Em um artigo nesta quarta-feira (4) na revista Nature, uma dupla de cientistas da Universidade de Wageningen (Holanda), avaliou 385 pesquisas feitas sobre diversas locações do mundo, e apontam que 90% delas possuem um problema técnico que distorce suas previsões.
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Segundo os pesquisadores, o erro não está na estimativa de quanto os oceanos vão se elevar no futuro, mas em adotar valores corretos da linha d’água no presente.
Essas distorções acontecem porque a maioria dos estudos que buscam prever quanta área costeira a subida do nível do mar vai cobrir não usam medições reais sobre os oceanos. Os estudos onde se verificou problema se baseiam em modelos de “geoide”: aproximações matemáticas do nível do mar que incluem variáveis como a gravidade e a rotação da Terra.
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Essas simulações, porém, não consideram fatores circunstanciais importantes, como ventos, correntes oceânicas e temperatura da água, que alteram a linha d’água em escala regional e local.
Ao avaliar os estudos, quando compararam os trabalhos com medições de satélite atualizadas sobre o nível do mar em diversos pontos, surgiu a revelação de que a maioria deles tinha essa distorção.
Uma distorção de 25 cm em previsões de elevação do nível do mar não é pouca coisa. Para efeito de comparação, a média global adotada como consenso pelo painel de cientistas do clima da ONU (IPCC), por exemplo, é de 44 cm para um cenário de aquecimento de 2°C em 2100.
Nas pesquisas globais sobre o tema, cada centímetro é relevante, porque representa um volume enorme de água a mais que fica à disposição de furacões, tempestades e ressacas para ser levado litoral adentro nesses eventos extremos.
“Nossos resultados realçam a necessidade de reavaliação de estimativas existentes de impacto costeiro e de aprimoramento de padrões da comunidade de pesquisa, com potenciais implicações para formuladores de política, financiamento climático e adaptação costeira”, afirmam no artigo da Nature os pesquisadores Katharina Seeger e Philip Minderhoud.
Uma outra maneira de entender a raiz do problema dizem os pesquisadores, é que os tipos de satélite que medem a altitude da superfície do mar e de locais em terra firme são diferentes. O modo com que as simulações de computador integram os dados nos geoides é que dá origem ao problema apontado.
‘Ponto cego’
Uma das preocupações apontadas no trabalho da Nature é que o problema das pesquisas se distribui de forma desigual no mundo. Em média, as pesquisas sobre elevação do nível do mar feitas no hemisfério sul estão mais distorcidas, porque há menos dados concretos de medição local da gravidade para alimentar modelos de geoides ali.
Seeger e Minderhoud não apontam trabalhos específicos que tenham distorcido pesquisas brasileiras, por exemplo, mas afirmam que 13 dos estudos avaliados tratam da América do Sul, e que na linha costeira do continente o problema é maior do que no resto do planeta, em média. As maiores distorções, porém, foram encontradas em costas de países no Índico e no Pacífico-Leste onde alguns estudos subestimavam elevação presente do nível do mar em mais de um metro.
Apesar de apontar necessidades de correção em muitos trabalhos, Minderhoud evitou adotar na entrevista coletiva sobre o trabalho um tom de “caça as bruxas” para condenar os estudos que apresentam distorções.
— O que nosso estudo revela é, de certa forma, um ponto cego metodológico situado entre duas disciplinas científicas tradicionalmente desconectadas. De um lado, temos a oceanografi— O que nosso estudo revela é, de certa forma, um ponto cego metodológico situado entre duas disciplinas científicas tradicionalmente desconectadas. De um lado, temos a oceanografia, que lida com o nível do mar, e, do outro, áreas como geomorfologia e riscos costeiros, que tratam da elevação costeira e dos impactos desses riscos — explicou o cientista — Nossa pesquisa demonstra que o conhecimento e as práticas comuns em uma disciplina, na verdade, foram disseminados de modo muito esparso na outra.
Tarefa para o IPCC
Uma notícia ruim que se soma ao recado que o pesquisador deu à comuidade acadêmica, é que mesmo entre os 10% que não apresentaram distorções grandes, a abordagem de cálculo não está sendo feita da maneira correta para integrar os dados. Só 1% das pesquisa, diz, tem metodologia boa o suficiente para prevenir eventuais erros.
Minderhoud sugeriu que a correção dessas medidas seja uma das missões importantes para o próximo relatório de avaliação do IPCC, que começa a ser feito neste ano. Para governos que fazem seus projetos de adaptação climática, ele diz, também é importante levar em conta potenciais diferenças em suas previsões.
Se o nível do mar subir em média 1 metro, aponta seu estudo, as pesquisa com dados distorcidos estão deixando de prever impacto sobre uma área habitada por mais de 100 milhões de pessoas no mundo, sobretudo em países em desenvolvimento. Em termos de território alagado, isso representa uma área 37% maior que ficaria sob os oceanos dentro desse cenário.









