Análise: Governo Trump subestimou reação do Irã à guerra e agora corre para conter disparada do petróleo
Entenda: Enquanto bloqueia o tráfego no Estreito de Ormuz, Irã mantém fluxo de petróleo e exporta mais do que antes da guerra
Mesmo com mais de 1.300 mortes registradas no território iraniano — incluindo a do então líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei — e mais de 17 mil feridos no país diante dos ataques massivos de Israel e dos EUA, as forças iranianas seguem ameaçando territórios vizinhos na região com sua estratégia de retaliação. Além de Khamenei, os ataques mataram dezenas de altos funcionários e alguns dos comandantes de mais alta patente da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC), uma força paramilitar de elite que controla grande parte da economia.
— Eles estão praticamente no fim da linha — disse Trump a jornalistas em Washington no 12º dia de conflito. — Podemos atingir áreas de Teerã e outros lugares que, se fizermos isso, será quase impossível para eles reconstruírem seu país, e não queremos isso.
‘Estratégia do Mosaico’: Saiba como funciona a guerra assimétrica do Irã contra EUA e Israel e seus potenciais erros de cálculo
Ao longo do dia, o Irã havia atacado vários navios no Estreito de Ormuz, crucial para o transporte de petróleo mundial, e assegurou que está preparado para uma guerra longa que “destruirá” a economia mundial. O fechamento, na prática, do Estreito de Ormuz e os ataques iranianos às monarquias petrolíferas do Golfo dispararam o preço do petróleo, que se aproximou dos 120 dólares nesta semana, antes de recuar.
Navios atacados no Estreito de Ormuz
Editoria de Arte/O Globo
Primeiro pronunciamento: Estreito de Ormuz ‘certamente’ seguirá bloqueado, diz novo líder supremo do Irã
Os Estados Unidos e Israel “devem considerar a possibilidade de se envolverem em uma guerra de desgaste de longo prazo que destruirá toda a economia americana e a economia mundial, e que fará com que todas as suas capacidades militares sejam corroídas a ponto de serem destruídas”, declarou Ali Fadavi, assessor do comandante-em-chefe do exército ideológico do Irã, à televisão estatal.
À Reuters, fontes afirmaram que há uma “multidão” de relatórios de inteligência fornecendo “análises consistentes de que o regime não está em perigo” de colapso e “mantém o controle do público iraniano”. Os documentos produzidos pela inteligência americana destacam ainda a coesão da liderança religiosa do Irã. Autoridades israelenses, em discussões fechadas, também reconheceram que não há certeza de que a guerra levará ao colapso do governo teocrático iraniano, disse um alto funcionário israelense à agência.
Initial plugin text
Narrativas controversas
No quinto dia do conflito, em 3 de março, Trump chegou a ressaltar que o poderio militar iraniano havia sido “quase todo eliminado” após quatro dias de bombardeio. No entanto, quase 10 dias depois, a Guarda Revolucionária do Irã segue desferindo ataques contra Israel e a bases militares e escritórios diplomáticos dos EUA locados em países vizinhos do Golfo Pérsico.
— Eles não têm Marinha. Ela foi destruída. Eles não têm Força Aérea. Ela foi destruída. Eles não têm [sistemas de] detecção aérea, isso foi destruído. Os radares deles foram destruídos. E praticamente tudo foi destruído — afirmou Trump na Casa Branca, pouco antes de uma reunião com o premier alemão, Friedrich Merz. — Estamos indo muito bem. Temos um ótimo exército e eles estão fazendo um trabalho fantástico.
Risco elevado: Irã adverte contra ação de EUA e Israel na Ilha de Kharg, responsável por maior parte da exportação de petróleo bruto do país
Em atualização divulgada na quarta-feira, o Comando Central dos EUA (Centcom) informou que as forças americanas já atingiram mais de 5.500 alvos, incluindo 60 navios, no território iraniano desde o início do conflito. Num vídeo publicado nas redes, o comandante Brad Cooper reforça que os EUA alcançaram “superioridade aérea sobre vastas áreas do Irã”, exercendo imensa pressão diária sobre o regime, resultado que ele classifica como “uma prova da força de nossas alianças inabaláveis”.
Cooper afirmou ainda que os EUA não estão apenas se defendendo das ameaças iranianas, mas as estão “desmantelando metodicamente” ao atingir mísseis, drones e as bases industriais de defesa do regime. Segundo ele, desde o início da ação militar americana e israelense, os ataques com mísseis balísticos e drones do regime “diminuíram drasticamente”. Apesar disso, países como a Arábia Saudita, Catar e Emirados Árabes Unidos (EAU) seguem reportando diariamente suas atividades de interceptação de drones e mísseis iranianos em seus espaços aéreos.
Iraque suspende operações nos portos de petróleo após novos ataques no Golfo Pérsico
Os Emirados Árabes Unidos disseram, no mesmo dia, que seus sistemas de defesa aérea interceptaram uma enxurrada de mísseis e drones lançados do Irã, de acordo com seu Ministério da Defesa.
“Os sistemas de defesa aérea dos Emirados Árabes Unidos neutralizaram seis mísseis balísticos, sete mísseis de cruzeiro e 39 veículos aéreos não tripulados lançados do Irã”, dizia um comunicado do ministério.
Vídeos: Governo Trump promove espetacularização da guerra no Irã com posts que associam conflito ao entretenimento
As autoridades também relataram números cumulativos desde o início dos ataques, afirmando que os sistemas de defesa dos EAU interceptaram 268 mísseis balísticos, 15 mísseis de cruzeiro e 1.514 drones desde o início das hostilidades. De acordo com o comunicado, os ataques resultaram em seis mortes e 131 feridos entre pessoas de várias nacionalidades.
Instalações americanas danificadas em ataques do Irã
Arte O GLOBO
O New York Times (NYT) identificou pelo menos 17 locais e outras instalações americanas em países do Oriente Médio danificadas por ataques iranianos, várias das quais foram atingidas mais de uma vez desde o início da guerra. A análise, segundo o jornal, é baseada em imagens de satélite comerciais de alta resolução, vídeos verificados nas redes sociais e declarações de autoridades americanas e da mídia estatal iraniana.
Embaixadas foram atingidas, 7 soldados foram mortos, 140 ficaram feridos e bases militares e infraestrutura de defesa aérea foram danificadas pela ação dos persas na região. A intensidade dos ataques retaliatórios sinalizou que o Irã estava mais preparado para a guerra do que muitos no governo do presidente dos EUA, Donald Trump, haviam previsto, afirmam autoridades militares americanas.








