O Papa Leão XIV renovou, neste domingo (15), o seu apelo à paz no Oriente Médio, ao fim da guerra e à reabertura do diálogo. Durante oração semanal do Angelus no Vaticano, o pontífice americano reconheceu o sofrimento dos povos da região, descrevendo as agressões como uma “violência atroz” e pedindo um cessar-fogo. A guerra entra no seu 16º dia, após ataque conjunto dos Estados Unidos e Israel contra o Irã.
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— Milhares de pessoas inocentes foram mortas e inúmeras outras foram forçadas a fugir das suas casas. Renovo a minha proximidade a todos aqueles que perderam entes queridos nos ataques que atingiram escolas, hospitais e áreas residenciais — afirmou o Pontífice, acrescentando: — Em nome dos cristãos do Oriente Médio e de todas as mulheres e homens de boa vontade, dirijo-me aos responsáveis por este conflito. Cessar fogo! Que sejam reabertos os caminhos do diálogo! A violência nunca poderá levar à justiça, à estabilidade e à paz que as pessoas esperam.
O Papa também mencionou a situação no Líbano, onde Israel reabriu a frente de guerra com o Hezbollah, como um motivo particular de preocupação. Na última terça-feira, Beirute pediu ajuda à Santa Sé para proteger e preservar a presença dos cristãos no sul do país, na fronteira com o território israelense. A região tem sido atingida por bombardeios constantes que causaram uma enorme crise humanitária.
As declarações de Leão XVI mostram como o primeiro Papa americano tem andado numa corda bamba ao tentar equilibrar pronunciamentos contundentes pela paz e ensinamentos cristãos, ao mesmo tempo em que não deseja deflagrar um confronto direto com o presidente dos EUA, Donald Trump.
De volta à tradição
Quatro fontes do Vaticano informaram ao Washington Post que o Papa não tem interesse em uma resposta mais dura ao republicano, como o fez quando classificou a política americana de perseguição aos imigrantes como “desumana”.
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Para se ter um exemplo, durante a invasão à Venezuela que culminou na captura do ditador Nicolás Maduro, em janeiro, Leão XVI fez um apelo à “diplomacia” e disse estar preocupado com os acontecimentos no país caribenho, mas sem citar Trump ou os EUA nominalmente.
Na prática, enquanto o Pontífice apresenta-se como um unificador, construtor de pontes e contra a polarização, sem pender para um lado, os cardeais e bispos americanos falam sobre o conflito com mais firmeza. Uma estratégia diplomática nem um pouco inovadora, tradicionalmente adotada pelos papas.
A intenção é fazer com que as igrejas nacionais tomem a frente na mensagem aos seus governantes. O cardeal Robert McElroy, maior autoridade da Igreja em Washington, descreveu que a guerra não era “moralmente legítima” e nem “justa”. Já o cardeal Blade J. Cupich, arcebispo de Chicago e confidente de Leão XIV, descreveu o confronto iniciado no último dia 28 como “repugnante”.
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Secretário de Estado do Vaticano e porta-voz do Papa, Pietro Parolin, observou que, “se os Estados fossem reconhecidos como tendo o direito à ‘guerra preventiva’, o mundo inteiro correria o risco de ser incendiado”.
No caso da Venezuela, três clérigos católicos de mais alto escalão dos EUA afirmaram que o “fundamento moral das ações da América” no mundo tinha sido posto em xeque. Quanto aos imigrantes, uma conferência com bispos de diferentes posicionamentos votou, por 215 a 5, pela aprovação de um comunicado sobre os imigrantes nos EUA. No documento, os bispos disseram que “se opõem à deportação em massa indiscriminada de pessoas” e que oram “pelo fim da retórica desumanizadora e da violência, seja direcionada a imigrantes ou às forças da lei”.
Francisco na contramão
O único Papa a ir na contramão foi Francisco, que morreu em abril de 2025. Durante uma entrevista ao Corriere della Sera sobre a guerra na Ucrânia, o argentino disse que a “irritação” da Rússia pode ter sido provocada pelos “latidos da Otan [Organização do Tratado do Atlântico Norte] na [sua] porta”, embora tenha criticado a “brutalidade” das forças do Kremlin.
Quanto a guerra entre Israel e Hamas na Faixa de Gaza, iniciada em outubro de 2023, o Papa jesuíta descreveu o conflito como “massacre” e até como “terrorismo”, além de receber os parentes de reféns israelenses em Gaza e prisioneiros palestinos em Israel no Vaticano.
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Também criticou Trump diretamente em 2016, quando ainda concorria ao primeiro mandato, insinuando que o magnata “não era cristão” por conta de suas promessas de campanha que, não muito diferentes das feitas no segundo mandato, incluíam o aumento das deportações e a construção de um muro na fronteira com o México.
Antes da posse de Leão XVI, uma conta com o nome do Papa no X criticava repetidamente o governo Trump. O Vaticano até o momento não confirmou ou negou se o perfil pertencia ao Pontífice. Questionado sobre as mensagens da conta e a forma como o Pontífice se manifesta hoje, o arcebispo de Chicago, Blade J. Cupich, afirmou:
— Ninguém deveria se surpreender com a diferença entre o que foi dito antes e o que é dito agora. Ele agora é Leão XIV, o que representa um papel diferente.
Problemas para o Vaticano
Na visão de Massimo Faggioli, professor do Trinity College Dublin, especialistas no assunto podem perceber esse movimento de deixar a “Igreja americana falar por ele”, mas destaca também efeitos colaterais para a Santa Sé:
— Algumas pessoas podem dizer: ‘Ele não menciona os Estados Unidos porque é americano’. Isso é um novo problema para o Vaticano — afirmou ao Post.
Uma das quatro fontes disse ao jornal americano que, de fato, algumas pessoas mais à esquerda consideram Leão XVI “diplomático demais” e que podem sentir até “nostalgia” do que classificou como “uma abordagem direta do Papa Francisco”.
— Mas ele não quer aumentar a polarização e a maneira como se expressa torna mais difícil atacar o Papa. Talvez não seja simples para a mídia apresentar esse tipo de previsão — disse, acrescentando: — Mas, se você ler seus discursos, verá que ele tem um ponto de vista forte. Pessoas intelectuais entenderão o que ele está dizendo e contra o que ele se posiciona.
O Papa tem uma visita agendada no dia 4 de julho, data em que se comemora a Independência dos EUA, à ilha de Lampedusa, frequentemente o primeiro ponto de chegada de migrantes da África que tentam entrar na Europa em barcos precários. A região foi a primeira viagem apostólica feita por Francisco em julho de 2013.
As autoridades do Vaticano afirmaram que interpretar a escolha por Lampedusa e a data da viagem como uma mensagem contrária ao governo americano “é simplesmente errado”. Um das fontes descreveu como “outra maneira de ser americano”.
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— Milhares de pessoas inocentes foram mortas e inúmeras outras foram forçadas a fugir das suas casas. Renovo a minha proximidade a todos aqueles que perderam entes queridos nos ataques que atingiram escolas, hospitais e áreas residenciais — afirmou o Pontífice, acrescentando: — Em nome dos cristãos do Oriente Médio e de todas as mulheres e homens de boa vontade, dirijo-me aos responsáveis por este conflito. Cessar fogo! Que sejam reabertos os caminhos do diálogo! A violência nunca poderá levar à justiça, à estabilidade e à paz que as pessoas esperam.
O Papa também mencionou a situação no Líbano, onde Israel reabriu a frente de guerra com o Hezbollah, como um motivo particular de preocupação. Na última terça-feira, Beirute pediu ajuda à Santa Sé para proteger e preservar a presença dos cristãos no sul do país, na fronteira com o território israelense. A região tem sido atingida por bombardeios constantes que causaram uma enorme crise humanitária.
As declarações de Leão XVI mostram como o primeiro Papa americano tem andado numa corda bamba ao tentar equilibrar pronunciamentos contundentes pela paz e ensinamentos cristãos, ao mesmo tempo em que não deseja deflagrar um confronto direto com o presidente dos EUA, Donald Trump.
De volta à tradição
Quatro fontes do Vaticano informaram ao Washington Post que o Papa não tem interesse em uma resposta mais dura ao republicano, como o fez quando classificou a política americana de perseguição aos imigrantes como “desumana”.
O líder supremo do Irã está vivo? O mistério em torno do aiatolá Mojtaba Khamenei
Para se ter um exemplo, durante a invasão à Venezuela que culminou na captura do ditador Nicolás Maduro, em janeiro, Leão XVI fez um apelo à “diplomacia” e disse estar preocupado com os acontecimentos no país caribenho, mas sem citar Trump ou os EUA nominalmente.
Na prática, enquanto o Pontífice apresenta-se como um unificador, construtor de pontes e contra a polarização, sem pender para um lado, os cardeais e bispos americanos falam sobre o conflito com mais firmeza. Uma estratégia diplomática nem um pouco inovadora, tradicionalmente adotada pelos papas.
A intenção é fazer com que as igrejas nacionais tomem a frente na mensagem aos seus governantes. O cardeal Robert McElroy, maior autoridade da Igreja em Washington, descreveu que a guerra não era “moralmente legítima” e nem “justa”. Já o cardeal Blade J. Cupich, arcebispo de Chicago e confidente de Leão XIV, descreveu o confronto iniciado no último dia 28 como “repugnante”.
Ataque à imprensa: Presidente da Comissão Federal de Comunicações dos EUA ameaça cassar licenças de emissoras por cobertura da guerra no Irã
Secretário de Estado do Vaticano e porta-voz do Papa, Pietro Parolin, observou que, “se os Estados fossem reconhecidos como tendo o direito à ‘guerra preventiva’, o mundo inteiro correria o risco de ser incendiado”.
No caso da Venezuela, três clérigos católicos de mais alto escalão dos EUA afirmaram que o “fundamento moral das ações da América” no mundo tinha sido posto em xeque. Quanto aos imigrantes, uma conferência com bispos de diferentes posicionamentos votou, por 215 a 5, pela aprovação de um comunicado sobre os imigrantes nos EUA. No documento, os bispos disseram que “se opõem à deportação em massa indiscriminada de pessoas” e que oram “pelo fim da retórica desumanizadora e da violência, seja direcionada a imigrantes ou às forças da lei”.
Francisco na contramão
O único Papa a ir na contramão foi Francisco, que morreu em abril de 2025. Durante uma entrevista ao Corriere della Sera sobre a guerra na Ucrânia, o argentino disse que a “irritação” da Rússia pode ter sido provocada pelos “latidos da Otan [Organização do Tratado do Atlântico Norte] na [sua] porta”, embora tenha criticado a “brutalidade” das forças do Kremlin.
Quanto a guerra entre Israel e Hamas na Faixa de Gaza, iniciada em outubro de 2023, o Papa jesuíta descreveu o conflito como “massacre” e até como “terrorismo”, além de receber os parentes de reféns israelenses em Gaza e prisioneiros palestinos em Israel no Vaticano.
Míriam Leitão: Bastidores da guerra no Brasil
Também criticou Trump diretamente em 2016, quando ainda concorria ao primeiro mandato, insinuando que o magnata “não era cristão” por conta de suas promessas de campanha que, não muito diferentes das feitas no segundo mandato, incluíam o aumento das deportações e a construção de um muro na fronteira com o México.
Antes da posse de Leão XVI, uma conta com o nome do Papa no X criticava repetidamente o governo Trump. O Vaticano até o momento não confirmou ou negou se o perfil pertencia ao Pontífice. Questionado sobre as mensagens da conta e a forma como o Pontífice se manifesta hoje, o arcebispo de Chicago, Blade J. Cupich, afirmou:
— Ninguém deveria se surpreender com a diferença entre o que foi dito antes e o que é dito agora. Ele agora é Leão XIV, o que representa um papel diferente.
Problemas para o Vaticano
Na visão de Massimo Faggioli, professor do Trinity College Dublin, especialistas no assunto podem perceber esse movimento de deixar a “Igreja americana falar por ele”, mas destaca também efeitos colaterais para a Santa Sé:
— Algumas pessoas podem dizer: ‘Ele não menciona os Estados Unidos porque é americano’. Isso é um novo problema para o Vaticano — afirmou ao Post.
Uma das quatro fontes disse ao jornal americano que, de fato, algumas pessoas mais à esquerda consideram Leão XVI “diplomático demais” e que podem sentir até “nostalgia” do que classificou como “uma abordagem direta do Papa Francisco”.
— Mas ele não quer aumentar a polarização e a maneira como se expressa torna mais difícil atacar o Papa. Talvez não seja simples para a mídia apresentar esse tipo de previsão — disse, acrescentando: — Mas, se você ler seus discursos, verá que ele tem um ponto de vista forte. Pessoas intelectuais entenderão o que ele está dizendo e contra o que ele se posiciona.
O Papa tem uma visita agendada no dia 4 de julho, data em que se comemora a Independência dos EUA, à ilha de Lampedusa, frequentemente o primeiro ponto de chegada de migrantes da África que tentam entrar na Europa em barcos precários. A região foi a primeira viagem apostólica feita por Francisco em julho de 2013.
As autoridades do Vaticano afirmaram que interpretar a escolha por Lampedusa e a data da viagem como uma mensagem contrária ao governo americano “é simplesmente errado”. Um das fontes descreveu como “outra maneira de ser americano”.








