A pesquisa, publicada na revista Science, nesta quinta-feira (1), conseguiu caracterizar um planeta à deriva localizado a cerca de 3.000 parsecs da Terra, o equivalente a aproximadamente 10 mil anos-luz. O trabalho também trouxe novos elementos para compreender os processos de formação e ejeção planetária, além de ajudar a explicar a existência do chamado “deserto de Einstein”, uma faixa quase vazia entre planetas subyovianos e anãs marrons.
Uma observação rara no espaço profundo
A análise só foi possível graças a uma combinação incomum de observações feitas a partir da Terra e do telescópio espacial Gaia. Durante um evento de microlente gravitacional, o Gaia registrou seis observações em apenas 16 horas, justamente no pico do aumento de brilho de uma estrela de fundo, causado pela passagem do planeta errante.
Essa sequência ocorreu porque o planeta se moveu quase perpendicularmente ao eixo de precessão do telescópio, uma geometria considerada fortuita pelos pesquisadores. Esse alinhamento permitiu aplicar a técnica da paralaxe de microlente gravitacional, essencial para calcular a distância do objeto, algo que normalmente não é possível nesse tipo de evento.
Até então, a maioria dos exoplanetas era detectada por métodos indiretos ligados às suas estrelas hospedeiras, como o trânsito — quando o planeta provoca pequenas quedas periódicas no brilho da estrela — ou pela oscilação causada pela atração gravitacional. Para planetas errantes, que não emitem luz própria nem orbitam estrelas, esses métodos simplesmente não funcionam.
Nesse cenário, a microlente gravitacional se tornou a única ferramenta viável. O fenômeno ocorre quando um objeto massivo curva e amplifica a luz de uma estrela distante ao cruzar a linha de visão do observador, produzindo um aumento súbito de brilho. A forma dessa curva permite estimar a massa, mas geralmente deixa ambígua a relação entre massa e distância.
A quebra dessa limitação ocorreu no evento associado ao planeta designado KMT-2024-BLG-0792, também identificado como OGLE-2024-BLG-0516. Observações simultâneas feitas por diferentes instrumentos, incluindo o Gaia, permitiram calcular com precisão a paralaxe gravitacional e, assim, definir ambos os parâmetros fundamentais.
As medições indicaram que o planeta tem cerca de 22% da massa de Júpiter, valor um pouco inferior ao de Saturno. A estrela de fundo observada no evento foi identificada como uma gigante vermelha, o que ajudou a refinar ainda mais os cálculos apresentados no artigo da Science.
Os resultados reforçam um padrão já sugerido por estudos anteriores: a maioria dos planetas errantes parece ter massas menores que a de Júpiter, indicando que se formaram em discos protoplanetários e foram ejetados após interações gravitacionais violentas. Objetos mais massivos encontrados fora de sistemas estelares tendem a ser anãs marrons, grandes demais para serem planetas e pequenas demais para sustentar fusão nuclear.
Segundo os autores, essa distribuição ajuda a explicar o “deserto de Einstein”. Quanto maior a massa de um planeta, menor a chance de ele ser completamente expulso de seu sistema original. Por isso, predominam entre os errantes corpos com massas semelhantes ou inferiores às de Saturno ou Netuno. Como resume o estudo, processos dinâmicos extremos moldam tanto os planetas que permanecem ligados às suas estrelas quanto aqueles condenados a vagar sozinhos pelo cosmos.








