O anúncio da renúncia de Keir Starmer do cargo de primeiro-ministro do Reino Unido e da liderança do Partido Trabalhista britânico põe fim ao primeiro Gabinete não conservador em Londres em mais de uma década — e um dos mandatos mais curtos deste século. O ex-procurador-geral, que chegou ao poder com a promessa de “reconstrução” e entrega de grandes reformas econômicas e sociais, deixa o cargo com um alto nível de desaprovação e um legado ainda difícil de avaliar no longo prazo.
Quem é Andy Burnham: Entenda quem é o nome mais cotado para substituir Keir Starmer como premier do Reino Unido
Entenda o caso: Keir Starmer anuncia renúncia ao cargo de primeiro-ministro do Reino Unido e à liderança do Partido Trabalhista
O premier demissionário chegou ao Número 10 de Downing Street — sede do governo britânico — em 4 de julho de 2024, após liderar um processo reformista nas fileiras do Partido Trabalhista, que levou a sigla a uma posição mais ao centro. Ex-integrantes expulsos da legenda, como o ex-líder Jeremy Corbyn, manifestaram-se por meio de uma nota do recém-formado movimento político “Your Party”, criticando o premier, que, dizem, “falhou em defender os trabalhadores, criminalizou o direito ao protesto e apoiou os crimes de Israel em Gaza”.
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Embora a vitória de Starmer tenha encerrado uma sequência de 14 anos de governos conservadores, o novo Gabinete assumiu com uma margem de vantagem curta, que foi sendo corroída pelo cenário de estagnação econômica, tensões geopolíticas e polêmicas — a mais ruidosa delas, a nomeação de Peter Mandelson como embaixador em Washington, apesar de seus reconhecidos laços com o criminoso sexual Jeffrey Epstein.
A extensão da impopularidade do governo ficou evidenciada nas eleições de maio, quando o Partido Trabalhista foi o maior derrotado na disputa por cargos locais, como conselhos distritais e prefeitos. O pleito também demonstrou a fragmentação política em território britânico, dominado historicamente pela disputa entre conservadores e trabalhistas, com o crescimento da sigla de extrema direita Reform UK. O líder radical Nigel Farage reagiu à renúncia de Starmer nesta segunda com um pedido para que a eleição parlamentar fosse antecipada.
O futuro da liderança política, porém, deve ser definida pela maioria trabalhista, com o nome do prefeito da Grande Manchester Andy Burnham despontando como grande favorito. Recentemente eleito para a cadeira de deputado do distrito eleitoral de Makerfield, em um pleito suplementar, Burnham recebeu o apoio de outras lideranças do partido cotadas para disputar o cargo. A imprensa britânica noticiou que ele estava a caminho de Londres na manhã desta segunda, após o pronunciamento do premier.
Keir Starmer se emociona ao renunciar ao cargo de primeiro-ministro do Reino Unido
Em uma declaração à imprensa em que agradeceu Starmer pelas “liderança e dedicação”, Burnham confirmou que disputará a sucessão, que classificou como uma “transição” — em um indicador que pode significar o desejo de reunir apoio suficiente para evitar uma disputa pelo poder.
— O país espera estabilidade, seriedade e foco contínuo nas questões que mais importam, e é isso que receberá — disse o candidato a sucessor, citando como prioridades o crescimento econômico, o custo de vida e os serviços públicos, entre outros. — O movimento trabalhista sempre foi mais forte quando olha para o futuro com confiança e propósito. É isso que faremos daqui em diante e garantiremos que essa transição seja um processo positivo de renovação para nosso partido e para nosso país.
Caso reúna apoio suficiente para evitar uma disputa, Burnham pode se tornar primeiro-ministro em 17 de julho, antes do recesso parlamentar de verão, previsto para 16 de julho. Segundo Starmer, o Comitê Executivo Nacional do Partido Trabalhista abriria as indicações para sucessores em 9 de julho, com a previsão para conclusão em 16 do mesmo mês.
Se a data se confirmar, Starmer terá conduzido o 3º mandato mais curto entre primeiros-ministros britânicos neste século — somente mais duradouro que a passagem do antecessor Rishi Sunak (1 ano e 255 dias) pelo cargo e o brevíssimo governo Liz Truss, que durou apenas 50 dias.
Andy Burnham, prefeito da Grande Manchester, é principal concorrente à liderança do Partido Trabalhista
Oli Scarff/AFP
Balanço de governo
Apesar da popularidade criticamente baixa e da perda de confiança por parte do partido de que ele pudesse guiar a legenda a uma futura vitória eleitoral, Starmer recebeu demonstrações de apoio ao anunciar a renúncia. Aliados internos e regionais destacaram relativos sucessos do premier em seu curto mandato.
A secretária de Finanças Rachel Reeves lembrou que Starmer conseguiu politicamente reverter a pior derrota trabalhista na História moderna, levando à vitória em 2024. O vice-premier David Lammy afirmou que a estabilidade à economia e a redução das filas de espera do NHS [sistema público de saúde] estão entre as conquistas do governo Starmer, citando também outras políticas, como a recente limitação ao acesso de menores de idade a redes sociais para proteção a riscos online. Lammy também citou a reaproximação com a Europa.
— Ele [Starmer] recolocou o Reino Unido no centro da Europa, apoiou firmemente a Ucrânia e reconstruiu relações com nossos aliados — disse o vice-premier. — Mudança prometida, mudança defendida e mudança entregue. Esse é o legado de Keir Starmer, e tenho imenso orgulho de ter participado dele.
Zelensky esteve com o premier britânico, Keir Starmer, o chanceler alemão, Friedrich Merz, e o presidente francês, Emmanuel Macron, em Londres, na segunda-feira
Adrian Dennis/AFP
A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, também destacou o papel de Starmer na reaproximação com o bloco europeu e na condução de uma política comum dos aliados em termos estratégicos e de defesa. Em nota, a liderança afirmou que “a segurança europeia e ucraniana está mais forte” por causa do premier.
“Muitos líderes levam anos para se tornar o estadista que você se tornou em apenas dois anos”, escreveu von der Leye no texto, encerrado com um agradecimento endereçado ao “querido Keir”.
Muitas questões seguem sem solução no território britânico, elevando o nível de insatisfação interna. Os salários mal acompanharam o aumento dos preços, segundo dados oficiais, indicadores apontam que é improvável que o país atinja a meta de construir mais 1,5 milhão de casas para suprir a carência crônica de habitação, enquanto o crescimento econômico gira pouco acima de 1% — com previsões do Fundo Monetário Internacional (FMI) de que esse aumento seja ainda menor, em razão das instabilidades trazidas pela guerra no Oriente Médio e a crise do petróleo provocada pelo fechamento do Estreito de Ormuz. (NYT e AFP)