Desde o ataque americano à Venezuela e a captura de Nicolás Maduro, as autoridades venezuelanas prenderam pelo menos 31 pessoas e as acusaram de apoiar o ataque dos Estados Unidos, de acordo com uma análise de notícias locais. Várias delas foram detidas por vídeos que postaram nas redes sociais, mas o caso mais marcante foi a prisão de 25 meninos e jovens em Barcelona, uma cidade de porte médio a cerca de cinco horas a leste de Caracas.
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Em 5 de janeiro, dois dias após a prisão de Maduro, os garotos estavam na cidade para uma guerra de balões de água. A atividade é uma tradição anual que dá início às comemorações do Carnaval em Barcelona. Mas diante dos acontecimentos daquele final de semana, toda aquela gritaria e risadas não agradaram às autoridades.
Policiais locais e soldados da Guarda Nacional chegaram em peso e, segundo dois dos garotos e familiares de outros quatro, dispararam tiros. Os jovens, com idades entre 13 e 25 anos, se dispersaram, mas a polícia prendeu 25 deles. Dois dias depois, promotores estaduais apresentaram acusações pelo crime de traição.
“Vou ferrar com vocês todos”, lembrou um dos garotos, de 17 anos, de um policial lhe dizendo após a prisão, usando um palavrão. “Vocês todos apoiam Donald Trump”.
Um repórter e um fotógrafo do New York Times visitaram, na semana passada, o bairro onde a maioria dos detidos mora e entrevistaram dois dos garotos e sete familiares. Muitos deles, assim como outros venezuelanos em todo o país, falaram sob condição de anonimato por medo de represálias do governo. Os relatos revelaram que, sob o governo interino venezuelano — comandado pela ex-vice-presidente Delcy Rodríguez e apoiado por Washington — a vigilância e a repressão contra os cidadãos estão em pleno vigor.
Durante a ida dos jornalistas a Barcelona, a cidade estava tensa. Agentes armados em quatro pontos de controle interrogavam e, por vezes, revistavam transeuntes. Ao pôr do sol, no bairro densamente povoado onde os garotos detidos moravam, cerca de uma dúzia de policiais em motocicletas patrulhavam as ruas. A presença policial havia aumentado desde a prisão de Maduro, segundo moradores.
Números díspares: Venezuela pedirá que Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos verifique a quantidade de presos políticos libertados
Os meninos e jovens detidos no início do ano enchiam balões de água na margem do Rio Neverí e, de acordo com vídeos, corriam uns atrás dos outros em um terreno baldio, jogando os balões e rindo. Quando as autoridades chegaram, eles pensaram que as prisões seriam apenas temporárias, para lhes dar uma lição sobre causar tumulto na rua. Mas quando a polícia começou a mencionar Trump e Maduro, e depois transferiu o grupo para uma prisão maior, ficou claro que a situação era mais séria.
— Todos começamos a chorar e perguntar por quê, dizendo que eles não eram criminosos, que eram apenas crianças brincando de Carnaval — disse a mãe de dois detidos, descrevendo a cena de pais angustiados do lado de fora da prisão. — Porque o país estava em apuros — disse-lhe a polícia, acrescentou ela. “E se soubéssemos como estava o país, por que deixávamos nossos filhos na rua?”
Quinze menores do grupo foram indiciados por várias acusações, incluindo “traição à pátria”, de acordo com um documento judicial consultado pelo New York Times. As famílias dos 10 detidos maiores de 18 anos disseram que eles também foram acusados de traição.
As famílias começaram a distribuir vídeos sobre os adolescentes nas redes sociais, denunciando sua detenção. Os vídeos ganharam repercussão na comunidade local e, uma semana após serem presos, as autoridades libertaram os 15 menores sob a condição de que permanecessem na Venezuela e comparecessem ao tribunal uma vez por mês. Já os 10 detidos adultos permanecem presos.
— Não como há dias — disse Scarlett Ruiz, de 24 anos, irmã de um dos detidos, de 19 anos, que se preparava para entrar na faculdade este ano. Ela disse que a família tem levado refeições para ele e comparecido às audiências judiciais nas últimas duas semanas, observando seu estado de saúde se deteriorar.
— Meu irmão não está dormindo. Ele tem olheiras — disse Ruiz. — Eles dizem coisas como: “Vocês não vão sair daqui”.
María Reyes disse que estava preocupada com seu filho de 21 anos detido, pois ele sofria regularmente de crises epilépticas. E Karen García, mãe de um detento de 18 anos, disse que não via o filho desde o dia da prisão. Ela está confusa sobre como sua família se envolveu na situação.
— Não somos pessoas políticas, nem temos interesse em dar opiniões sobre isso — disse ela. — A única coisa que queremos é a liberdade para nossos filhos.
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Repressão e medo seguem presentes
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, elogiou a liderança interina da Venezuela, descrevendo-a como altamente cooperativa, particularmente por facilitar o acesso dos EUA ao petróleo do país. Esses líderes, os mesmos que ajudaram a comandar o regime autoritário de Maduro, também receberam manchetes positivas pela libertação de quase 150 presos políticos, cerca de um sexto do total estimado no país.
Mas, ao mesmo tempo, eles aumentaram silenciosamente esse número, detendo e prendendo pessoas suspeitas de se oporem ao governo, como parte de uma campanha nacional para sufocar a dissidência desde que os Estados Unidos capturaram Maduro há três semanas.
As forças de segurança montaram postos de controle em rodovias, revistaram celulares de cidadãos, extorquiram pessoas cujos telefones continham críticas ao governo e prenderam dezenas de outras suspeitas de comemorar a captura de Maduro.
— Você pode ser detido simplesmente por andar pelas ruas. Não no sentido de ser preso, mas de ser parado e ter seu celular confiscado — disse Andrés Azpúrua, ativista pela liberdade na internet na Venezuela que acompanha a repressão do governo. — Isso acontece há muito tempo. Mas não nessa escala.
O resultado é que muitos venezuelanos, embora talvez mais esperançosos desde a prisão de Maduro, continuam com medo de expressar sua opinião em voz alta
— Sabemos o que está acontecendo, mas ninguém pode se manifestar — contou um motorista de 49 anos, que mora no mesmo estado que os meninos detidos. — Queremos gritar, comemorar, mas não podemos. Eu quero, mas não sei onde.
Durante a entrevista, o homem frequentemente falava em sussurros, com medo de que seu vizinho ouvisse e o denunciasse à polícia. Ele acrescentou que sempre deixa o celular em casa quando sai, com medo de que a polícia o reviste.
O governo venezuelano não respondeu ao pedido de comentário. Diosdado Cabello, o poderoso ministro do Interior do país, que comanda grande parte das forças de inteligência e segurança do Estado, reconheceu na semana passada que alguns agentes extorquiram cidadãos.
— Eu disse aos policiais que, para quem quer ser policial, extorsão não tem lugar aqui — afirmou, segundo uma publicação de seu partido político.
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‘Ótimo trabalho’
A ansiedade dos venezuelanos é alimentada por anos de dura e sistemática repressão por parte do governo Maduro. Uma complexa mistura de forças de segurança — de soldados e policiais a agentes de inteligência e milícias armadas e mascaradas — que espionava, ameaçava, extorquia e prendia pessoas consideradas uma ameaça potencial ao regime. Os alvos incluíam políticos da oposição, ativistas, acadêmicos, jornalistas e até mesmo pessoas comuns que simplesmente criticavam o governo em conversas privadas.
Nas últimas duas semanas, as autoridades venezuelanas têm libertado gradualmente cerca de um sexto dos quase 900 presos políticos do país, segundo estimam grupos de direitos humanos. A Casa Branca reivindicou o mérito. Nos últimos dias, Trump também elogiou consistentemente a presidente interina ao mesmo tempo em que criticava a rival dela, María Corina Machado, líder da oposição exilada.
— Ela está fazendo um ótimo trabalho. Temos um ótimo relacionamento — disse o presidente americano sobre Delcy na semana passada.
Enquanto isso, a líder chavista tem supervisionado uma repressão interna. No dia em que Maduro foi capturado, Delcy anunciou um estado de emergência na Venezuela que, na prática, deu ao governo a autoridade para deter qualquer pessoa suspeita de apoiar o ataque dos EUA. Ela alegou que Maduro havia assinado a medida — supostamente enquanto buscava segurança após o início dos ataques.
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Policiais locais e soldados da Guarda Nacional chegaram em peso e, segundo dois dos garotos e familiares de outros quatro, dispararam tiros. Os jovens, com idades entre 13 e 25 anos, se dispersaram, mas a polícia prendeu 25 deles. Dois dias depois, promotores estaduais apresentaram acusações pelo crime de traição.
“Vou ferrar com vocês todos”, lembrou um dos garotos, de 17 anos, de um policial lhe dizendo após a prisão, usando um palavrão. “Vocês todos apoiam Donald Trump”.
Um repórter e um fotógrafo do New York Times visitaram, na semana passada, o bairro onde a maioria dos detidos mora e entrevistaram dois dos garotos e sete familiares. Muitos deles, assim como outros venezuelanos em todo o país, falaram sob condição de anonimato por medo de represálias do governo. Os relatos revelaram que, sob o governo interino venezuelano — comandado pela ex-vice-presidente Delcy Rodríguez e apoiado por Washington — a vigilância e a repressão contra os cidadãos estão em pleno vigor.
Durante a ida dos jornalistas a Barcelona, a cidade estava tensa. Agentes armados em quatro pontos de controle interrogavam e, por vezes, revistavam transeuntes. Ao pôr do sol, no bairro densamente povoado onde os garotos detidos moravam, cerca de uma dúzia de policiais em motocicletas patrulhavam as ruas. A presença policial havia aumentado desde a prisão de Maduro, segundo moradores.
Números díspares: Venezuela pedirá que Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos verifique a quantidade de presos políticos libertados
Os meninos e jovens detidos no início do ano enchiam balões de água na margem do Rio Neverí e, de acordo com vídeos, corriam uns atrás dos outros em um terreno baldio, jogando os balões e rindo. Quando as autoridades chegaram, eles pensaram que as prisões seriam apenas temporárias, para lhes dar uma lição sobre causar tumulto na rua. Mas quando a polícia começou a mencionar Trump e Maduro, e depois transferiu o grupo para uma prisão maior, ficou claro que a situação era mais séria.
— Todos começamos a chorar e perguntar por quê, dizendo que eles não eram criminosos, que eram apenas crianças brincando de Carnaval — disse a mãe de dois detidos, descrevendo a cena de pais angustiados do lado de fora da prisão. — Porque o país estava em apuros — disse-lhe a polícia, acrescentou ela. “E se soubéssemos como estava o país, por que deixávamos nossos filhos na rua?”
Quinze menores do grupo foram indiciados por várias acusações, incluindo “traição à pátria”, de acordo com um documento judicial consultado pelo New York Times. As famílias dos 10 detidos maiores de 18 anos disseram que eles também foram acusados de traição.
As famílias começaram a distribuir vídeos sobre os adolescentes nas redes sociais, denunciando sua detenção. Os vídeos ganharam repercussão na comunidade local e, uma semana após serem presos, as autoridades libertaram os 15 menores sob a condição de que permanecessem na Venezuela e comparecessem ao tribunal uma vez por mês. Já os 10 detidos adultos permanecem presos.
— Não como há dias — disse Scarlett Ruiz, de 24 anos, irmã de um dos detidos, de 19 anos, que se preparava para entrar na faculdade este ano. Ela disse que a família tem levado refeições para ele e comparecido às audiências judiciais nas últimas duas semanas, observando seu estado de saúde se deteriorar.
— Meu irmão não está dormindo. Ele tem olheiras — disse Ruiz. — Eles dizem coisas como: “Vocês não vão sair daqui”.
María Reyes disse que estava preocupada com seu filho de 21 anos detido, pois ele sofria regularmente de crises epilépticas. E Karen García, mãe de um detento de 18 anos, disse que não via o filho desde o dia da prisão. Ela está confusa sobre como sua família se envolveu na situação.
— Não somos pessoas políticas, nem temos interesse em dar opiniões sobre isso — disse ela. — A única coisa que queremos é a liberdade para nossos filhos.
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Repressão e medo seguem presentes
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, elogiou a liderança interina da Venezuela, descrevendo-a como altamente cooperativa, particularmente por facilitar o acesso dos EUA ao petróleo do país. Esses líderes, os mesmos que ajudaram a comandar o regime autoritário de Maduro, também receberam manchetes positivas pela libertação de quase 150 presos políticos, cerca de um sexto do total estimado no país.
Mas, ao mesmo tempo, eles aumentaram silenciosamente esse número, detendo e prendendo pessoas suspeitas de se oporem ao governo, como parte de uma campanha nacional para sufocar a dissidência desde que os Estados Unidos capturaram Maduro há três semanas.
As forças de segurança montaram postos de controle em rodovias, revistaram celulares de cidadãos, extorquiram pessoas cujos telefones continham críticas ao governo e prenderam dezenas de outras suspeitas de comemorar a captura de Maduro.
— Você pode ser detido simplesmente por andar pelas ruas. Não no sentido de ser preso, mas de ser parado e ter seu celular confiscado — disse Andrés Azpúrua, ativista pela liberdade na internet na Venezuela que acompanha a repressão do governo. — Isso acontece há muito tempo. Mas não nessa escala.
O resultado é que muitos venezuelanos, embora talvez mais esperançosos desde a prisão de Maduro, continuam com medo de expressar sua opinião em voz alta
— Sabemos o que está acontecendo, mas ninguém pode se manifestar — contou um motorista de 49 anos, que mora no mesmo estado que os meninos detidos. — Queremos gritar, comemorar, mas não podemos. Eu quero, mas não sei onde.
Durante a entrevista, o homem frequentemente falava em sussurros, com medo de que seu vizinho ouvisse e o denunciasse à polícia. Ele acrescentou que sempre deixa o celular em casa quando sai, com medo de que a polícia o reviste.
O governo venezuelano não respondeu ao pedido de comentário. Diosdado Cabello, o poderoso ministro do Interior do país, que comanda grande parte das forças de inteligência e segurança do Estado, reconheceu na semana passada que alguns agentes extorquiram cidadãos.
— Eu disse aos policiais que, para quem quer ser policial, extorsão não tem lugar aqui — afirmou, segundo uma publicação de seu partido político.
‘Não consigo acreditar’: Lula diz estar ‘indignado’ com operação militar dos EUA que derrocou Maduro na Venezuela
‘Ótimo trabalho’
A ansiedade dos venezuelanos é alimentada por anos de dura e sistemática repressão por parte do governo Maduro. Uma complexa mistura de forças de segurança — de soldados e policiais a agentes de inteligência e milícias armadas e mascaradas — que espionava, ameaçava, extorquia e prendia pessoas consideradas uma ameaça potencial ao regime. Os alvos incluíam políticos da oposição, ativistas, acadêmicos, jornalistas e até mesmo pessoas comuns que simplesmente criticavam o governo em conversas privadas.
Nas últimas duas semanas, as autoridades venezuelanas têm libertado gradualmente cerca de um sexto dos quase 900 presos políticos do país, segundo estimam grupos de direitos humanos. A Casa Branca reivindicou o mérito. Nos últimos dias, Trump também elogiou consistentemente a presidente interina ao mesmo tempo em que criticava a rival dela, María Corina Machado, líder da oposição exilada.
— Ela está fazendo um ótimo trabalho. Temos um ótimo relacionamento — disse o presidente americano sobre Delcy na semana passada.
Enquanto isso, a líder chavista tem supervisionado uma repressão interna. No dia em que Maduro foi capturado, Delcy anunciou um estado de emergência na Venezuela que, na prática, deu ao governo a autoridade para deter qualquer pessoa suspeita de apoiar o ataque dos EUA. Ela alegou que Maduro havia assinado a medida — supostamente enquanto buscava segurança após o início dos ataques.










