Contexto: Mobilização militar dos EUA contra Irã mimetiza campanha de pressão feita contra Venezuela
Sem descartar ataque: Irã se diz pronto para negociar com EUA, mas rejeita ameaças; Trump afirma que Teerã quer acordo
Washington deslocou um grupo naval de combate liderado pelo porta-aviões USS Abraham Lincoln para águas próximas ao Irã, depois que o presidente americano, Donald Trump, ameaçou intervir na esteira de uma repressão mortal a protestos antigovernamentais no país. A chegada da flotilha elevou os temores de um confronto direto, e Teerã advertiu que responderia com ataques de mísseis contra bases, navios e contra aliados dos EUA — especialmente Israel — em caso de ataque.
Meios militares dos EUA mobilizados no Oriente Médio
Arte/ O GLOBO
Trump, no entanto, afirmou acreditar que o Irã preferirá fechar um acordo sobre seus programas nuclear e de mísseis a enfrentar uma ação militar americana. Em resposta, autoridades iranianas disseram que Teerã está disposto a dialogar sobre o tema nuclear, desde que seus mísseis e suas capacidades de defesa não entrem na pauta das negociações.
— Contrariando a agitação da guerra midiática fabricada, os arranjos estruturais para as negociações estão avançando — afirmou Ali Larijani, chefe do Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã, um dia depois de o Kremlin informar que ele manteve conversas em Moscou com o presidente russo, Vladimir Putin.
O presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, também se pronunciou neste sábado, afirmando que um conflito mais amplo prejudicaria tanto o Irã quanto os Estados Unidos. A declaração foi feita durante uma ligação com o presidente egípcio, Abdel Fattah al-Sisi, segundo a Presidência iraniana.
— A República Islâmica do Irã nunca buscou, nem de forma alguma busca, a guerra e está firmemente convencida de que uma guerra não seria do interesse nem do Irã, nem dos Estados Unidos, nem da região — disse Pezeshkian.
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Antes disso, o chefe do Exército iraniano, Amir Hatami, havia advertido os EUA e Israel contra qualquer ataque, afirmando que suas forças estavam “em plena prontidão defensiva e militar” para responder.
— Se o inimigo cometer um erro, sem dúvida colocará em risco sua própria segurança, a segurança da região e a segurança do regime sionista — declarou Hatami, segundo a agência estatal IRNA, acrescentando que a tecnologia e o conhecimento nuclear do Irã “não podem ser eliminados”.
Escalada de tensões
Com a escalada das tensões, autoridades iranianas se apressaram em negar que vários incidentes ocorridos neste sábado estivessem ligados a qualquer ataque ou sabotagem. Entre eles, uma explosão na cidade portuária de Bandar Abbas, no sul do país, que bombeiros locais disseram ter sido causada por um vazamento de gás.
Na sexta-feira, o Comando Central dos EUA (CENTCOM) afirmou que a Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC, na sigla em inglês) realizaria “um exercício naval com disparos reais de dois dias” no Estreito de Hormuz, ponto estratégico para o trânsito global de energia. Em comunicado, o CENTCOM advertiu a IRGC contra “qualquer comportamento inseguro e pouco profissional nas proximidades das forças dos EUA”.
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A declaração foi criticada pelo ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, que se manifestou em rede social: “Operando ao largo de nossas costas, o Exército dos EUA agora tenta ditar como nossas Poderosas Forças Armadas devem conduzir exercícios de tiro em seu próprio território”, escreveu ele no X.
Os Estados Unidos designaram a IRGC como organização terrorista em 2019, medida que a União Europeia seguiu na quinta-feira, provocando reações indignadas em Teerã. Em junho, os EUA realizaram ataques contra instalações nucleares-chave do Irã, quando se juntaram brevemente a Israel em uma guerra de 12 dias contra seu rival regional.
Cenário local
No plano interno, protestos em todo o país contra o aumento do custo de vida começaram em 28 de dezembro e depois se transformaram em um movimento antigovernamental mais amplo, que atingiu o auge em 8 e 9 de janeiro. As autoridades classificaram os episódios como “distúrbios” e atribuíram a responsabilidade aos Estados Unidos e a Israel.
O número oficial de mortos divulgado pelo governo é de 3.117. No entanto, a agência Human Rights Activists News Agency (HRANA), sediada nos Estados Unidos, afirmou ter confirmado 6.563 mortes, incluindo 6.170 manifestantes e 124 crianças.
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No sábado, Pezeshkian pediu a seu governo que atendesse às queixas da população após as manifestações e que “servisse ao povo”. Na fronteira de Kapikoy, que separa o Irã da Turquia, onde pouco mais de 100 pessoas cruzaram neste sábado, iranianos relataram desejo de liberdade em relação aos líderes clericais em Teerã.
— Nós também queremos ser livres, ver turistas como na Turquia… Todo mundo nos vê como terroristas. Com os mulás, voltamos 100 anos — disse Shabnan, usando um pseudônimo. — Eles estavam atirando em nós pelas costas. Chegaram a nos atingir através das janelas. Todo mundo perdeu entes queridos, amigos, vizinhos, conhecidos. .
Rosa, de 29 anos, que viajava para Istambul a partir da travessia, afirmou que a pressão americana em relação aos protestos não é suficiente.
— Agora é tarde demais. Sabemos que eles não virão por nós, mas pelo petróleo. Pelos próprios interesses. Nós não contamos — disse.





