Em discurso no Congresso dos EUA: Charles III diz que aliança entre Washington e Londres é ‘insubstituível e inquebrável’
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No discurso de Charles III, houve o tradicional humor britânico seco. Piadas adaptadas às preferências de Trump, incluindo um brinde com Coca-Cola. Um pouco de deferência equilibrada com leves provocações sobre a Otan — além de um presente reluzente. Entre os temas que arrancaram risadas de uma lista de convidados que mesclou a cúpula do governo americano, empresários simpáticos ao presidente e juízes conservadores da Suprema Corte, referências culturais e históricas foram preferência.
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Charles III citou Oscar Wilde, brincando que os britânicos têm tudo em comum com os americanos “exceto, é claro, a língua”. O humor foi usado para enfrentar temas sensíveis. Durante o brinde, o rei aludiu a comentários de Trump contra seus aliados europeus, a quem acusou de se aproveitarem do sistema de defesa dos EUA desde a Segunda Guerra Mundial. Durante a cúpula de Davos, em janeiro, Trump disse que, sem apoio americano, as pessoas na Europa “falariam alemão e um pouco de japonês”.
— O senhor comentou recentemente, senhor presidente, que se não fossem os Estados Unidos, os países europeus falariam alemão. Ouso dizer que, se não fosse por nós, vocês falariam francês — ironizou, referindo-se aos conflitos entre as então potências coloniais, França e Grã-Bretanha, pelo controle da América do Norte antes da independência dos Estados Unidos.
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Brendan Smialowski / AFP
A história compartilhada entre os dois países também foi exaltada, e mesmo episódios violentos viraram motivo de comentários bem humorados. Charles III disse que o jantar foi “uma melhora considerável em relação à Festa do Chá de Boston”, quando colonos jogaram no mar carregamentos de chá britânico tributados em 1773. Também caçoou ligeiramente de Trump, ao dizer que não podia deixar de notar as “reformas” na Ala Leste da Casa Branca — que o ex-magnata do ramo imobiliário ordenou a demolição para construir um gigantesco salão de baile que custará US$ 400 milhões.
— Lamento dizer que nós, britânicos, é claro, fizemos nossa própria tentativa de remodelação imobiliária da Casa Branca em 1814 — disse o rei, referindo-se à época em que soldados britânicos incendiaram o prédio.
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Presente e saia-justa
Apesar das piadas às custas de Trump, que outros líderes não ousaram fazer, Charles III reservou um gesto ao gosto do presidente americano. Em determinado momento da noite, o rei se dirigiu a Trump diretamente, oferecendo como “presente pessoal” o sino da torre de comando do submarino britânico HMS Trump, que combateu na Segunda Guerra Mundial — que Charles propositalmente disse ser “seu valente homônimo”.
Gravadas com clareza na superfície do sino estavam as palavras TRUMP 1944. O presidente levantou-se de sua cadeira e olhou com admiração para o sino, lançando um olhar para a esposa Melania.
— Caso algum dia precise falar conosco… bem, é só nos dar um toque! — disse Charles, para ouvir a sala irromper em aplausos, enquanto Trump visivelmente radiante, fez um sinal de positivo para o rei.
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O monarca britânico, porém, não escapou de uma breve saia-justa durante o discurso de Trump. O presidente se referia aos lugares ao redor do mundo onde americanos e britânicos lutaram juntos — das praias da Normandia às colinas congeladas da Coreia, até as areias escaldantes do Norte da África e do Oriente Médio. Erguendo os olhos do roteiro, afirmou:
— E estamos fazendo um pouco de trabalho no Oriente Médio agora também, como vocês devem saber, e estamos indo muito bem — disse Trump. — Nós derrotamos militarmente esse adversário específico e nunca vamos permitir que esse adversário jamais… Charles concorda comigo… Nunca vamos deixar esse adversário ter uma arma nuclear.
A guerra no Irã é o ponto mais delicado na atual relação entre EUA e Reino Unido, com a discordância entre Trump e o premier britânico, Keir Starmer, sobre a falta de apoio de Londres à ofensiva se tornando pública. A Coroa britânica evita entrar publicamente em disputas políticas e temas de governo, mas mesmo de forma lateral, Charles III tocou no tema do Oriente Médio.
O rei lembrou que sua mãe visitou os EUA em 1957 para ajudar a recolocar o “especial” na “relação especial” após a crise envolvendo o Canal de Suéz. E então veio a ironia:
— Quase setenta anos depois, é difícil imaginar algo assim acontecendo hoje — disse Charles, enquanto alguns convidados riam, fazendo Trump virar-se e sorrir. — Mas não é difícil perceber o quão importante a relação continua sendo, tanto em aspectos visíveis quanto invisíveis.
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Ainda durante o jantar, Charles III contou que tinha 10 anos quando conheceu pela primeira vez um presidente americano: Dwight D. Eisenhower, durante uma visita ao Palácio de Balmoral, na Escócia. Recordou também do “primeiro primeiro-ministro” de sua mãe, Winston Churchill — um dos ídolos de Trump — e a ocasião em que Churchill, hospedado na Casa Branca e se envolveu em um incidente vergonhoso com o presidente Franklin Delano Roosevelt.
— [Churchill] saiu nu da banheira e descobriu a porta se abrindo quando o presidente Roosevelt entrou para conversar — disse o monarca. — Com um humor afiado, o presidente afastou qualquer constrangimento ao declarar: “O primeiro-ministro não tem nada a esconder do presidente dos Estados Unidos!”.
Quando o monarca britânico concluiu o discurso, Trump deu-lhe um tapinha nas costas e disse: “bom trabalho”. (Com AFP e NYT)






