Análise: EUA e Israel queriam o radical Ahmadinejad no poder no Irã?
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— O Irã e Omã devem mobilizar todos os seus recursos tanto para fornecer serviços de segurança quanto para gerenciar a navegação da forma mais adequada — disse o embaixador iraniano na França, Mohammad Amin-Nejad, em entrevista à Bloomberg em Paris, na quarta-feira.
A proposta implicaria custos, segundo o diplomata.
— É evidente que aqueles que desejam se beneficiar desse tráfego também devem pagar sua parte — afirmou, acrescentando que o sistema será transparente. — E, se hoje há algum desejo de que a situação melhore, é preciso encontrar uma solução para atacar a raiz do problema.
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O governo de Omã não respondeu imediatamente a um pedido de comentário.
— Sempre dissemos que um sistema de pedágio no estreito seria inaceitável — afirmou o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, a jornalistas na quinta-feira. — Ninguém no mundo é a favor de um sistema de pedágio. Isso não pode acontecer. Tornaria um acordo diplomático inviável. É uma ameaça global que eles tentem fazer isso, e é completamente ilegal.
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O fechamento sem precedentes do estreito é a principal consequência da guerra entre EUA e Israel contra a República Islâmica. O tráfego marítimo diminuiu desde o início do conflito, em 28 de fevereiro, com o Irã permitindo a passagem de poucas embarcações e os EUA bloqueando portos iranianos. O cenário fez os preços de energia dispararem e provocou uma venda generalizada de títulos públicos no mundo, em meio ao aumento das pressões inflacionárias.
Localizado entre o Irã ao norte e Omã ao sul, o Estreito de Ormuz conecta o Golfo Pérsico ao Oceano Índico e normalmente responde por cerca de 20% do fornecimento mundial de petróleo e gás natural liquefeito, além de outras commodities, como alumínio e fertilizantes.
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O Irã condiciona a reabertura do Estreito de Ormuz ao fim do bloqueio naval imposto pelos EUA aos portos iranianos. Amin-Nejad insistiu que o tráfego não foi completamente interrompido e afirmou, sem apresentar provas, que 26 petroleiros e outras embarcações transitaram entre terça e quarta-feira com a ajuda da Guarda Revolucionária Islâmica.
O número seria incomumente alto para as últimas semanas, mas ainda muito abaixo dos níveis pré-guerra, de cerca de 135 navios por dia.
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Segundo o embaixador, a queda se deve ao alto custo dos seguros. Empresas de navegação, no entanto, afirmam que o principal problema é o risco de ataques com mísseis e drones, além da possibilidade de atingir minas marítimas. A maioria diz que não enviará embarcações pelo estreito até o fim da guerra.
Irã e EUA concordaram com um cessar-fogo frágil em 8 de abril e trocam mensagens por meio do Paquistão sobre um possível acordo de paz. As partes ainda parecem distantes e afirmaram recentemente estar prontas para retomar as hostilidades.
O Estreito de Ormuz é um ponto central de disputa. Países europeus e árabes do Golfo, como a Arábia Saudita, afirmam que o Irã não pode controlar um gargalo estratégico historicamente tratado como águas internacionais.
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Agora, Teerã ampliou sua área reivindicada de jurisdição e estabeleceu novas regras para embarcações que desejam atravessar a via, que tem cerca de 39 quilômetros em seu ponto mais estreito. Isso inclui lidar com um novo órgão, a Autoridade do Estreito do Golfo Pérsico. Em alguns casos, embarcações recebem pedidos de pagamento de até US$ 2 milhões (cerca de R$ 10 milhões) por passagem segura.
O Irã afirma que países como China e Coreia do Sul coordenaram com a Marinha da Guarda Revolucionária para permitir a passagem de seus navios. Nenhum dos dois confirmou a informação, e Teerã não informou se houve cobrança.
O país sinalizou que pretende manter o controle sobre Ormuz mesmo após a guerra, como forma de dissuadir futuros ataques dos EUA e de Israel. A medida também pode servir para gerar receita para a economia, afetada pelo conflito.
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A tentativa de transformar o controle sobre a rota marítima em “fonte de renda” não se limita ao Estreito de Ormuz. Nas últimas semanas, autoridades e veículos ligados à Guarda Revolucionária passaram a defender a cobrança pelo uso de cabos submarinos que cruzam o Golfo Pérsico, infraestrutura responsável por cerca de 95% do tráfego global de internet e essencial para comunicações e transações financeiras no mundo.
A proposta inclui a cobrança pelo uso do leito marinho iraniano, exigências regulatórias sobre empresas estrangeiras e a centralização das operações de manutenção em companhias locais. A estratégia segue a mesma lógica do pedágio naval: transformar o controle territorial e a instabilidade da região em instrumentos de pressão econômica.
O presidente dos EUA, Donald Trump, chegou a sugerir que o próprio país poderia cobrar tarifas, antes de afirmar que “é melhor [o Irã] não estar pensando” em pedágios. Em determinado momento, ele chegou a mencionar a possibilidade de uma parceria entre EUA e Irã para administrar o estreito.
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O chefe da principal companhia petrolífera dos Emirados Árabes Unidos, Sultan Al Jaber, destacou a preocupação dos vizinhos árabes do Irã ao afirmar que um “precedente perigoso” está sendo criado.
— Uma vez que se aceite que um único país pode manter a via navegável mais importante do mundo refém, a liberdade de navegação como a conhecemos acaba — disse.
Amin-Nejad minimizou as tensões com Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita. Segundo a Bloomberg, esses países realizaram ataques discretos contra o Irã antes do cessar-fogo, em resposta ao disparo de milhares de drones e mísseis iranianos contra seus territórios e outros países, como Catar e Bahrein.
— Os momentos mais difíceis para nós foram aqueles em que não tivemos escolha a não ser atacar bases militares localizadas no território desses países, de onde o território iraniano estava sendo atacado — disse o embaixador, acrescentando que os “mal-entendidos acumulados” podem ser resolvidos após o fim da guerra.
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Muitos dos projéteis iranianos atingiram áreas civis e locais não militares, como portos e refinarias de petróleo.
O embaixador afirmou ainda que os EUA subestimaram a capacidade de resistência do Irã.
— A análise deles se baseava na crença de que, ao pressionar o povo iraniano, por meio de sanções e de uma espécie de embargo total, conseguiriam resolver completamente a questão em três ou quatro dias. Eles imaginaram que o Irã era uma segunda Venezuela — disse, em referência à captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro em janeiro.
*Colaborou Filipe Barini







