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De acordo com análise do Instituto para o Estudo da Guerra (ISW), as tropas ucranianas recuperaram, em abril, mais território do que os russos conquistaram no mesmo período, uma diferença de 116 km² a favor de Kiev, o que não acontecia desde agosto de 2024, quando a Ucrânia invadiu parte da região de Kursk, dentro da Federação Russa.
Em termos numéricos, parece desprezível — a Rússia ocupa cerca de 20% do território ucraniano, em torno de 115 mil km² — mas o indicador carrega nas entrelinhas pistas de mudanças. Para efeito de comparação, em novembro do ano passado, o “saldo” era favorável aos russos, com 576 km² de diferença. Em março, um mês depois do início da contraofensiva, a vantagem foi reduzida a 23 km².
Mapa da guerra na Ucrânia
Editoria de Arte
Uma estratégia que tem nos drones o seu personagem principal.
Sem armamentos suficientes para conter um dos mais poderosos exércitos do planeta, os ucranianos desenvolveram uma dinâmica indústria de drones de monitoramento, defesa e, especialmente, ataque. Desde aeronaves não tripuladas complexas, com mais de mil quilômetros de autonomia, até equipamentos mais simples e não menos eficazes.
— Precisamos entender que nunca teremos mais pessoal e nunca teremos uma vantagem numérica sobre o inimigo —disse Mykola Zinkevych, comandante de uma unidade de drones no Exército ucraniano, à CNN. — Portanto, precisamos conquistar essa vantagem por meio da tecnologia.
Soldados testam um drone Vampire na região de Donetsk, na Ucrânia, em 5 de maio de 2024
Mauricio Lima / The New York Times
No ano passado, a “Operação Teia de Aranha” surpreendeu o comando russo com seus enxames de drones explodindo aeronaves e equipamentos de milhões de dólares. No mesmo período, os militares ucranianos afirmaram ter assumido o controle de uma posição no terreno e feito prisioneiros de guerra à distância, apenas com robôs. Agora, também são usados para inutilizar armamentos como os canhões de artilharia, pilar das ações da Rússia, e para barrar avanços das tropas invasoras.
— Destruir o poder de fogo inimigo desempenha um papel muito importante em qualquer operação, já que cada arma inimiga que permanecer operacional terá como alvo nossas unidades em todas as etapas da missão — disse Illia, chefe de reconhecimento da 148ª Brigada de Artilharia, em entrevista ao Kyiv Independent, na região de Zaporíjia.
Em abril, o comandante das forças ucranianas, Oleksandr Syrskii, escreveu no Telegram que os drones eram responsáveis por 90% das baixas russas, e que, em março, o número de alvos destruídos por eles aumentou 55% em relação a fevereiro. Nas redes sociais, vídeos de drones se aproximando de soldados antes de serem detonados acumulam alguns milhares de likes, expondo uma vulnerabilidade crucial das tropas a serviço do presidente russo, Vladimir Putin.
— Toda a premissa da tática de negociação de Putin é usar essa guerra cognitiva para convencer o Ocidente de que não há sentido em apoiar a Ucrânia e que eles deveriam simplesmente pressionar a Ucrânia a ceder agora a todas as exigências da Rússia — disse Christina Harward, pesquisadora do ISW, à CNN. — Isso realmente está desmascarando toda essa narrativa.
Voluntários fazem redes para soldados russos em Pskov
Olga MALTSEVA / AFP
Isso não significa que os ucranianos estejam no controle total. Os russos também apostam alto em tecnologia, e as linhas de frente jamais estiveram tão saturadas com drones aéreos e terrestres, atrasando ou inviabilizando movimentações além de alguns metros por dia, o que favorece os ucranianos. Para quebrar o impasse, Moscou apela para uma estratégia conhecida como “mil cortes”, cujo nome é emprestado de um antigo método de execução chinês.
Pela técnica, ao invés de ações com tropas regulares, formadas por centenas de integrantes, grupos pequenos de até 10 pessoas buscam falhas nas linhas defensivas ucranianas para, posteriormente, abrir caminho às unidades de infantaria. Em locais como Pokrovsk e Kupiansk, essas forças chegaram a hastear bandeiras russas e anunciar sua conquista, manobra com um forte componente de propaganda.
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Além da mudança de humores no terreno, um dos maiores sucessos militares ucranianos desde o início da invasão foi levar ao território russo o conflito ordenado por Putin. Os ataques com armas convencionais e, especialmente, drones, causam impactos duros ao complexo militar-industrial e à indústria de energia, crucial para manter os esforços de guerra. Terminais de exportação de petróleo e gás no Mar Negro e Mar Báltico são atingidos com frequência, e como disse recentemente um comentarista local, “não há mais lugar a salvo dos drones ucranianos na Federação Russa”:
Instalações em Perm, a cerca de 1,5 mil km da fronteira entre Rússia e Ucrânia, foram atacadas no começo do mês, suspendendo a produção em um local que, em 2024, processou 250 mil barris de petróleo por dia. Em Astrakhan, no Mar Cáspio, os drones provocaram um grande incêndio em uma unidade de processamento de gás. Outro alvo recorrente é o porto de Ust-Luga, no Mar Báltico, um dos principais terminais de exportação de petróleo e gás.
Nesta sexta-feira, números obtidos pela agência Reuters apontaram que a exportação marítima de petróleo e derivados caiu 9,8% em abril, em relação a março, e 17% em relação a abril do ano passado. Desde janeiro os ataques ucranianos forçaram uma redução de 770 mil barris diários na capacidade de processamento diária do país.
Equipes de resgate trabalham em um prédio residencial parcialmente destruído após ataques de drones e mísseis russos em Kiev
ROMAN PILIPEY/AFP
A resposta russa vem em violentos ataques aéreos. Na madrugada de quinta-feira, misseis e drones atingiram a capital ucraniana, deixando 24 mortos, incluindo três crianças. O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, ao mesmo tempo em que condenou o ataque e prometeu retaliações, acusou os russos de planejarem ações contra escritórios do governo e contra sua residência oficial. Na semana passada, o tradicional desfile do Dia da Vitória na Segunda Guerra Mundial, em Moscou, foi reduzido e não incluiu veículos blindados e tanques, decisão creditada a uma suposta ameaça de drones ucranianos (o que não aconteceu). Na ocasião, o comando militar russo prometeu bombardear o centro de Kiev se houvesse algum tipo de interferência.
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Nesta sexta, os dois países trocaram 205 prisioneiros, cada um, como parte de um acordo de cessar-fogo de três dias, firmado no início do mês por intermédio do presidente americano, Donald Trump. A proposta prevê novas trocas — são mil de cada lado —, mas é uma gota no oceano diante da distância de acordo definitivo que encerre os quatro anos de guerra. A Rússia não abre mão de suas demandas territoriais, enquanto a Ucrânia exige o pagamento de reparações e garantias de segurança, dentre outros temas igualmente sem solução. Hoje, não há previsão de novas reuniões entre os dois lados.









