Contexto: Irã nega que preso ligado a protestos será executado; Trump observa situação após ameaçar intervir
Entenda: Irã indica avanço em formato para negociação com os EUA e nega ultimato de Trump para acordo nuclear
Soltani foi preso em 8 de janeiro em sua casa, na cidade de Fardis, a cerca de 40 quilômetros a oeste de Teerã, durante uma onda de manifestações que havia se espalhado pelo país desde dezembro, provocando uma repressão letal por parte das autoridades iranianas. De acordo com a emissora estatal IRIB, ele foi acusado de “reunião e conluio contra a segurança interna do país” e de realizar “atividades de propaganda” contra o regime.
Após a prisão, autoridades dos Estados Unidos e um parente de Soltani afirmaram que ele seria executado, o que levou o caso a ocupar espaço de destaque na imprensa. Familiares relatam que Soltani foi mantido incomunicável desde a prisão, sem acesso a advogado ou direito à defesa. Na época, um parente de Soltani disse à BBC Persian que um tribunal havia emitido uma sentença de morte “num processo extremamente rápido”, em apenas dois dias.
O Judiciário iraniano, no entanto, classificou essas informações como “notícias fabricadas”, ao mesmo tempo em que o presidente americano, Donald Trump, ameaçava tomar “medidas muito duras” caso as execuções fossem realizadas. O líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, alertou que qualquer ataque provocaria um conflito regional. Posteriormente, parentes informaram que a execução havia sido adiada.
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A libertação sob fiança foi confirmada pelo grupo de direitos humanos Hengaw, com sede na Noruega, e pela Press TV, veículo estatal iraniano. Segundo relatos anteriores, Soltani chegou a se encontrar com a família e estava em boas condições físicas. À AFP, o advogado do jovem, Amir Mousakhani, disse que foi paga uma fiança de “dois bilhões de tomans” (cerca de R$ 66 mil). Depois disso, afirmou, ele recebeu todos os seus pertences, inclusive o celular.
Também nesta segunda-feira, a emissora estatal iraniana afirmou que quatro estrangeiros, cujas nacionalidades não foram especificadas, foram presos no Irã por “participação em distúrbios”. O veículo afirmou que as pessoas foram “presas durante uma operação” e que, “durante a busca na mochila de um dos suspeitos, foram encontradas quatro granadas de efeito moral caseiras, usadas durante os distúrbios e confrontos na região”.
Os casos ocorreram em meio a protestos de grande escala que se espalharam pelo Irã. A agência Human Rights Activists News Agency, com sede nos Estados Unidos, afirma ter confirmado a morte de mais de 6.300 pessoas desde o início das manifestações, no fim de dezembro, e investiga outros 17 mil óbitos relatados. Outro grupo, o Iran Human Rights (IHR), sediado na Noruega, advertiu que o número final de mortos pode ultrapassar 25 mil.
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Apesar de um bloqueio prolongado da internet no país dificultar o acesso a informações confiáveis sobre o cenário no país, testemunhas, ativistas de direitos humanos e profissionais de saúde relataram episódios de violência generalizada durante a repressão aos protestos. O líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, reconheceu que milhares de iranianos morreram durante o período de instabilidade, mas atribuiu parte das mortes a declarações de Trump, que, segundo ele, incentivaram os manifestantes ao prometer “apoio militar” americano.
Enquanto os protestos avançavam, Trump incentivou os iranianos a manterem as manifestações e a “assumirem o controle” das instituições do país, assegurando que “a ajuda está a caminho”. No entanto, nenhuma ação militar ocorreu durante os protestos ou a repressão subsequente. Em vez disso, Trump agora avalia um grande ataque contra o Irã, após negociações para limitar o programa nuclear e a produção de mísseis balísticos do país não avançarem, segundo pessoas familiarizadas com o assunto ouvidas pela CNN.
Em uma publicação na Truth Social na quarta-feira, Trump exigiu que o Irã se sentasse à mesa de negociações para firmar “um acordo justo e equilibrado, sem armas nucleares”, advertindo que o próximo ataque americano ao país “será muito pior” do que o realizado no ano passado contra três instalações nucleares iranianas. Nesta segunda-feira, a República Islâmica anunciou que mediadores estão avançando com a definição de um formato para negociações diplomáticas.
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O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, disse no domingo estar “confiante de que podemos chegar a um acordo” com os Estados Unidos sobre o programa de armas de Teerã. O líder supremo iraniano, no entanto, adotou um tom desafiador, advertindo que um ataque americano enfrentaria forte retaliação. Falando para uma multidão na mesquita Imam Khomeini, em Teerã, Khamenei declarou:
— Os americanos devem saber que, se iniciarem uma guerra, desta vez será uma guerra regional.
Penas de morte
Embora o Irã esteja entre os países que mais executam no mundo — com mais de 2 mil execuções registradas apenas em 2025 —, especialistas destacam que, historicamente, os processos que resultam em pena de morte costumam levar anos até a sentença definitiva e sua execução.
Nos últimos três anos, ao menos 12 homens foram executados no Irã após receberem sentenças relacionadas aos protestos de 2022 conhecidos como “Mulher, Vida, Liberdade”. Na ocasião, a onda nacional de manifestações foi desencadeada pela morte sob custódia de Masha Amini, uma jovem curda acusada pela polícia da moralidade de usar o hijab de forma “imprópria”. Grupos de direitos humanos afirmam que a última execução do tipo ocorreu em 6 de setembro, quando Mehran Bahramian foi enforcado na prisão central de Isfahan.
Segundo o grupo Iran Human Rights, com sede na Noruega, autoridades torturaram Bahramian para obter confissões, e ele não recebeu um julgamento justo. A organização afirmou que ele foi condenado à morte em janeiro de 2024 sob a acusação de “inimizade contra Deus” por supostamente ter matado um membro da Guarda Revolucionária.
(Com AFP)





