‘Temos o conhecimento necessário’: Ucrânia vai oferecer plano contra drones do Irã às monarquias do Golfo Pérsico
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Zelensky, porém, deixou claro que qualquer ajuda dependerá de duas condições: que a defesa ucraniana não seja enfraquecida e que haja ganhos diplomáticos ou militares para o país. Entre as possibilidades mencionadas está uma troca de recursos militares — drones interceptadores produzidos pela Ucrânia por mais sistemas de defesa aérea Patriot fornecidos pelos Estados Unidos, usados para derrubar mísseis balísticos russos.
A guerra no Oriente Médio aumentou o receio de que a Ucrânia possa acabar prejudicada caso seus aliados desviem atenção ou recursos para outros conflitos. Também há preocupação com a eventual escassez de mísseis interceptadores e com o impacto da alta do preço do petróleo — importante fonte de receita para financiar o esforço de guerra da Russia.
Mesmo reconhecendo esses riscos, Zelensky parece disposto a transformar a crise em oportunidade estratégica para Kiev. Nas últimas semanas, ele manteve conversas com líderes de países do Golfo, como United Arab Emirates, Qatar, Bahrain, Jordan e Kuwait. Segundo o presidente, a Ucrânia pode oferecer “passos concretos” para ajudar na proteção de bases militares e infraestrutura civil contra ataques com drones iranianos.
“Está claro qual é o principal pedido deles à Ucrânia”, escreveu Zelensky nas redes sociais. “Quem já enfrentou ataques iranianos sabe que se trata de um desafio sério — os Shaheds são difíceis de interceptar sem conhecimento técnico e armamentos adequados.”
Os drones Shahed — aeronaves não tripuladas de ataque baseadas em tecnologia iraniana — têm sido amplamente utilizados pela Rússia em ataques contra território ucraniano desde o início da guerra. Por isso, a possibilidade de Washington recorrer à experiência ucraniana chamou atenção em Kiev, sobretudo diante das mudanças na política externa do presidente americano Donald Trump.
Embora o governo Trump tenha suspendido a ajuda militar direta à Ucrânia, os Estados Unidos continuam fornecendo inteligência considerada crucial para detectar drones e mísseis, além de apoiar operações contra alvos russos. Agora, após anos em que Kiev pedia assistência, a situação se inverte parcialmente.
A Ucrânia também vê na iniciativa uma chance de fortalecer relações diplomáticas no Oriente Médio. Países do Golfo mantêm laços históricos com Moscou e, em muitos casos, têm evitado tomar posição clara no conflito europeu. Delegações da região já viajaram a Kiev para negociações, e autoridades britânicas estudam formas de colaborar com o Catar.
Outro objetivo seria evitar que aliados utilizem mísseis Patriot — caros e escassos — para derrubar drones relativamente baratos. Segundo Zelensky, cerca de 800 mísseis Patriot PAC-3 teriam sido utilizados recentemente no Oriente Médio, número superior ao total que a Ucrânia recebeu durante toda a guerra. O presidente sugeriu um arranjo discreto entre parceiros
“Gostaríamos de trabalhar silenciosamente com países — alguns que podemos citar e outros que não — para obter parte dos mísseis que faltam para nossos sistemas Patriot e transferir o número correspondente de interceptadores de drones.”
Ainda assim, qualquer cooperação externa dependerá de aprovação política em Kiev. O chefe do Conselho da Indústria de Defesa da Ucrânia, Ihor Fedirko, afirmou à BBC que o país poderia ampliar a produção de drones interceptadores para até 10 mil unidades por mês. Ele alertou, no entanto, que fornecer equipamentos é apenas parte do desafio.
“As armas são apenas plástico e metal sem ensino e treinamento”, disse. “Podemos enviar o equipamento, mas quem vai ensinar a usá-lo? Nossos centros de treinamento estão totalmente ocupados pelas forças armadas e por civis ucranianos.”









