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Os primeiros indícios do plano surgiram na semana passada, através de duas agências de notícias ligadas à Guarda Revolucionária, a Tasnim e a Fars. Dentre os cabos que cruzam o Golfo, dois passam pelao Irã: Falcon e Gulf Bridge International (GBI). Usando mesma lógica que norteia o “pedágio” naval, o da soberania territorial, Teerã considera ter direito a compensações. Anteriormente, as duas agências publicaram textos sobre a “vulnerabilidade” dos cabos na região.
“Mudanças fundamentais no ambiente de segurança, na economia política internacional e a evolução do conceito de poder na era da informação tornaram inevitável repensar os componentes da governança territorial e o exercício da soberania da República Islâmica do Irã sobre passagens estratégicas, especialmente o Estreito de Ormuz”, diz o artigo publicado pela Tasnim e pela Fars.
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Uma base da argumentação é a Convenção da ONU sobre a Lei do Mar, de 1982, que estabelece que os países com acesso ao mar têm o direito de decidir sobre a passagem de cabos de comunicações por seus leitos marinhos. Contudo, um outro trecho da legislação, da qual o Irã é signatário, mas que jamais ratificou, prevê o livre trânsito de navios e meios de comunicação já existentes.
— É claro que, no caso de cabos já existentes, o Irã precisa cumprir o contrato firmado quando o cabo foi instalado — disse Irini Papanicolopulu, professora de direito internacional da Universidade de Londres, à CNN. — Mas, para novos cabos, qualquer Estado, incluindo o Irã, pode decidir se e sob quais condições os cabos podem ser instalados em seu mar territorial.
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A proposta tem três etapas. A primeira é a cobrança pelo uso do leito marinho iraniano, feita com base na extensão dos cabos e acrescida de uma taxa de licenciamento adicional. Na segunda, gigantes da tecnologia que operam na região — como Google, Amazon e Microsoft — seriam obrigadas a se sujeitar à legislação iraniana, o que seria uma forma de pressão para que estabeleçam parcerias com o governo local. Por fim, Teerã quer que as atividades de manutenção sejam realizadas por empresas iranianas, efetivamente garantindo seu monopólio.
“A interpretação mais plausível é que o objetivo não é cortar os cabos, mas sim manter a infraestrutura de reparos como refém”, aponta uma análise da companhia Windward, especializada no setor marítimo. “As operadoras enfrentam uma escolha: pagar taxas de proteção e aceitar o licenciamento iraniano para atividades no leito marinho do Golfo Pérsico, ou aceitar que futuras falhas possam permanecer sem reparo indefinidamente.”
A Windward cita que “um único sistema de cabos transoceânicos custa entre US$ 300 milhões e US$ 1 bilhão para ser implantado”, e que “o valor esperado de uma taxa de proteção iraniana, da perspectiva de Teerã, está estruturado para ficar bem abaixo desse valor”.
Mapa da passagem de cabos submarinos, que transmitem informações comerciais e alimentam internet do Ocidente.
Submarine Cable Map/Reprodução
Os cabos submarinos são um dos elementos mais estratégicos de nossa sociedade, conduzindo 95% do tráfego de internet, garantindo transações financeiras e o acesso a sistemas de armazenamento em nuvem. De acordo com a Telegeography, centro de pesquisa da indústria de telecomunicações, até o fim de 2025 havia 570 cabos operacionais, além de projetos para outras 81 estruturas.
Mas importância caminha lado a lado com a vulnerabilidade. Interrupções, mesmo que de curto prazo, impactam empresas, governos e cidadãos, com prejuízos de bilhões de dólares. Em 2024 e 2025, danos a cabos no Mar Vermelho causaram problemas a usuários no Oriente Médio e Sul da Ásia. As suspeitas recaíram sobre a milícia houthi, aliada do Irã no Iêmen e que havia ameaçado cortar cabos anteriormente, mas especialistas dizem que os danos parecem ter sido acidentais. No Mar Báltico, embarcações russas foram acusadas de danificar cabos em 11 incidentes desde 2022, quando começou a guerra na Ucrânia. Moscou nega qualquer envolvimento, e atribuir responsabilidades nem sempre é um processo simples.
— O desafio é que muito disso pode ser envolto no que poderíamos descrever como negação plausível — disse Nick Childs, pesquisador sênior de forças navais e segurança marítima do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos, à CNN em 2025, mencionando que o Mar Báltico é uma via congestionada e sujeita a acidentes.
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O Irã não ameaçou explicitamente cortar os cabos no Golfo, mas a proposta de cobrança, aliada à estratégia de compartilhamento dos impactos da guerra com seus vizinhos, acendeu um alerta. Uma ação em massa contra os cabos impactaria a indústria de petróleo, o sistema bancário e o acesso à internet em partes da Ásia, Europa e África. A Índia, por exemplo, perderia bilhões com a restrição de acesso à internet em sua indústria de serviços terceirizados.
Barcos iranianos carregados cruzam o Estreito de Ormuz, próximo ao porto de Khasab, em Omã
Karim Sahib/AFP
Dentro do complexo e longo (6,4 mil palavras) artigo publicado pela Tasnim e pela Fars, os iranianos citam países que cobram pela passagem de cabos submarinos. O principal caso é o do Egito, que recebe algumas centenas de milhões de dólares por ano para permitir que cabos importantes, que ligam Europa e Ásia, transitem por ali. Mas especialistas destacam uma diferença crucial: o Canal de Suez, principal via dos cabos, é uma passagem artificial, construída em território egípcio. O Estreito de Ormuz, apontam, é uma passagem natural regida por regras internacionais distintas.
As chances de que empresas e governos se submetam às exigências do Irã são consideradas praticamente nulas, e qualquer ação de restrição de tráfego — incluindo sabotagem — seria respondida com processos judiciais e até ações armadas dos EUA e aliados na região do Golfo. Mas a simples intenção de criar um novo pedágio já é uma mudança de paradigma.
— A única maneira de conseguirem cobrar pedágio de navios ou cabos submarinos é por meio de ameaças — afirmou ao jornal britânico Guardian Doug Madory, especialista em estrutura de internet na empresa Kentik, especializada em inteligência no setor de comunicações. — Isso é algo que nunca vimos antes.








