Resultados: Candidato de esquerda garante vaga no 2º turno no Peru e enfrentará Fujimori em disputa polarizada
Acusado de omitir contribuições: MP do Peru pede mais de 5 anos de prisão para candidato de esquerda por fraude eleitoral
Horas antes de que o nome de Roberto Sánchez — da coalizão Juntos pelo Peru (JP) e herdeiro político do ex-presidente Pedro Castillo — fosse confirmado estaticamente para a disputa contra Keiko em 7 de junho, o Ministério Público (MP) do Peru pediu cinco anos e quatro meses de prisão para Sánchez por supostos crimes de “falsa declaração em procedimento administrativo e falsificação de informações sobre contribuições e receitas” de campanha entre 2018 e 2020. O timing para o pedido do MP não foi um mero detalhe: reforçou a percepção de interferência política no processo eleitoral.
— É resultado de um processo que vemos há vários anos de politização da Justiça ou judicialização da política. Há uma porta giratória entre certos partidos políticos e o atual sistema de Justiça. Cargos-chave foram ocupados por atores próximos à direita e ao Fujimorismo — explica a cientista política peruana Adriana Urratia.
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No Peru, o órgão eleitoral é formado por três instituições autônomas: o Júri Nacional de Eleições (JNE), que serve como uma espécie de juiz das atas impugnadas e contestadas; a Oficina Nacional de Processos Eleitorais (ONPE), responsável pela parte logística da votação; e o Registro Nacional de Identificação e Estado Civil (Reniec), que faz o cadastro e controle dos eleitores, e tem um papel secundário.
Nos últimos anos, devido às mudanças recentes, os representantes dos órgãos passaram a ser nomeados pelo Congresso — que, após uma profunda crise política e sucessivos impeachments, funciona hoje como peça central na escolha de presidentes interinos. Na última década, nenhum presidente eleito conseguiu terminar seu mandato de 5 anos.
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O primeiro turno, em 12 de abril, foi marcado por problemas na distribuição de urnas e cédulas, o que atrasou a abertura das seções eleitorais em vários locais de votação, especialmente em Lima — onde vivem um terço dos eleitores. De maneira inédita, o pleito teve que ser estendido até o dia seguinte para mais de 50 mil peruanos que não haviam conseguido votar.
Por causa das falhas, nos dias que se seguiram ao pleito, o JNE passou a contestar publicamente a autoridade da ONPE, fragilizando um processo de apuração que deveria acontecer de maneira coordenada entre as instituições.
Pressionado nas redes sociais, onde recebeu inclusive ameaças de morte, Piero Corvetto, chefe do ONPE, acabou renunciando antes que os resultados fossem anunciados. Oficialmente, os números finais serão divulgados apenas no domingo, devido ao alto número de atas contestadas que ainda estão sendo analisadas pelo JNE.
Além disso, mudanças recentes nas regras eleitorais incentivaram a fragmentação partidária e multiplicaram as candidaturas, que passaram de 30. As pesquisas, que apontavam um segundo turno entre Keiko e dois outros candidatos da direita, enfrentaram dificuldades metodológicas devido ao elevado número de candidatos e ao comportamento volátil do eleitorado — cerca de 20% dos peruanos decidem o voto apenas no dia da eleição.
No Peru, com um Parlamento muito dividido e sem um grande bloco partidário, os presidentes são constantemente ameaçados de impeachment
Ernesto Benavides/AFP
Assim como Castillo em 2021, Sánchez repetiu tendências históricas do eleitorado peruano, e venceu sobretudo nas regiões andinas, onde mais de um milhão de eleitores votaram no primeiro turno, segundo o ONPE. Como são regiões de acesso mais difícil, as atas demoraram mais para ser contabilizadas.
Agora, há o temor que o segundo turno seja novamente judicializado, aponta a especialista peruana. Também como em 2021, Keiko, filha do ex-ditador Alberto Fujimori, morto em 2024, enfrentará um candidato da esquerda que nunca havia disputado uma eleição. É a quarta tentativa da candidata de chegar à Presidência — em 2011, foi derrotada por Ollanta Humala e, em 2016, perdeu para o economista Pedro Pablo Kuczynski. Tanto Castillo quanto Kuczynski não conseguiram concluir seus mandatos.
— O cenário atual repete as dinâmicas de 2021, mas teremos um segundo turno ainda mais polarizado entre o fujimorismo e a esquerda. Como parte de uma tendência global e de um ecossistema de imprensa fragmentado e fragilizado, as campanhas se tornaram muitos personalistas, centradas nas figuras dos candidatos, e não em suas propostas — explica Urratia. — O segundo turno tende a ser marcado mais por um “voto contra” o outro candidato, do que pelo apoio aos programas econômicos, de saúde e educação de seu próprio candidato








