Menos de dois anos após assumir a Presidência no México, marcada por movimentos imprevisíveis de Donald Trump, Claudia Sheinbaum enfrenta sua decisão mais difícil até agora na relação com os Estados Unidos, avaliam analistas, ressaltando que as acusações formais apresentadas nesta semana em Nova York contra atuais e ex-autoridades mexicanas por supostos crimes relacionados ao narcotráfico colocam a presidente sob pressão sem precedentes. Ao solicitar extradições no caso, Washington desafia Sheinbaum a escolher: por um lado, defender um aliado e confrontar os EUA ou, de outro, aceitar a remoção de um governador em exercício, ameaçando seu apoio político interno em meio à violência dos cartéis no país.
Contexto: Justiça dos EUA acusa governador do estado mexicano de Sinaloa de narcotráfico
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Dentre os acusados pela Promotoria federal de Nova York estava o governador do estado mexicano de Sinaloa, Rubén Rocha Moya. Segundo a acusação, a facção conhecida como Los Chapitos, liderada pelos filhos de Joaquín “El Chapo” Guzmán, teria atuado para favorecer a eleição de Rocha em 2021. O documento diz que a campanha do Morena recorreu a práticas como roubo de urnas e intimidação de candidatos da oposição em troca de facilidades para atividades criminosas após a vitória.
O governo mexicano, por sua vez, afirmou apenas que o documento não apresenta provas anexas e que irá analisá-lo, enquanto o governador nega as acusações e partidos da oposição defendem a dissolução dos poderes no estado. Ao pedir a prisão e extradição do governador, no entanto, Washington dá um salto na escalada de medidas adotadas pelo governo Trump. Até então, os EUA vinham adotando ações mais brandas, como o cancelamento de vistos de autoridades e pressão para ampliar a cooperação militar no combate ao narcotráfico.
Na manhã desta quinta-feira, Sheinbaum pediu que os EUA apresentem provas “irrefutáveis” no caso, indicando que, se recebê-las — ou se encontrá-las durante investigações internas —, o México responderá favoravelmente ao pedido de extradição. No entanto, ressaltou, caso não sejam apresentadas evidências, ficará evidente que “o objetivo dessas imputações por parte do Departamento de Justiça é político”.
Divisões internas
Analistas apontam que qualquer decisão de Sheinbaum trará consequências significativas porque, se aceitar a extradição, estará entregando alguém respaldado por seu próprio partido. Mas, se recusar, aumentará a tensão com o governo americano, que pode seguir atuando de forma independente no México, avaliou Ernesto López Portillo, da Universidade Ibero-Americana, ao El País.
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Uma resposta negativa ao pedido de extradição pode provocar a ira de Trump, que já demonstrou disposição para usar forças econômicas ou militares para avançar sua agenda externa. Por outro lado, cooperar com os EUA nesse caso seria visto como uma traição pela ala mais ideológica do Morena, ao mesmo tempo em que partidos de oposição no México já começaram a usar as acusações para ressuscitar alegações antigas — e não comprovadas — de que a sigla teria sido infiltrada pelo crime organizado, com eleições legislativas a apenas um ano de distância.
— Este é o grande desafio — afirmou Shannon O’Neil, vice-presidente do Council on Foreign Relations. — Há riscos se ela decidir investigar e processar, para o futuro do partido e seu controle político, e também há riscos se não fizer isso, perante o povo mexicano e os eleitores.
O Morena é um partido amplo, que reúne interesses diversos, fundado pelo mentor e antecessor de Sheinbaum, Andrés Manuel López Obrador. Algumas das pessoas que aderiram ao movimento ao longo dos anos enfrentam acusações graves, e as denúncias podem acabar favorecendo Sheinbaum ao lhe dar a oportunidade de “arrumar a casa”, disse O’Neil, diante de eleitores mexicanos que estão “frustrados com a corrupção”. Para ele, o caso pode ser uma oportunidade positiva para a presidente.
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No entanto, decidir agir contra Rocha e os demais acusados pode fragmentar o partido e criar divisões internas que não apoiem os candidatos da presidente nas eleições do próximo ano, segundo parlamentares que falaram sob anonimato. Integrantes do Morena já teriam instado Sheinbaum a se manter firme e rejeitar qualquer exigência de Washington. Pouco depois da divulgação das acusações, alguns dos principais aliados da líder mexicana, incluindo o ministro do Interior, foram ao seu gabinete no Palácio Nacional.
— O que é apropriado em um Estado de Direito não é alimentar caças às bruxas midiáticas nem usar acusações infundadas com fins políticos, mas exigir que qualquer autoridade que acuse apresente provas claras e verificáveis pelos canais legais — disse Jessica Saiden, deputada do Morena e presidente da Comissão de Segurança Pública da Câmara.
Histórico de acusações
Não é a primeira vez que autoridades mexicanas são acusadas de envolvimento com o narcotráfico pelos EUA. Em 2020, durante o primeiro mandato de Trump, o ex-secretário de Defesa Salvador Cienfuegos, um militar respeitado, foi detido em Los Angeles a pedido da agência antidrogas americana (DEA). O caso foi resolvido com sua repatriação após uma intensa disputa diplomática liderada pelo governo de López Obrador, e o general foi absolvido dois meses depois.
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O pedido de extradição ocorre enquanto México, EUA e Canadá negociam o TMEC, tratado comercial vital para o México, no qual Washington exerce forte pressão por meio de sua política tarifária. Também acontece após meses de retórica intervencionista de Trump, que insiste que o México “está controlado pelos cartéis”, enquanto o governo mexicano tenta demonstrar, com operações contundentes, que é capaz de controlar a situação em seu território.
— A acusação obriga Sheinbaum a se definir — afirmou o analista Carlos Bravo Regidor. — Se entrar em confronto com sua base política, isso terá impacto na governabilidade. Se confrontar Trump, pode comprometer negociações comerciais e a cooperação em segurança.
Há ainda o temor de que uma eventual recusa mexicana leve os EUA a adotar medidas mais diretas, algo que Sheinbaum tenta conter há meses. A própria presidente contou, há uma semana, que em suas conversas com Trump surgem propostas para atuação em território mexicano contra os cartéis. Em entrevista coletiva matinal, ela disse que o republicano sugeriu a ela “dar mais apoio, inclusive com a presença de membros do Exército dos EUA”, ao que ela disse não ser necessário.
— Somos muito rigorosos com nossa soberania nacional — afirmou.
O tema ganhou novos contornos após a revelação de que agentes da CIA participaram de uma operação antidrogas no Estado de Chihuahua sem autorização do governo federal. O caso está sob investigação da Procuradoria-Geral mexicana. Sheinbaum enviou uma nota diplomática à embaixada americana exigindo explicações sobre o caso. Na terça-feira, ela revelou que os Estados Unidos, em resposta, se comprometeram “a respeitar as leis do México”.
Nos últimos meses, porém, a política externa americana para a América Latina tem reforçado uma postura intervencionista, baseada no combate ao narcotráfico, no controle da migração e na contenção da influência chinesa — indo na contramão da postura mexicana, que insiste na defesa da soberania. Diferentemente de crises bilaterais anteriores, a presidente mexicana já não pode alegar simplesmente que está defendendo a soberania do país diante da pressão americana sem que isso soe, para Washington, como proteção a políticos ligados a cartéis, afirmou o analista político Carlos Bravo Regidor.
— Os Estados Unidos se cansaram de enviar sinais indiretos — disse. — Extraditar membros de cartéis já não era suficiente. Eles passaram a buscar “narco-políticos”. (Com Bloomberg)