Um bando sobrevoa toneladas de lixo acumuladas em um terreno que parece infinito visto da estrada pública que o margeia. É o sinal inconfundível no céu para quem busca chegar ao aterro sanitário nos arredores de Ushuaia, na Argentina. Nos últimos dias, o local entrou na mira da comunidade internacional — ainda sem evidências concretas — como o possível ponto de origem do surto de hantavírus no navio MV Hondius. Apesar das críticas ao impacto ambiental do lixão a céu aberto, os moradores locais rejeitam veementemente a teoria de que o primeiro passageiro adoecido a bordo contraiu o vírus enquanto observava pássaros na região.
— É tudo invenção da mídia e até jogada política — afirma Luis, ao chegar para trabalhar no terreno localizado a cerca de sete quilômetros do centro. Ele atua na guarita do primeiro acesso de terra, que, úmida pela chuva com neve do início da manhã, tem textura de argila ao caminhar. Sua função é controlar as notas fiscais de entrada, por onde também passam os funcionários que operam os tratores encarregados de cobrir os resíduos descarregados pelos caminhões de lixo.
As aves necrófagas que sobrevoam o lixão a céu aberto de Ushuaia são uma atração imperdível para quem busca uma experiência única
Fabian Marelli/La Nacion
— Converso todos os dias com o pessoal que trabalha aqui. Nunca aconteceu nada com eles; ninguém teve hantavírus, e eles estão aqui todo santo dia. Se o rato e o vírus estivessem aqui, os trabalhadores teriam ficado doentes. Pode até haver ratos porque é um lixão, mas só à noite, quando não há movimento. E, definitivamente, não é a espécie de roedor da qual estão falando — disse o trabalhador ao jornal La Nación.
Somente a partir de segunda-feira, quando uma equipe do Instituto Malbrán (referência em doenças infecciosas na Argentina) iniciar os trabalhos no local junto com autoridades locais de saúde e pesquisadores do Conicet, serão feitas capturas e coletas de amostras para determinar se o vírus ultrapassou as fronteiras do continente e chegou à ilha da Terra do Fogo. Por enquanto, infectologistas, epidemiologistas e ex-autoridades de saúde da província concordam que a maior expectativa é que esses levantamentos apenas confirmem o que todos na região já dão como certo: a província está livre do hantavírus.
O mistério do paciente zero
Há três dias, a Sociedade Argentina de Infectologia (SADI) divulgou um comunicado reiterando que ainda falta determinar onde e como ocorreu a primeira exposição ao vírus (o chamado “paciente zero”), que desencadeou a cadeia de contágios a bordo. Até o momento, há 11 pessoas infectadas conhecidas, segundo a última atualização da Organização Mundial da Saúde (OMS).
O aterro sanitário de Ushuaia está localizado a cerca de sete quilômetros da cidade.
Fabian Marelli/La Nacion
Sabe-se, até agora, que a variante causadora é a Andes Sul, que possui semelhanças genéticas com a cepa detectada durante o forte surto em Epuyén, na província de Chubut, entre 2018 e 2019, e também em casos registrados no Chile.
O primeiro a apresentar sintomas a bordo do cruzeiro Hondius foi o ornitólogo holandês Leo Schlperoord (caso-índice) e, em seguida, sua esposa, Mirjam Schlperoord-Huisman, ambos de Haulerwijk, nos Países Baixos. Antes de embarcarem, eles viajaram por Argentina, Chile e Uruguai durante cinco meses focados na observação de aves. O roteiro incluiu áreas da Patagônia onde a variante viral é endêmica, há forte presença dos roedores silvestres que servem como reservatório natural e onde, recentemente, foram detectados outros casos da doença.
“Até o momento”, publicou a SADI, “não há certeza sobre o local provável de infecção (das duas primeiras vítimas). A hipótese de trabalho dos órgãos envolvidos é que o paciente 1 teria adquirido a infecção antes de embarcar, por exposição ambiental durante atividades realizadas na Argentina e no Chile”.
Os caminhos públicos que circundam o aterro sanitário, os locais ideais para observação de pássaros.
Fabian Marelli/La Nacion
O lixão como ponto turístico
Para os guias turísticos de observação de aves e moradores locais adeptos da prática, as imediações do aterro sanitário representam apenas um ponto de interesse entre tantos outros, como o litoral ou o Parque Nacional da Terra do Fogo. A teoria de que a infecção ocorreu nos dois dias e meio em que o casal permaneceu em Ushuaia, antes de embarcar no navio, é vista como absurda na cidade. Uma ONG local rastreou até um portal de notícias britânico a origem do que os moradores de Ushuaia classificam como fake news.
Em um ponto, no entanto, os guias locais concordam: seguindo a lógica de que o casal observou aves em vários lugares do continente, é muito provável que, ao chegarem a Ushuaia, eles tenham de fato visitado o aterro sanitário. O local fica a poucos minutos de táxi do centro, tem acesso fácil e, no nicho da ornitologia, é famoso para a observação de aves raras.
O aterro sanitário a céu aberto contém diversos tipos de resíduos
Fabian Marelli/La Nacion
— Para observação de aves é espetacular. Lá fica o caracara-de-darwin, uma ave nativa do sul da Patagônia que faz ninho no alto da Cordilheira dos Andes. Por isso, o lugar mais garantido e fácil de vê-la é o aterro sanitário — explicou Esteban Daniels, guia e fotógrafo da agência Birding Ushuaia.
Segundo ele, a espécie é o grande atrativo do lixão, dividindo espaço com a águia-chilena e até mesmo com condores, quando estes decidem aparecer. — São aves de rapina que aproveitam o local para se alimentar — destacou.
No verão, com a chegada dos cruzeiros, e até abril, quando a alta temporada turística se encerra, é quando o local atrai mais curiosos estrangeiros. Agora, no entanto, o mais comum é ver apenas moradores. Durante a visita da reportagem do La Nación à estrada que cerca o lixão neste sábado, não havia ninguém observando aves na região. No interior do terreno, apenas algumas máquinas operavam. O local só retomará seu funcionamento habitual e pesado na segunda-feira.