O resultado do trabalho inédito foi publicado recentemente no estudo “Chasing lightning” (“À caça do relâmpago”, em tradução livre), ainda em fase de revisão científica. As interferências, ele explica, funcionam na prática como uma queda abrupta no sinal de GPS, como se algo, em algum lugar do espaço, estivesse “afogando” a transmissão.
— Estou convicto de que é jamming deliberado da Rússia — afirmou Humphreys ao GLOBO.
Para dimensionar a gravidade da descoberta, é preciso levar em conta que os sinais de navegação por satélite (GPS americano, Galileo europeu e BeiDou chinês) chegam à Terra extremamente fracos, na ordem de um décimo de quadrilhão de watts. Basta emitir ruído na mesma faixa de frequência para “engolir” o sinal legítimo. Isso é o que os especialistas chamam de jamming.
Estação de satélites construída pelos EUA na Guerra Fria, conhecida como ‘Mickey Mouse’, em colina perto de Kangerlussuaq, no oeste da Groenlândia, em junho de 2025
Ivor Prickett/The New York Times
O que torna o caso russo tão singular não é o jamming em si, já que a técnica é conhecida e amplamente usada em zonas de conflito, como, por exemplo, na Ucrânia, mas, sim, a origem espacial da interferência e sua escala continental.
A curvatura da Terra impede que qualquer transmissor em solo cubra simultaneamente regiões da Polônia, da Espanha e do Canadá, como visto nas análises. Ou seja, Humphreys descobriu que a fonte precisava estar a pelo menos 1.200 quilômetros de altitude.
— Fazer jamming de GPS do espaço exige muita potência. Com o uso dual do GPS (civil e militar), a estratégia é realmente atrapalhar. Não é à toa que os Estados Unidos têm feito licitações para novos sistemas de GPS, mais robustos, para evitar esse problema — afirmou ao GLOBO Pedro Palotta, especialista em astronáutica do canal Space Orbit.
Os pesquisadores identificaram o Cosmos 2546 por meio de uma técnica que mede a diferença de tempo de chegada do sinal de interferência em duas estações — uma em Amsterdã e outra em Trondheim, na Noruega. A diferença, medida em microssegundos, definiu uma superfície geométrica no espaço onde a fonte deveria estar. Ao comparar com o catálogo de satélites conhecidos, apenas um se encaixava: o Cosmos 2546, com margem de erro de apenas 200 metros. O satélite integra uma constelação de seis unidades em órbitas elípticas e altas que compõem o sistema de detecção de mísseis balísticos da Rússia.
Sinal de teste ou arma pronta?
O padrão temporal das interferências foi o que convenceu os pesquisadores a descartar possível falha técnica. Os eventos se concentram em dias úteis (de terças a quintas) e no horário comercial europeu.
— Me digam que amplificador costuma falhar durante o expediente comercial nas quartas-feiras — ironiza Humphreys.
O espectro do sinal também dá dicas sobre a intenção do país por trás dos ataques. A interferência está centrada em uma faixa dois megahertz acima da frequência central do GPS, não exatamente sobre ela. Para o cientista Lucas Fonseca, empreendedor espacial e pesquisador do setor, trata-se de uma lógica estratégica: testar a capacidade sem revelar todo o potencial destrutivo.
Satélite GPS
Freepik
Os EUA, destaca o especialista, fizeram algo semelhante no passado, quando incorporaram a degradação controlada ao próprio sinal do GPS. A prática, no entanto, foi proibida por lei desde o segundo mandato de Bill Clinton, do Partido Democrata (1997-2001).
— Se os sinais fossem calibrados para coincidir exatamente com a frequência central do GPS e transmitidos de forma contínua, o impacto sobre a aviação, a navegação marítima, os sistemas bancários e as redes elétricas provocaria uma escalada massiva em uma guerra eletrônica — alertou Humphreys.
Há ainda uma segunda frequência de interferência registrada em uma faixa usada pelo sistema de navegação por satélite chinês, o BeiDou. Os dois sinais nunca aparecem ativos ao mesmo tempo, o que sugere um sistema capaz de atingir múltiplas constelações de forma sequencial.
Por trás do sinal
Mauricio Santoro, pesquisador colaborador do Centro de Estudos Político-Estratégicos da Marinha, analisa que a descoberta pode se encaixar em um quadro ainda mais amplo de preparação russa para um eventual conflito direto com países-membros da Otan.
— A Europa está em pré-guerra com a Rússia. Não há soldados atirando uns nos outros, mas um cenário de tensão, de preparação militar, de disputa por novos domínios do campo de batalha — disse Santoro. — Essa interferência, diretamente do espaço, provavelmente é um balão de ensaio, um teste para depois se ampliar em eventual conflito direto.
Santoro lembra que o GPS já foi usado como arma de precisão no Oriente Médio. Em 2024, mísseis iranianos erraram alvos depois que americanos e israelenses interferiram em seus sistemas de navegação. No ano seguinte, a eficácia dos mísseis iranianos melhorou expressivamente, hipótese associada à substituição do GPS pelo BeiDou chinês, em razão da proximidade militar entre Teerã e Pequim.
Representação visual do congestionamento de satélite na órbita da Terra
Reprodução/satellitemap.space
Após quase sete anos de investigações para encontrar a “agulha no palheiro”, a dificuldade de atribuição pode ser vista, segundo os especialistas, como um recurso estratégico em si mesmo. Sem uma prova técnica incontestável, qualquer resposta diplomática ou militar fica fragilizada. Dentro da ONU, a União Internacional de Telecomunicações é o fórum competente para tratar do tema, mas Santoro é cético quanto à velocidade das respostas institucionais.
— A maioria dos sistemas de localização foram afetados. No momento, isso é um incômodo. Mas, se os sinais de interferência fossem sintonizados para coincidir exatamente com os do GPS/Galileo/BDS, teríamos um problema significativo. É necessário confrontar a Rússia sobre essa interferência e preparar sistemas de backup que sejam totalmente independentes [para lidar com o fato] — afirma Humphreys.









