Nos bastidores, integrantes do governo brasileiro afirmam que o fato de o presidente dos EUA, Donald Trump, ter mencionado que outros países da região poderão ser alvo de novas ações, após a operação na Venezuela, motivou a preocupação. Segundo avaliações internas, Cuba é vista como um país que corre risco de pressão adicional, enquanto eventuais ameaças à Colômbia tendem a ser interpretadas como bravata. Interlocutores destacam que atacar um país com presidente democraticamente eleito, histórico militarista e presença de guerrilhas e contraguerrilhas em áreas montanhosas e amazônicas representaria um custo político e militar muito mais elevado.
A avaliação de diplomatas brasileiros é que as referências a Cuba e à Colômbia funcionam sobretudo como jogo de cena, destinado a distrair a opinião pública e a classe política dos Estados Unidos, onde a ação militar na Venezuela não teria obtido apoio majoritário. Em outras palavras, Washington ainda precisará lidar com as consequências políticas e operacionais da intervenção antes de qualquer novo movimento na região.
Para o governo brasileiro, a prioridade segue sendo evitar qualquer tipo de instabilidade prolongada no país vizinho. O Brasil abriga cerca de 3.500 brasileiros na Venezuela e compartilha com o país a maior fronteira terrestre do território nacional. Um auxiliar presidencial afirma que não interessa ao Brasil “nenhuma convulsão social” na Venezuela.
A Constituição venezuelana prevê que, em caso de vacância presidencial reconhecida pela Assembleia Nacional, a vice-presidência assuma e convoque eleições em até 30 dias. A primeira etapa foi cumprida, mas há dúvidas sobre a viabilidade do calendário eleitoral em um contexto de instabilidade política e tensão internacional.
A avaliação de integrantes do governo brasileiro é que a manutenção de uma relação funcional entre Caracas e Washington pode postergar decisões sobre eleições. Segundo um interlocutor com conhecimento do assunto, caso o novo governo venezuelano adote uma postura considerada “transacional”, especialmente no setor de petróleo, os EUA podem optar por preservar o status quo por mais tempo.
Nesse contexto, o Brasil reafirma sua doutrina de reconhecer Estados, e não governos, e mantém diálogo com as autoridades constituídas, com foco em interesses concretos: estabilidade regional, controle migratório, retomada da cooperação e reconstrução do comércio bilateral. Esse intercâmbio, que já alcançou cerca de US$ 6 bilhões anuais, hoje mal supera US$ 1,5 bilhão.
Para o governo brasileiro, uma Venezuela estável, com economia em recuperação e retorno gradual à normalidade democrática, é condição essencial para reduzir o impacto regional da crise migratória e reabrir oportunidades de negócios.
Paradoxalmente, apesar da gravidade do ato, o cenário interno venezuelano tem sido descrito como relativamente estável. Relatos vindos da embaixada brasileira em Caracas indicam uma “calma tensa”, sem distúrbios de grande escala, ameaças a missões diplomáticas ou necessidade de repatriação de brasileiros. Houve protestos pontuais, mas nenhum quadro de convulsão social ou colapso institucional imediato.
A posse da vice-presidente Delcy Rodríguez como presidente interina ocorreu sem incidentes relevantes e contou com a presença da embaixadora do Brasil, Glivânia de Oliveira, que também havia participado da posse anterior de Nicolás Maduro. Esse grau de normalidade institucional chama a atenção de interlocutores do governo brasileiro, mesmo após um evento classificado como “gravíssimo” no plano internacional. As Forças Armadas venezuelanas reafirmaram apoio à nova presidente, e declarações públicas indicaram disposição para manter canais de diálogo com Washington.









