A Organização Marítima Internacional (IMO, na sigla em inglês), ligada à ONU, alertou para uma crise humanitária “sem precedentes” devido à permanência de cerca de 20 mil marinheiros no Golfo Pérsico, presos em embarcações desde o início da escalada militar entre Estados Unidos, Israel e Irã, em 28 de fevereiro. Com o tráfego praticamente paralisado no Estreito de Ormuz, as tripulações seguem sem previsão de retorno para casa, muitas sem acesso regular a água potável e, em alguns casos, sem receber salários há meses, segundo a rede CNN.
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Sem poder atracar em portos iranianos, considerados áreas de risco, e diante de restrições logísticas e de visto nos países árabes vizinhos, milhares de trabalhadores do mar — muitos vindos de nações em desenvolvimento — ficaram encurralados em alto-mar. A principal rota de saída, o Estreito de Ormuz, permanece praticamente fechada.
— Temos cerca de 20 mil marinheiros no Golfo há quase oito semanas. É uma crise humanitária. Nunca enfrentamos algo assim — afirma Damien Chevallier, diretor de segurança marítima da IMO. — É uma situação sem precedentes.
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No domingo, o presidente americano, Donald Trump, anunciou uma operação, batizada de “Projeto Liberdade”, para guiar as embarcações presas para fora da região. Segundo ele, a medida tem caráter “humanitário” e busca ajudar embarcações bloqueadas que enfrentam escassez de alimentos e suprimentos essenciais. A operação prevê o uso de destróieres com mísseis guiados, mais de 100 aeronaves e cerca de 15 mil militares, de acordo com o Comando Central dos EUA. No entanto, até o momento, milhares de marinheiros e centenas de embarcações permanecem presas no estreito.
O bloqueio da passagem é resultado de medidas conflitantes adotadas pelo Irã e pelos EUA. De um lado, a República Islâmica passou a restringir a navegação, permitindo a passagem apenas de embarcações de países considerados “amigáveis” mediante pagamento de taxas. De outro, o governo Trump impôs um bloqueio naval e ameaça sancionar empresas que aceitem essas condições.
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O impasse reduziu drasticamente o fluxo no estreito, de mais de cem navios por dia, em condições normais, para apenas algumas embarcações. Centenas de navios agora tentam deixar a região.
— Entre 800 e 1.000 embarcações gostariam de atravessar o Estreito de Ormuz para evacuar a área — diz Chevallier.
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Enquanto isso, as condições a bordo se deterioram. Relatos de tripulações apontam escassez de alimentos e água potável, além de jornadas prolongadas sem perspectiva de substituição.
O caso do petroleiro Auroura ilustra a gravidade da situação. Vinculado à chamada “frota fantasma” iraniana, o navio permaneceu semanas parado após o início da guerra. Tripulantes indianos relataram ter sido pressionados pelo armador a seguir viagem até o Irã para carregar petróleo, apesar dos riscos.
— A tripulação enfrenta escassez de suprimentos básicos. Eles querem voltar para casa — afirma Manoj Yadav, representante sindical.
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Segundo a Federação Internacional dos Trabalhadores em Transportes (ITF), casos como esse se repetem em toda a região.
— Não é apenas repatriação, é abandono — destaca Mohamed Arrachedi, da entidade. — Alguns marinheiros não recebem há meses.
Além das dificuldades materiais, há denúncias de intimidação por parte de armadores, que ameaçam reter salários ou impor punições a trabalhadores que se recusam a navegar em áreas de risco.
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Em alguns casos, o perigo já se concretizou. Desde o início do conflito, ao menos 10 marinheiros morreram em ataques a embarcações, segundo a IMO. Tripulantes relatam dormir vestidos, prontos para evacuar em caso de emergência.
O Auroura chegou a ser atingido por drones enquanto estava ancorado próximo aos Emirados Árabes Unidos. Imagens mostram danos à embarcação e a destruição parcial de equipamentos de segurança.
— De repente houve uma explosão. Depois, vimos destroços espalhados — conta um tripulante.
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Após semanas no mar, parte da tripulação conseguiu deixar o navio em Omã, onde foi substituída. Mas, para muitos, a saída ainda está distante.
Em outras embarcações, as condições são ainda mais precárias. Há relatos de tripulações reutilizando água de sistemas de ar-condicionado para lavar roupas e até preparar alimentos.
— Não conseguimos tomar banho. Estamos usando água dos drenos do ar-condicionado para sobreviver — diz o capitão Istique Alam, que trabalha na região.
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O sentimento entre os marinheiros é de abandono.
— Ninguém se importa conosco. O cessar-fogo não é para nós. É para as pessoas comuns — afirma Alam.
Embora acostumado a condições adversas, o capitão ressalta que o cenário atual é diferente.
— Não sou um guerreiro. Sou um marinheiro. Não tenho medo do mar, tenho medo de mísseis — diz.