Contexto: Em busca de acordos e apoio em tempos difíceis, Putin testará a ‘amizade sem limites’ em visita à China
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Durante o encontro em Pequim, os líderes firmaram um pacto para ampliar a coordenação bilateral e acompanharam a assinatura de cerca de 40 acordos em áreas como comércio, tecnologia e infraestrutura ferroviária. Apesar do avanço, um projeto-chave de gasoduto não foi mencionado.
— Construímos um sistema estável de comércio mútuo que está protegido de influências externas e de tendências negativas dos mercados globais — disse Putin, ao lado de Xi, após as conversas entre as delegações.
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Xi afirmou anteriormente que os dois países trabalham para aprofundar a confiança política e a coordenação estratégica.
As discussões no Grande Salão do Povo incluíram o Oriente Médio, segundo a agência estatal Xinhua. O líder chinês afirmou que a crise no Golfo está em um “momento crítico” e reforçou o apelo por um cessar-fogo no conflito iniciado com o bombardeio do Irã por EUA e Israel e que se espalhou pela região. Horas antes, o presidente americano, Donald Trump — que esteve com Xi em Pequim na semana passada — ameaçou retomar ataques ao Irã nos próximos dias como parte de um esforço para alcançar um acordo que encerre a guerra.
— Um cessar-fogo abrangente é imperativo, retomar a guerra é ainda mais inaceitável, e aderir às negociações é particularmente importante — afirmou Xi.
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A reunião ocorre após Trump dizer que adiou um bombardeio planejado contra o Irã a pedido de aliados do Golfo, elevando as incertezas sobre um possível retorno às hostilidades. Teerã, por sua vez, resiste às pressões para abandonar remanescentes de seu programa nuclear após semanas de ataques.
Xi recebeu Putin na Praça da Paz Celestial com honras de Estado, repetindo o protocolo adotado dias antes com Trump. Houve salva de 21 tiros, execução dos hinos nacionais e recepção por crianças com bandeiras dos dois países.
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Putin afirmou que a relação bilateral atingiu um nível “sem precedentes” e a classificou como modelo de parceria. A visita marca os 25 anos do tratado de amizade e cooperação entre Rússia e China.
— Na atual situação tensa no cenário internacional, nossa estreita cooperação é especialmente necessária — disse o russo, ao chamar Xi de “querido amigo” e destacar o papel da Rússia como fornecedora confiável de energia. Putin também ressaltou a força dos laços econômicos entre os países, citando um volume de comércio bilateral de US$ 240 bilhões (cerca de R$ 1,2 trilhão) no último ano.
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Xi, por sua vez, defendeu que os dois países priorizem estratégias de longo prazo e contribuam para um sistema de governança global “mais justo e razoável”, em crítica velada à hegemonia dos EUA.
— O unilateralismo e o hegemonismo são profundamente prejudiciais, e o mundo corre o risco de voltar à lei da selva — afirmou.
Os líderes, que compartilham a defesa de uma ordem mundial multipolar, ainda participariam de um encontro informal durante um chá, considerado pelo Kremlin um dos momentos centrais da visita. Esta é a 25ª viagem de Putin à China.
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Entre os temas na agenda das conversas estava o gasoduto Power of Siberia 2. Segundo o Kremlin, os parâmetros principais do projeto já foram definidos, embora detalhes ainda estejam em negociação. O projeto, no entanto, não foi mencionado publicamente pelos líderes durante a assinatura dos acordos.
Putin também deve se reunir separadamente com o primeiro-ministro chinês, Li Qiang.
A Rússia aposta que a instabilidade no mercado energético, agravada pelo conflito no Oriente Médio e pelo fechamento do Estreito de Ormuz, aumente a margem de negociação com a China sobre os preços do gás.
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Autoridades e empresas russas dos setores de energia, tecnologia e defesa — como Gazprom, Rosatom e Roscosmos — integram a comitiva, enquanto a mídia estatal chinesa destaca cooperação em áreas que vão de agricultura a inteligência artificial.
Sob pressão econômica, Moscou depende cada vez mais do comércio com Pequim para mitigar os efeitos das sanções ocidentais impostas após a invasão da Ucrânia. Segundo a Bloomberg, mais de 90% da tecnologia sancionada importada pela Rússia passa pela China. Pequim nega fornecer armas para o conflito e afirma manter controle rigoroso sobre exportações de uso dual.
Analistas da Bloomberg Economics avaliam que a parceria é estratégica para ambos os países, sobretudo em comércio e segurança, e sustentada por uma visão comum de ordem mundial multipolar. Ainda assim, para Alex Kokcharov e Adam Farrar, especialistas em geoteainda existem limites na relação e uma crescente assimetria, com a Rússia atuando cada vez mais como parceira subordinada.
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Apesar de considerar Moscou um aliado importante para contrabalançar a influência dos EUA, a China evita se associar diretamente aos riscos da guerra na Ucrânia, em uma tentativa de preservar sua imagem internacional como fator de estabilidade.
Essa estratégia ajuda a explicar as ambiguidades da posição chinesa: o país não condena a invasão russa, mas mantém o discurso em defesa da soberania, da integridade territorial e da ordem internacional baseada na ONU — princípios que entram em tensão com as demandas de Moscou.
— Putin não poderia continuar a travar a guerra na Ucrânia sem o apoio sistemático que a China vem fornecendo à máquina de guerra russa — afirma Henrietta Levin, pesquisadora do Center for Strategic and International Studies. — Em Pequim, a expectativa é que o líder russo busque mais apoio material e financeiro para contornar sanções ocidentais.









