada para dividir as pessoas ou alimentar a hostilidade”.
(Com Bloomberg e New York Times)










