No momento em que Irã e dos EUA trocam propostas para o fim do conflito lançado no final de fevereiro pelo presidente americano, Donald Trump, os iranianos ofereceram concessões em alguns pontos cruciais, como o programa nuclear, deixando claro que não querem assumir sozinhos a conta da guerra. Os 40 dias de confronto aberto, do qual Israel também fez parte, provocaram estragos estimados em US$ 270 bilhões (R$ 1,3 trilhão), soma que não inclui os impactos do bloqueio em vigor desde abril. Mas as cobranças não ficam só em Teerã.
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Um mês depois do cessar-fogo, os iranianos ainda tentam fazer uma estimativa fiel dos danos causados por toneladas de bombas lançadas no país. O desafio é hercúleo.
Americanos e israelenses alegam que portos, bases militares e unidades de produção de armamentos — especialmente de mísseis e drones — foram arrasadas. Teerã garante manter capacidades de renovar seus arsenais, mas reconhece os danos extensos. A Marinha perdeu dezenas de embarcações, algo sempre notado pela Casa Branca e pelo Pentágono, e hoje recorre principalmente a barcos de pequeno porte em ações no Estreito de Ormuz.
Unidades de produção de gás natural no campo de South Pars, o maior do mundo, foram atingidas por ataques israelenses, assim como refinarias e instalações petroquímicas perto de grandes cidades, incluindo Teerã. Estimativas oficiais apontam que os bombardeios reduziram a capacidade de exportação do setor energético em até 85%, com prejuízos de US$ 50 bilhões (R$ 247 bilhões).
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Segundo levantamento do economista Hadi Kahalzadeh, pesquisador na Universidade Brandeis, 20 mil fábricas — 20% do total do país — foram danificadas,. No setor metalúrgico, pilar da economia nacional, as perdas aproximadas são de US$ 10 bilhões (R$ 49,4 bilhões), com corte de 70% na atividade. O governo reconhece que ao menos um milhão de pessoas perderam o emprego, e Kahalzadeh alerta que até 12 milhões têm seus meios de sustento sob ameaça.
Prédios, ruas, ginásios poliesportivos, aeroportos e pontes — como a B1, entre Teerã e Karaj— foram reduzidos a escombros. As ruínas também contam a história do desastre humano da guerra. Estimativas do Crescente Vermelho revelam que 316 unidades de saúde e 763 escolas (em Minab, 156 pessoas, na maioria crianças, morreram) foram danificadas ou destruídas, além de 32 universidades, 120 museus e monumentos e dezenas de delegacias de polícia e centrais de bombeiros. Em uma cifra impossível de traduzir em termos financeiros, quase 3,7 mil pessoas morreram, de acordo com a Agência de Notícias de Ativistas de Direitos Humanos (HRANA).
Mapa de ataques contra instalações civis no Irã
Editoria de Arte
Em meados de abril, uma porta-voz de Teerã deu números preliminares: US$ 270 bilhões em danos, valor que não inclui os impactos econômicos provocados pelo bloqueio naval iniciado no mês passado. Para economistas ouvidos pelo jornal New York Times e pelo portal Iran International, ligado à oposição no exílio, o total real supera os US$ 300 bilhões (R$ 1,48 trilhão).
— Os danos geralmente precisam ser examinados em várias camadas — disse Fatemeh Mohajerani, em entrevista à agência russa RIA, antes de anunciar que seu governo não iria assumir os custos da reconstrução sozinho. — Uma das questões que nossa equipe de negociação está buscando, e que também foi abordada nas negociações de Islamabad, é a questão das reparações de guerra.
Nesta quinta-feira, em meio às negociações e ameaças de Trump sobre a retomada da guerra, um representante da linha dura do regime voltou ao tema.
— Sem dúvida, exigiremos nossos direitos e reparações, mesmo que as forças militares dos EUA retornem para casa e se retirem da região. Suportamos essa opressão por 47 anos e continuaremos trilhando o caminho da resistência — afirmou Mohsen Rezai, ex-chefe da Guarda Revolucionária, em entrevista à TV libanesa al-Mayadeen.acrescentando ser imperativo concluir as negociações com os EUA com “resultados tangíveis”.
Além de EUA e Israel, Teerã quer que seis países árabes — Catar, Bahrein, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Kuwait e Jordânia — ajudem na reconstrução, alegando que apoiaram a “Operação Fúria Épica”. As seis nações, por sua vez, exigem que o Irã pague pelos estragos causados por seus mísseis e drones e acionaram as Nações Unidas. Um levantamento da consultoria Rysten Energy aponta para US$ 58 bilhões (R$ 286 bilhões) em prejuízos apenas ao setor energético da região.
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O pagamento de reparações é um dos mais antigos elementos dos conflitos armados. Nas duas Guerras Mundiais, os derrotados foram obrigados a ressarcir as nações atacadas (e os vencedores) em centenas de milhões de dólares. Em 1991, uma resolução do Conselho de Segurança da ONU ordenou o Iraque a pagar US$ 52,4 bilhões (R$ 259 bilhões) em danos a pessoas, entidades e ao Estado do Kuwait, relativos à invasão no ano anterior. A dívida terminou de ser quitada em 2022.
Nem sempre há acordo. Em 2025, a Corte Europeia de Direitos Humanos condenou a Rússia a pagar € 253 milhões (R$ 1,46 bilhão) à Geórgia, relativos à invasão de 2008, decisão ignorada por Moscou. Em dezembro, governos europeus estabeleceram uma comissão para coordenar a compensação à Ucrânia pela guerra lançada em 2022. Eles querem usar os cerca de US$ 300 bilhões em ativos russos congelados no continente, uma manobra que esbarra em questões legais e políticas.
Manifestantes com imagem do Aiatolá Khomeini em 1979
Arquivo/AFP
Quatro décadas antes, em 1982, durante a Guerra Irã-Iraque, o líder supremo iraniano, o aiatolá Ruhollah Khomeini, condicionou a paz à queda de Saddam Hussein e ao pagamento de US$ 150 bilhões (US$ 513 bilhões em valores atuais, ou R$ 2,53 trilhões), mas a guerra se estendeu até 1988. Quando os dois lados chegaram a uma trégua, comparada a “um cálice de veneno” por Khomeini, ambos buscaram reparações, sem sucesso.
Nas negociações para encerrar a atual guerra, o Irã quer manter algum tipo de controle do Estreito de Ormuz, com a cobrança de pedágio, para financiar a reconstrução, assim como o descongelamento de fundos retidos no exterior, cerca de US$ 100 bilhões (R$ 494 bilhões). O americanos exigem a reabertura total da passagem: antes da guerra, transitavam por ali 20% das exportações globais de petróleo e gás, e seu fechamento causou um choque histórico nos mercados de energia. No começo da semana, Washington pausou uma operação chamada “Projeto Liberdade”, para reabrir o estreito, devido à recusa dos sauditas em permitirem o uso de seu espaço aéreo, segundo a rede NBC News.
Na quinta-feira, os dois países se acusaram mutuamente por ataques na região do Estreito de Ormuz. Os americanos dizem ter evitado ações “não provocadas” contra três embarcações da Marinha, enquanto os iranianos relataram explosões em cidades costeiras no sul do país e sobre Teerã, afirmando que os EUA violaram os termos do cessar-fogo — em comunicado, um porta-voz militar prometeu responder “de forma esmagadora a qualquer agressão, sem a menor hesitação”.