‘Basta!’: Protestos e greve geral mobilizam Minnesota contra ações do ICE mesmo sob frio extremo
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Em sua rede social, o Truth Social, Trump confirmou que Tom Homan, seu “czar das fronteiras”, comandará as forças federais em Minnesota, e se reportará diretamente a ele. Pouco depois, em entrevista coletiva na Casa Branca, a porta-voz da Presidência, Karoline Leavitt, confirmou o deslocamento, mas não disse se Gregory Bovino, oficial da Patrulha de Fronteira e que hoje lidera a operação, continuará no estado. Segundo a agência Associated Press, citando fontes oficiais, ele deixará Minneapolis já nesta terça-feira, além de alguns agentes federais.
Bovino, envolvido em outras ações contestadas no ano passado, é alvo preferencial de críticas por causa da violência empregada nas ruas, seja em ações para prender imigrantes, seja na repressão a manifestações. Na semana passada, uma criança de 5 anos foi presa, e duas pessoas foram mortas desde o início do mês pela ação do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE, na sigla em inglês) e da Patrulha de Fronteira: Renee Good e Alex Pretti. Ambos tinham 37 anos, foram baleados em protestos e eram cidadãos dos Estados Unidos.
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Durante a entrevista coletiva, Leavitt disse que Bovino é um “grande profissional”, e que assumirá funções dentro da Patrulha de Fronteira “em âmbito nacional”. Ela tentou colocar panos quentes em relatos divulgados pela imprensa americana sobre um conflito interno entre Homan e a secretária de Segurança Interna, Kristi Noem, defensora das táticas linha-dura de Bovino.
— O sr. Homan está fazendo um trabalho excepcional e tem trabalhado com a secretária Noem e o presidente Trump ao longo do último ano — disse Leavitt, reiterando que Noem tem a confiança do presidente.
Secretária de Segurança Interna dos EUA, Kristi Noem, durante audiência no Senado
Andrew Harnik/Getty Images/AFP
Também nesta segunda-feira, Trump conversou por telefone com o governador de Minnesota, o democrata e algoz político Tim Walz, um diálogo classificado por ele de “muito bom”. Tanto Walz como o prefeito democrata de Minneapolis, Jacob Frey, foram atacados no sábado por Trump, que os acusou de “incitarem a insurreição”. Segundo o presidente, ele e Walz concordaram em trabalhar juntos, e “pareciam estar em sintonia”. Em comunicado, o governador , com frequência atacado pelo republicano, revelou que Trump vai considerar uma redução no número de agentes federais no estado — são cerca de 3 mil — e prometeu conversar com o Departamento de Segurança Interna sobre um inquérito local relacionado à morte de Pretti no sábado. O presidente ainda conversou com Frey, que em comunicado afirmou ter ouvido de Trump que “a situação atual não pode continuar” e que alguns agentes federais deixarão a cidade nesta terça, sem dar detalhes.
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Os disparos fatais contra o manifestante provocaram uma guerra de versões nos últimos dois dias. Bovino e Noem afirmam que Pretti atacou os agentes federais, e citaram que ele estava armado. Contudo, vídeos do incidente contradizem as narrativas do governo, e mostram que a pistola que portava estava guardada na cintura, e que em sua mão havia apenas um telefone celular. Ao contrário de incidentes semelhantes, Trump não defendeu os agentes envolvidos, e disse, em entrevista ao Wall Street Journal, que o caso estava sendo revisado. Até a Associação Nacional do Rifle (NRA), uma das maiores doadoras de campanhas republicanas, repudiou a versão de Bovino e Noem.
“Os representantes públicos responsáveis deveriam aguardar uma investigação completa, em vez de fazer generalizações e demonizar os cidadãos cumpridores da lei”, afirmou a associação na rede social X.
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A imigração foi a grande bandeira, ao lado do combate à inflação, da campanha que levou Trump de volta à Casa Branca em 2024. No cargo, o presidente lançou operações para prender estrangeiros — incluindo alguns em situação regular — acelerou as deportações, apertou a repressão na fronteira e atacou políticas de seus antecessores. Como disse um parlamentar republicano ao portal Politico, se a saúde é um terreno fértil para os discursos democratas, a imigração era campo seguro para os hoje governistas, e poderia impulsionar as chances do partido nas eleições legislativas de novembro.
Mas a ofensiva em Minnesota, com cenas de violência recorrentes nas TVs e smartphones, pode transformar a imigração em um campo minado para o presidente. Uma sondagem da agência Reuters, em parceria com o instituto Ipsos, mostrou nesta segunda-feira que 39% dos americanos aprovam as políticas migratórias trumpistas — há cerca de um ano, a aprovação era de 50%. Outras pesquisas também confirmam a erosão da imagem de Trump entre moderados e representantes de minorias.
Perder o controle da Câmara pode significar mais um processo de impeachment, e ficar em minoria no Senado lhe renderá um final de mandato como “pato manco”, sem poder de fato para aprovar medidas. Daí a pressa de aliados por mudanças.
— Eles, sendo a Casa Branca, precisam recalibrar o que precisa ser feito para garantir que o respeito seja restabelecido — disse o governador do Texas, o republicano Greg Abbott, no podcast Mark Davis Show.
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Joe Rogan, podcaster e apoiador de Trump, chamou os agentes federais de “grupos militarizados perambulando pelas ruas, aparecendo do nada com máscaras e prendendo pessoas”, e fez uma referência nada elogiosa.
— Será que vamos mesmo virar a Gestapo? — questionou Rogan, se referindo à polícia secreta do regime nazista. — “Onde estão seus documentos?” É nisso que nos transformamos?
Conselheiros de Trump afirmaram privadamente ao portal Axios que o presidente não está satisfeito com a violência em Minnesota, algo confirmado pelos anúncios desta segunda-feira.
— Ele quer deportações. Ele quer deportações em massa. O que ele não quer é o que as pessoas estão vendo. Ele não gosta da aparência da situação. Parece ruim, então ele expressou certo desconforto com isso — disse um conselheiro ao Axios. — Existe a maneira correta de fazer isso. E esta não parece ser a maneira correta para muitas pessoas.
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A recalibragem não significa que Trump esquecerá sua ofensiva em Minnesota. No domingo, ele defendeu que o Congresso aprove uma lei para acabar com as “cidades santuário”, onde as autoridades locais limitam ou negam qualquer tipo de cooperação em operações migratórias. Na mesma publicação em que elogiou a conversa com Walz, garantiu que continuará com a investigação sobre um suposto desvio bilionário de fundos destinados a assistência social e que lançará um inquérito contra a deputada democrata Ilhan Omar, nascida na Somália, por suspeita de enriquecimento ilícito. Em resposta, Omar disse que Trump “está em pânico”.
Nesta segunda-feira, uma juíza federal de Minnesota que analisa um caso sobre a legalidade da presença das forças federais no estado não emitiu uma decisão imediata — como queriam as autoridades locais —, mas entregou uma série de perguntas ao Departamento de Justiça. Em outra audiência, relacionada à liminar que exige a preservação das provas na investigação sobre a morte de Pretti, o magistrado também não emitiu uma decisão, mas um advogado do governo disse que as autoridades estaduais não têm poderes para lançar um inquérito por conta própria.







