No segundo discurso ao Congresso dos EUA em seu atual mandato, o presidente dos EUA, Donald Trump, afirmou que “os Estados Unidos estão de volta”, repetindo um jargão de campanha e de governo: “essa é a Era de Ouro”. Ao contrário do ano passado, quando discursou ainda em meio à euforia da vitória nas urnas e a um tratoraço de ordens executivas, Trump voltou ao Capitólio com a popularidade abaixo dos 40%, fissuras na base de apoio e uma derrota do tarifaço na Suprema Corte ainda não digerida. Por isso, a fala era considerada uma tábua de salvação para os governistas, que correm o risco de perderem o controle do Congresso nas eleições de novembro
— Esta noite, após apenas um ano, posso dizer com dignidade e orgulho que alcançamos uma transformação como nunca se viu antes, uma reviravolta histórica. Nunca mais voltaremos ao ponto em que estávamos há pouco tempo — disse o presidente, sob aplausos da metade republicana do plenário e eventuais gritos de “USA”, sigla para Estados Unidos em inglês.
Efeito colateral: Ameaças de Trump travam comércio bilateral dos EUA pelo mundo e abrem espaço à China
Caso Epstein: Departamento de Justiça dos EUA removeu arquivos relacionados a Trump sobre abuso de menor, diz Rádio Pública Nacional
No plenário, chamou a atenção a presença da equipe masculina de hóquei no gelo dos EUA, que conquistou a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Inverno, em Milão-Cortina. A equipe feminina, que também conquistou o ouro, foi convidada, mas alegou “problemas de agenda”. Trump disse que elas “em breve estarão na Casa Branca”.
Em tom de prestação de contas, Trump mirou em aspectos positivos de seu governo. A começar pela economia. Antes do discurso, sua porta-voz, Karoline Leavitt, afirmou que o republicano “tirou nosso país da beira do desastre e, com razão, declarará que o estado da nossa união é forte, próspero e respeitado”. Em entrevistas recentes, Trump diz que as finanças dos EUA “jamais estiveram tão fortes”, e usa o índice Dow Jones da Bolsa de Nova York como troféu: no começo do mês, o patamar de 50 mil pontos foi superado pela primeira vez.
— Quando falei pela última vez nesta Casa, há 12 meses, tinha acabado de herdar uma nação em crise, com uma economia estagnada — afirmou, ignorando que o crescimento do PIB no último de seu antecessor, Joe Biden, em 2024, havia sido de 2,8%.
Outros indicadores ajudam na narrativa. Em 2025, o PIB avançou 2,5%, o ritmo de geração de vagas em janeiro surpreendeu economistas e a inflação está em 2,4% ao ano — mesmo assim, especialistas dizem que o Federal Reserve, o Banco Central americano, não deve atender aos desejos presidenciais de um corte na taxa básica de juros, hoje entre 3,5% e 3,75%, na reunião do mês que vem. No discurso, ele voltou a cobrar o corte para acelerar o crescimento, e disse que os preços estão “despencando”.
O tom oficial positivo contrasta com a percepção dos americanos sobre o estado de seus bolsos. Uma pesquisa realizada pelo jornal Washington Post, pela rede ABC News e pelo instituto Ipsos mostra que 57% desaprovam a maneira como Trump conduz a economia, e 65% não concordam com suas políticas de controle da inflação.
Outra sondagem, das redes públicas NPR e PBS, ao lado da Universidade Marist, aponta que 60% dos entrevistados (incluindo quase 70% dos eleitores independentes) acreditam que o país está pior do que há um ano. No discurso, citou medidas para reduzir os preços, como o corte de preços de medicamentos, o incentivo ao uso de carros movidos a combustíveis fósseis e à exploração de petróleo (para baratear a gasolina), se dirigindo a esse trabalhador insatisfeito com seu governo.
— Juntos, estamos construindo uma nação onde toda criança tenha a chance de almejar mais e ir mais longe, onde o governo responde ao povo, não aos poderosos, e onde os interesses dos cidadãos americanos trabalhadores sejam sempre nossa primeira e principal preocupação — declarou. — Esta é a Era de Ouro da América.
Para o republicano, mais do que prestar contas à nação, o discurso desta terça-feira passou a ser visto como uma tábua de salvação para interromper a sequência negativa antes das eleições de novembro. Na média das pesquisas, a desaprovação do governo está em 56%. Projeções para as eleições de novembro mostram que a oposição democrata é favorita para conquistar a Câmara, e muitos parlamentares do partido boicotaram o discurso.
Aprovação do presidente dos EUA, Donald Trump
Editoria de Arte
O pessimismo é palpável em outra bandeira de campanha: a imigração. A violência das operações da agência anti-imigração de Trump, o ICE, em cidades como Minneapolis acirraram as críticas à Casa Branca e fizeram seus índices despencarem. Uma pesquisa da agência Reuters e do instituto Ipsos, da semana passada, mostrou que 38% dos americanos aprovam a política migratória de Trump — no ano passado, quando o presidente falou ao Congresso, o índice era de 50%. Os números são similares aos do Washington Post e da ABC News, com 57% de desaprovação.
Na fala, Trump tentou mudar o foco da violência dos agentes do ICE, que deixou dois cidadãos americanos mortos e levou milhares de estrangeiros em situação regular à prisão, para a fronteira com o México. Em janeiro, ocorreram 6,1 mil travessias irregulares, o menor número desde julho do ano passado. Em dezembro de 2023, no ápice da crise migratória, foram mais de 243 mil travessias. Números explorados à exaustão diante dos congressistas, convidados e das câmeras, carregando consigo o habitual exagero.
Ao Congresso, Trump declarou que “nos últimos 9 meses, nenhum imigrante ilegal foi admitido nos Estados Unidos.”, algo que os próprios números do Departamento de Segurança Interna desmentem. Ele defendeu a retomada do financiamento ao Departamento de Segurança Interna, em meio a um duelo entre governistas e a oposição no Congresso ligado ao debate eleitoral sobre a imigração.
— Enquanto falamos, os democratas nesta Casa cortaram todo o financiamento do Departamento de Segurança Interna — afirmou. —Eles fecharam a agência responsável por proteger os americanos de terroristas e assassinos. Esta noite, exijo a restauração total e imediata de todo o financiamento para a Segurança de Fronteiras e a Segurança Interna dos Estados Unidos.
Criança foi ‘usada como isca’ por agentes: Menino de cinco anos detido pelo ICE nos EUA ‘tem pesadelos e acorda chorando’, diz pai
Estimativas do Censo: Repressão à imigração derruba ritmo de crescimento populacional dos EUA sob Trump, e avanço é o menor desde a pandemia
Mas o presidente que se apresenta diante do mesmo Congresso invadido por seus apoiadores há cinco anos — mais de 1,5 mil deles foram perdoados pelo republicano mesmo após condenações judiciais — é um líder que comprovou que seus poderes não são infinitos.
Na semana passada, a Suprema Corte, de maioria conservadora, derrubou o principal pilar do tarifaço global, anunciado no ano passado e que causou uma tempestade na economia do planeta. Para os magistrados, o presidente excedeu sua autoridade legal ao anunciar as taxas, sob alegação de que os EUA estavam sendo prejudicados no comércio internacional. Trump disse que a decisão era “errada, mas poupou de ataques os magistrados que votaram contra a tarifa — três deles estavam no plenário.
Durante o primeiro ano de governo, Trump usou as tarifas para obter vantagens estratégicas, como ferramenta diplomática (a pressão por acordos de fato levou governos à mesa de negociações) e como arma de pressão política. Em julho passado, a Casa Branca anunciou tarifas de 50% sobre as exportações brasileiras, citando o processo contra o ex-presidente Jair Bolsonaro. Após longas negociações e dois encontros entre Trump e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, algumas alíquotas foram reduzidas, e os dois líderes devem se reunir novamente em março, em Washington.
Trump criticou os juízes — que lhe garantiram vitórias importantes em seu primeiro ano de mandato — e anunciou uma nova tarifa global, de 15%, embora a alíquota atualmente em vigor seja de 10%. Apesar do presidente defender as tarifas como uma ferramenta para ajudar a economia americana, o déficit comercial dos EUA deu um salto, chegando a US$ 70,3 bilhões em dezembro passado. As importações aumentaram 3,8%, enquanto as exportações caíram 2,9%. Segundo a pesquisa do Washington Post e da ABC News, 64% dos entrevistados desaprovam sua política tarifária.
Impacto aos cofres públicos: Democratas fazem campanha para que famílias americanas sejam reembolsadas por tarifas
Mas um dos principais temas da eleição de novembro será ocultado na fala de Trump. A divulgação de milhões de documentos do processo do financista Jeffrey Epstein, acusado de liderar uma rede de abuso de menores e tráfico humano, mostrou as ligações do milionário com a elite política e econômica dos EUA e Europa, com numerosas menções a Trump.
Por anos, o republicano surfou nas teorias da conspiração envolvendo uma suposta lista de clientes de Epstein, e prometeu divulgá-la caso fosse eleito em 2024. A vitória veio, assim como a pressão para que documentos do caso fossem tornados públicos (o que Trump não queria fazer). No ano passado, o governo esteve perto de perder votações importantes por dissidências na base, e foi obrigado a ceder. As revelações ainda não produziram efeitos palpáveis nos EUA — no Reino Unido, o chefe de Gabinete do premier, Keir Starmer, deixou o cargo, e o ex-príncipe Andrew chegou a ser preso —, mas a oposição democrata promete explorar o tema à exaustão.
Análise: Para o Irã, rejeitar as exigências dos EUA para acordo nuclear é um risco que vale a pena correr
Depois de bombardear sete países em 12 meses, e se autodeclarar o “presidente da paz”, Trump chega ao púlpito pressionado por uma decisão uma guerra contra o Irã, cujos objetivos não são claros nem para o governo.
— Como presidente, buscarei a paz onde quer que eu possa, mas jamais hesitarei em confrontar as ameaças à América onde quer que seja necessário —o presidente planeja dizer.
Segundo a imprensa americana, o comando do Pentágono advertiu para os riscos de uma operação de grande porte. Trump posicionou uma grande força, ou armada, como gosta de dizer, no Oriente Médio, e pode lançar um ataque a qualquer momento caso os iranianos não aceitem um acordo em seus termos. A principal exigência pública do presidente a Teerã é o desmantelamento de seu programa nuclear.
Há 23 anos, outro republicano, George W. Bush, usou o discurso sobre o Estado da União para justificar a guerra que lançaria contra o Iraque, em março de 2003. Na época, mais de 70% dos americanos apoiavam a intervenção. Hoje, de acordo com números do YouGov, 49% são contra o uso de força militar no Irã, e apenas 27% a defendem— entre os republicanos, 58% são a favor.
Segundo os trechos antecipados, ele louvará a guinada estratégica americana para a América Latina, inspirada na Doutrina Monroe e que levou à maior mobilização militar na região em décadas, teoricamente focada no combate ao narcotráfico, e a uma operação que capturou o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, em Caracas. Apesar das caras no regime serem praticamente as mesmas, Trump chamou o governo venezuelano de “nosso novo amigo e parceiro”, afirmando que os EUA receberam “mais de 80 milhões de barris de petróleo” do país, sem explicar quando ou como.
— Também estamos restaurando a segurança e a dominância americanas no hemisfério ocidental, agindo para garantir nossos interesses nacionais e defender nosso país da violência, das drogas, do terrorismo e da interferência estrangeira. Durante anos, vastas áreas de território em nossa região, incluindo grandes partes do México, foram controladas por cartéis de drogas assassinos — dirá Trump.
— Esta noite, após apenas um ano, posso dizer com dignidade e orgulho que alcançamos uma transformação como nunca se viu antes, uma reviravolta histórica. Nunca mais voltaremos ao ponto em que estávamos há pouco tempo — disse o presidente, sob aplausos da metade republicana do plenário e eventuais gritos de “USA”, sigla para Estados Unidos em inglês.
Efeito colateral: Ameaças de Trump travam comércio bilateral dos EUA pelo mundo e abrem espaço à China
Caso Epstein: Departamento de Justiça dos EUA removeu arquivos relacionados a Trump sobre abuso de menor, diz Rádio Pública Nacional
No plenário, chamou a atenção a presença da equipe masculina de hóquei no gelo dos EUA, que conquistou a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Inverno, em Milão-Cortina. A equipe feminina, que também conquistou o ouro, foi convidada, mas alegou “problemas de agenda”. Trump disse que elas “em breve estarão na Casa Branca”.
Em tom de prestação de contas, Trump mirou em aspectos positivos de seu governo. A começar pela economia. Antes do discurso, sua porta-voz, Karoline Leavitt, afirmou que o republicano “tirou nosso país da beira do desastre e, com razão, declarará que o estado da nossa união é forte, próspero e respeitado”. Em entrevistas recentes, Trump diz que as finanças dos EUA “jamais estiveram tão fortes”, e usa o índice Dow Jones da Bolsa de Nova York como troféu: no começo do mês, o patamar de 50 mil pontos foi superado pela primeira vez.
— Quando falei pela última vez nesta Casa, há 12 meses, tinha acabado de herdar uma nação em crise, com uma economia estagnada — afirmou, ignorando que o crescimento do PIB no último de seu antecessor, Joe Biden, em 2024, havia sido de 2,8%.
Outros indicadores ajudam na narrativa. Em 2025, o PIB avançou 2,5%, o ritmo de geração de vagas em janeiro surpreendeu economistas e a inflação está em 2,4% ao ano — mesmo assim, especialistas dizem que o Federal Reserve, o Banco Central americano, não deve atender aos desejos presidenciais de um corte na taxa básica de juros, hoje entre 3,5% e 3,75%, na reunião do mês que vem. No discurso, ele voltou a cobrar o corte para acelerar o crescimento, e disse que os preços estão “despencando”.
O tom oficial positivo contrasta com a percepção dos americanos sobre o estado de seus bolsos. Uma pesquisa realizada pelo jornal Washington Post, pela rede ABC News e pelo instituto Ipsos mostra que 57% desaprovam a maneira como Trump conduz a economia, e 65% não concordam com suas políticas de controle da inflação.
Outra sondagem, das redes públicas NPR e PBS, ao lado da Universidade Marist, aponta que 60% dos entrevistados (incluindo quase 70% dos eleitores independentes) acreditam que o país está pior do que há um ano. No discurso, citou medidas para reduzir os preços, como o corte de preços de medicamentos, o incentivo ao uso de carros movidos a combustíveis fósseis e à exploração de petróleo (para baratear a gasolina), se dirigindo a esse trabalhador insatisfeito com seu governo.
— Juntos, estamos construindo uma nação onde toda criança tenha a chance de almejar mais e ir mais longe, onde o governo responde ao povo, não aos poderosos, e onde os interesses dos cidadãos americanos trabalhadores sejam sempre nossa primeira e principal preocupação — declarou. — Esta é a Era de Ouro da América.
Para o republicano, mais do que prestar contas à nação, o discurso desta terça-feira passou a ser visto como uma tábua de salvação para interromper a sequência negativa antes das eleições de novembro. Na média das pesquisas, a desaprovação do governo está em 56%. Projeções para as eleições de novembro mostram que a oposição democrata é favorita para conquistar a Câmara, e muitos parlamentares do partido boicotaram o discurso.
Aprovação do presidente dos EUA, Donald Trump
Editoria de Arte
O pessimismo é palpável em outra bandeira de campanha: a imigração. A violência das operações da agência anti-imigração de Trump, o ICE, em cidades como Minneapolis acirraram as críticas à Casa Branca e fizeram seus índices despencarem. Uma pesquisa da agência Reuters e do instituto Ipsos, da semana passada, mostrou que 38% dos americanos aprovam a política migratória de Trump — no ano passado, quando o presidente falou ao Congresso, o índice era de 50%. Os números são similares aos do Washington Post e da ABC News, com 57% de desaprovação.
Na fala, Trump tentou mudar o foco da violência dos agentes do ICE, que deixou dois cidadãos americanos mortos e levou milhares de estrangeiros em situação regular à prisão, para a fronteira com o México. Em janeiro, ocorreram 6,1 mil travessias irregulares, o menor número desde julho do ano passado. Em dezembro de 2023, no ápice da crise migratória, foram mais de 243 mil travessias. Números explorados à exaustão diante dos congressistas, convidados e das câmeras, carregando consigo o habitual exagero.
Ao Congresso, Trump declarou que “nos últimos 9 meses, nenhum imigrante ilegal foi admitido nos Estados Unidos.”, algo que os próprios números do Departamento de Segurança Interna desmentem. Ele defendeu a retomada do financiamento ao Departamento de Segurança Interna, em meio a um duelo entre governistas e a oposição no Congresso ligado ao debate eleitoral sobre a imigração.
— Enquanto falamos, os democratas nesta Casa cortaram todo o financiamento do Departamento de Segurança Interna — afirmou. —Eles fecharam a agência responsável por proteger os americanos de terroristas e assassinos. Esta noite, exijo a restauração total e imediata de todo o financiamento para a Segurança de Fronteiras e a Segurança Interna dos Estados Unidos.
Criança foi ‘usada como isca’ por agentes: Menino de cinco anos detido pelo ICE nos EUA ‘tem pesadelos e acorda chorando’, diz pai
Estimativas do Censo: Repressão à imigração derruba ritmo de crescimento populacional dos EUA sob Trump, e avanço é o menor desde a pandemia
Mas o presidente que se apresenta diante do mesmo Congresso invadido por seus apoiadores há cinco anos — mais de 1,5 mil deles foram perdoados pelo republicano mesmo após condenações judiciais — é um líder que comprovou que seus poderes não são infinitos.
Na semana passada, a Suprema Corte, de maioria conservadora, derrubou o principal pilar do tarifaço global, anunciado no ano passado e que causou uma tempestade na economia do planeta. Para os magistrados, o presidente excedeu sua autoridade legal ao anunciar as taxas, sob alegação de que os EUA estavam sendo prejudicados no comércio internacional. Trump disse que a decisão era “errada, mas poupou de ataques os magistrados que votaram contra a tarifa — três deles estavam no plenário.
Durante o primeiro ano de governo, Trump usou as tarifas para obter vantagens estratégicas, como ferramenta diplomática (a pressão por acordos de fato levou governos à mesa de negociações) e como arma de pressão política. Em julho passado, a Casa Branca anunciou tarifas de 50% sobre as exportações brasileiras, citando o processo contra o ex-presidente Jair Bolsonaro. Após longas negociações e dois encontros entre Trump e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, algumas alíquotas foram reduzidas, e os dois líderes devem se reunir novamente em março, em Washington.
Trump criticou os juízes — que lhe garantiram vitórias importantes em seu primeiro ano de mandato — e anunciou uma nova tarifa global, de 15%, embora a alíquota atualmente em vigor seja de 10%. Apesar do presidente defender as tarifas como uma ferramenta para ajudar a economia americana, o déficit comercial dos EUA deu um salto, chegando a US$ 70,3 bilhões em dezembro passado. As importações aumentaram 3,8%, enquanto as exportações caíram 2,9%. Segundo a pesquisa do Washington Post e da ABC News, 64% dos entrevistados desaprovam sua política tarifária.
Impacto aos cofres públicos: Democratas fazem campanha para que famílias americanas sejam reembolsadas por tarifas
Mas um dos principais temas da eleição de novembro será ocultado na fala de Trump. A divulgação de milhões de documentos do processo do financista Jeffrey Epstein, acusado de liderar uma rede de abuso de menores e tráfico humano, mostrou as ligações do milionário com a elite política e econômica dos EUA e Europa, com numerosas menções a Trump.
Por anos, o republicano surfou nas teorias da conspiração envolvendo uma suposta lista de clientes de Epstein, e prometeu divulgá-la caso fosse eleito em 2024. A vitória veio, assim como a pressão para que documentos do caso fossem tornados públicos (o que Trump não queria fazer). No ano passado, o governo esteve perto de perder votações importantes por dissidências na base, e foi obrigado a ceder. As revelações ainda não produziram efeitos palpáveis nos EUA — no Reino Unido, o chefe de Gabinete do premier, Keir Starmer, deixou o cargo, e o ex-príncipe Andrew chegou a ser preso —, mas a oposição democrata promete explorar o tema à exaustão.
Análise: Para o Irã, rejeitar as exigências dos EUA para acordo nuclear é um risco que vale a pena correr
Depois de bombardear sete países em 12 meses, e se autodeclarar o “presidente da paz”, Trump chega ao púlpito pressionado por uma decisão uma guerra contra o Irã, cujos objetivos não são claros nem para o governo.
— Como presidente, buscarei a paz onde quer que eu possa, mas jamais hesitarei em confrontar as ameaças à América onde quer que seja necessário —o presidente planeja dizer.
Segundo a imprensa americana, o comando do Pentágono advertiu para os riscos de uma operação de grande porte. Trump posicionou uma grande força, ou armada, como gosta de dizer, no Oriente Médio, e pode lançar um ataque a qualquer momento caso os iranianos não aceitem um acordo em seus termos. A principal exigência pública do presidente a Teerã é o desmantelamento de seu programa nuclear.
Há 23 anos, outro republicano, George W. Bush, usou o discurso sobre o Estado da União para justificar a guerra que lançaria contra o Iraque, em março de 2003. Na época, mais de 70% dos americanos apoiavam a intervenção. Hoje, de acordo com números do YouGov, 49% são contra o uso de força militar no Irã, e apenas 27% a defendem— entre os republicanos, 58% são a favor.
Segundo os trechos antecipados, ele louvará a guinada estratégica americana para a América Latina, inspirada na Doutrina Monroe e que levou à maior mobilização militar na região em décadas, teoricamente focada no combate ao narcotráfico, e a uma operação que capturou o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, em Caracas. Apesar das caras no regime serem praticamente as mesmas, Trump chamou o governo venezuelano de “nosso novo amigo e parceiro”, afirmando que os EUA receberam “mais de 80 milhões de barris de petróleo” do país, sem explicar quando ou como.
— Também estamos restaurando a segurança e a dominância americanas no hemisfério ocidental, agindo para garantir nossos interesses nacionais e defender nosso país da violência, das drogas, do terrorismo e da interferência estrangeira. Durante anos, vastas áreas de território em nossa região, incluindo grandes partes do México, foram controladas por cartéis de drogas assassinos — dirá Trump.










