Ted Turner: fundador da CNN morre aos 87 anos
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Alto, magro, de rosto marcado e bigode, Turner podia ser visto como grosseiro e intempestivo, mas também como um homem de grande charme. Suas gafes eram frequentemente perdoadas por um público que, em boa parte, o considerava uma espécie de lenda americana viva. A fama de falastrão não impediu que ele se tornasse um dos nomes mais importantes da história da TV a cabo.
Empreendedor baseado em Atlanta, Turner assumiu riscos considerados espantosos. Muitas vezes esteve à beira da falência, antes de se recuperar e multiplicar sua fortuna. Contra o conselho de colegas e o senso comum da indústria, investiu milhões de dólares em iniciativas pioneiras que combinavam transmissões por cabo e satélite. Enfrentou as grandes redes de televisão, quase perdeu tudo em Hollywood e saiu dessas disputas como bilionário à frente de um vasto império de canais de notícias, esportes e entretenimento.
O empresário Ted Turner, fundador da CNN
SAUL LOEB / AFP
Sua maior marca foi a CNN, rede que transformou o jornalismo televisivo ao apresentar notícias 24 horas por dia, com atualizações constantes e uma sensação inédita de imediatismo. A emissora permitiu ao público acompanhar, em tempo real, acontecimentos como a queda do Muro de Berlim, a repressão ao movimento estudantil chinês na Praça da Paz Celestial e a Guerra do Golfo Pérsico, em 1991.
“Hoje, as notícias estão disponíveis quando realmente acontecem, não quando é conveniente para as três redes de transmissão exibi-las”, escreveram Robert Goldberg e Gerald Jay Goldberg na biografia “Citizen Turner: The Wild Rise of an American Tycoon”, de 1995.
A influência da CNN chegou à Casa Branca. Durante a Guerra do Golfo, o então presidente George H.W. Bush foi amplamente citado dizendo: “Aprendo mais com a CNN do que com a C.I.A.”
O próprio Turner, no entanto, dizia não ser movido necessariamente por notícias ou por negócios. O que o atraía era o risco. Ao “The New York Times”, afirmou: “Sempre fui mais aventureiro do que empresário.”
A vida pessoal do magnata também refletia turbulência. Seus três casamentos — o último, encerrado em 2001, com a atriz Jane Fonda — foram marcados por episódios públicos de infidelidade, consumo excessivo de álcool e comportamento considerado grosseiro. No trabalho, segundo seus biógrafos, ele podia arremessar textos pela sala se não gostasse de uma apresentação e humilhar funcionários em voz alta.
Ted Turner, fundador da CNN, e a atriz Jane Fonda em Paris
PASCAL PAVANI / AFP
A teatralidade também fazia parte de sua forma de vender. “Turner faria qualquer coisa para vender sua emissora aos anunciantes”, escreveram os autores de “Citizen Turner”. “Ele subia em cadeiras, mesas, escrivaninhas, em qualquer coisa que não se movesse, e gritava com toda a força de sua laringe. Se encontrasse resistência realmente séria, podia até se jogar no chão como se tivesse levado um tiro e gritar: ‘Vocês estão me matando!’”
As contradições se estendiam à política e à filantropia. Turner se declarava um republicano ultraconservador e mantinha laços com evangélicos cristãos e integrantes da ultradireitista John Birch Society, mas também se aproximou de Fidel Castro e defendeu a conduta do governo comunista chinês. Em um gesto extraordinário, doou US$ 1 bilhão às Nações Unidas, organização frequentemente atacada por conservadores americanos.
Apaixonado por caça, tornou-se também um nome querido por ambientalistas ao comprar mais de 1 milhão de acres de áreas selvagens e terras de fazenda para transformá-las em reservas naturais. Chegou a ser o quarto maior proprietário privado de terras dos Estados Unidos, com 2 milhões de acres, além de vastas áreas na Argentina e em outros países.
Antes da CNN, Turner já havia dado sinais de sua disposição para apostar alto. Em 1970, comprou uma pequena emissora de televisão em dificuldades em Atlanta, rebatizada como WTCG. Em 1976, endividou-se ainda mais para comprar o Atlanta Braves, então um time de beisebol decadente. A decisão se mostrou estratégica: ao transmitir todos os 162 jogos da equipe, Turner preencheu a programação da emissora a baixo custo e fortaleceu sua operação.
Pouco depois, usou transmissões via satélite para levar o sinal da emissora a sistemas de TV a cabo em todo o país. Nascia a TBS, considerada a primeira “superestação” dos Estados Unidos e peça importante na expansão da TV a cabo. A programação combinava esportes, filmes antigos e reprises de séries como “Lassie” e “I Love Lucy”.
A ousadia nos negócios se somava a outra paixão: a vela. Turner foi eleito velejador do ano pela United States Sailing Association em 1970 e 1973 e mirou a conquista da America’s Cup. Primeiro, teve de superar a resistência do tradicional New York Yacht Club, desconfiado de sua reputação turbulenta. No fim, era considerado bom demais para ser rejeitado.









