A leitora Maria Inês Escosteguy relembra a infância repleta do barulho dos insetos, com a avó dizendo que o canto das cigarras anunciava o calor, naquela época bem mais ameno que hoje. E aventa a possibilidade de elas terem sido expulsas das cidades por conta do atual clima “tórrido, um purgatório”.
A jornalista do GLOBO Ana Lucia Azevedo, especializada em Ciência e Meio Ambiente, correu atrás de possíveis respostas para a leitora conversando com o professor de entomologia José Antônio Marin Fernandes, da Universidade Federal do Pará. Confira no vídeo abaixo.
Carta dos leitores: Para onde foram as cigarras?
Leia a carta completa:
“Que coisa tão linda a crônica de Joaquim Ferreira dos Santos! Suas palavras gentis, falando das suas lembranças também gentis sobre o canto das cigarras, são tocantes pela singeleza. E me ensinaram que as cigarras zinem, verbo desconhecido até então. Mas bem me lembro ainda delas por aqui no bairro, zinindo e dizendo como minha avó ao ouvi-las: vai fazer calor. O que fazia na época de Machado de Assis para nós seria quase inverno. Hoje o mundo é tórrido, o calor, um purgatório. As cigarras perderam parte de seu habitat nas cidades e provavelmente cantam pelas matas, cumprindo seu destino. As bundinhas de fora ainda estão por aí. As cigarras se foram porque a cidade as expulsou. As formigas também… me dei conta de que também não vejo mais formigas carregando folhas, o que encantava meus filhos há alguns anos… Felizmente as maritacas ainda não se foram. Outro dia três matraqueavam em cima do ar-condicionado. Talvez porque gritem alto. Quem sabe um grito de alerta pelas cigarras? E por nós também? Estamos precisando estar atentos e fortes…” Por Maria Inês Escosteguy Carneiro (Rio)
Entenda o contexto:
Embora muitos lamentem ouvir menos, ou até mesmo não ouvir cigarras na cidade, isso não significa que elas foram extintas. Na verdade, não existem estudos populacionais sobre elas no Brasil. A maioria das pesquisas sobre cigarras diz respeito ao registro de espécies. Já foram descritas mais de 150 no país, e a mais comum é a Carineta fasciculata.
Ela se adaptou a áreas rurais e urbanas. Seu canto pode chegar a centenas de metros de distância, mas ela mede apenas 3,5 cm de comprimento, aproximadamente. Tem corpo amarelado marcado por linhas ou manchas pretas irregulares, olhos bem grandes e as características asas transparentes das cigarras.
Ainda não existem dados amplos e consistentes sobre as espécies, até mesmo na cidade do Rio. Muitas cigarras são menores e nem todas têm tanta potência sonora. Assim, como não se conhece exatamente a quantidade de espécies e, menos ainda, o tamanho da população anterior, não é possível afirmar que o número de insetos caiu.
Mas podemos levantar hipóteses, destaca o especialista José Antônio Marin Fernandes, professor de entomologia da Universidade Federal do Pará, ouvido pela jornalista Ana Lucia Azevedo.
A primeira hipótese é que seja apenas uma sensação e as cigarras ainda estejam por aí. A segunda é que seja um fenômeno restrito a algumas partes da cidade. Na Zona Oeste e na Floresta da Tijuca, por exemplo, elas seguem a cantar. A terceira é que a população de cigarras tenha de fato sido reduzida.
As possíveis causas para essa redução são todas hipotéticas. A primeira é ambiental e complexa. Os insetos estão mundialmente em declínio (pragas, como mosquitos, são exceções). As causas incluem perda de habitat, poluição e mudança climática.
É fato que as mudanças no clima reduziram drasticamente a população de insetos em geral em todo o mundo, frisa o professor José Antônio. O calor afeta todos os animais. E os invertebrados, como os insetos, são altamente vulneráveis a mudanças sutis de temperatura, que podem ser letais para criaturas tão pequenas. Os insetos tropicais, ao contrário do que se poderia imaginar, não são resilientes ao calor extremo. Há limites de calor até para eles.
As cigarras podem passar anos se desenvolvendo sob o solo. Algumas das espécies que ocorrem no Brasil chegam a passar 15 anos nessa vida subterrânea. Até que, por mecanismos ainda pouco conhecidos, emergem aladas e alçam voo para sua breve vida adulta, que dura de uma semana a dois meses.
Em boa parte do Brasil, o auge da emergência dos adultos coincide com o período quente e chuvoso (primavera/verão). A umidade e a temperatura favorecem a metamorfose. É por isso que associamos o canto ao verão e às chuvas da estação.
A fase adulta é o período reprodutivo. Elas se reproduzem e morrem. O canto é o chamado sexual das cigarras, sobretudo dos machos. Se estiver muito quente ou houver alterações no regime de chuvas, para mais ou para menos, isso pode afetar as cigarras.
Embora chova neste fevereiro de 2026, a estação chuvosa segue no déficit. E o déficit de chuva tem sido progressivo em todo o Centro-Sul do Brasil nas últimas quatro décadas, mostrou estudo do Cemaden. Quase um mês a menos de chuva por ano.
Outro fator extremamente importante é a impermeabilização do solo. Mesmo que as árvores urbanas persistam em alguns bairros, canteiros minúsculos, calçadas sepultando o entorno das árvores podem impedir que as fêmeas cavem o solo para enterrar seus ovos. Resultado: o desaparecimento das cigarras.
Mais um inimigo é a poluição luminosa. O professor José Antônio diz que estudos mostraram que o excesso de luz urbana interfere no ciclo de vidas das mariposas e o mesmo, em tese, poderia acontecer com as cigarras.
A poluição sonora também atrapalha. O barulho das cidades pode se contrapor à cantoria das cigarras. Elas até cantam, mas são abafadas. As cigarras produzem som em estruturas no abdome chamadas timbais, que vibram e amplificam.
E ainda há os predadores naturais, como as formigas, que têm proliferado nas cidades e comem as larvas de cigarra. Quem também faz a cigarra de alimento são os muitos morcegos urbanos, que existem em grande quantidade. Eles comem os insetos adultos.
Densidade populacional é outro fator hipotético para a redução das cigarras: há limites para os animais se adaptarem à agitação das cidades.









