Após uma noite de tempestades, tanto políticas quanto meteorológicas, trabalhadores começaram a remover o nome do presidente dos EUA, Donald Trump, da fachada de mármore branco do John F. Kennedy Center for the Performing Arts nas primeiras horas da manhã deste sábado, atendendo a uma decisão de um juiz federal que considerou ilegal a mudança de nome da instituição.
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As letras começaram a ser retiradas pouco depois das 3h da manhã (no horário local), após a instituição solicitar uma extensão do prazo que terminaria à meia-noite. Matt Floca, diretor-executivo do Kennedy Center, pediu a um tribunal federal distrital mais 12 horas para certificar o cumprimento da ordem, atribuindo o atraso a uma tempestade de verão.
Os trabalhadores passaram cerca de oito horas na sexta-feira montando enormes andaimes diante da seção da fachada que exibia o nome de Trump. Em seguida, nas primeiras horas de sábado, penduraram grandes lonas brancas na estrutura. Isso bloqueou a visão da remoção, que representava uma importante vitória simbólica para os opositores da tomada de controle do icônico centro de artes por Trump.
No entanto, uma abertura nas lonas permitiu que um fotógrafo do New York Times observasse um trabalhador retirando da parede a letra “A”. Não houve som de ferramentas elétricas; a letra aparentemente foi removida manualmente.
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Durante toda a sexta-feira, advogados de Trump e do Kennedy Center tentaram obter uma intervenção judicial para manter o nome do presidente na fachada enquanto recorriam da decisão.
Mas, depois que tanto o tribunal distrital quanto um tribunal federal de apelações negaram os pedidos de suspensão imediata da decisão, os trabalhadores passaram a erguer os andaimes com determinação para alcançar as letras. Uma plateia barulhenta de algumas centenas de pessoas se reuniu para acompanhar.
O conselho diretor do centro, alinhado a Trump, votou há quase seis meses pela inclusão do nome do atual presidente dos EUA na instituição, provocando indignação em Washington e uma crise no principal centro cultural da capital americana. Em uma instituição já abalada pela intervenção presidencial, as 18 novas letras fixadas ao edifício — menos de um dia após a votação — elevaram ainda mais a tensão.
Trabalhadores começam a retirar o nome de Donald Trump da fachada do Kennedy Center, em Washington
Alex Kent/NYT
Parlamentares democratas condenaram a medida como um ato de “narcisismo”; vários artistas cancelaram apresentações no centro; e a deputada Joyce Beatty, membro do conselho por direito do cargo, entrou com uma ação judicial classificando a mudança como uma “violação flagrante do Estado de Direito”. Beatty acompanhou a operação na manhã de sábado, permanecendo na praça em frente ao Kennedy Center mesmo após a equipe de trabalho deixar o local por volta das 4h.
O debate sobre a adequação da mudança de nome produziu uma cena incomum em Washington. Durante dois dias, o centro cultural às margens do rio Potomac recebeu uma enxurrada de visitantes não para assistir a uma sinfonia ou balé, mas para verificar se o nome do presidente seria removido do mármore. Enquanto observadores mantinham vigília, uma sucessão constante de acontecimentos judiciais alimentava a incerteza sobre se a remoção realmente aconteceria.
Champanhe gelada
Na quinta-feira, um dos primeiros sinais de movimentação surgiu quando seguranças instalaram grades metálicas pretas para bloquear a entrada principal e a passagem próxima à fachada do edifício. Visitantes questionavam voluntários e seguranças sobre quando as letras seriam retiradas, mas obtinham poucas respostas.
A poucos minutos dali, moradores do complexo Watergate planejavam festas improvisadas. Duas organizações de voluntários, Hands Off the Arts e Free the Kennedy Center, coordenaram uma transmissão ao vivo da fachada por meio de uma câmera instalada em uma varanda do Watergate.
Christine Lienert e Debra Wilfong mantiveram champanhe gelado aguardando a retirada das letras. Quando souberam, na quinta-feira à noite, que isso não ocorreria naquele momento, guardaram novamente as garrafas. Na sexta-feira, Lienert voltou com o champanhe, mas acabou indo embora quando percebeu que a remoção poderia demorar horas; o gelo de sua caixa térmica já havia derretido.
Nem todos os presentes eram favoráveis à retirada do nome. Jeanette Mercado e seu marido, Bert, viajaram de Wasco, no Vale Central da Califórnia, para visitar os monumentos da capital e se depararam com os andaimes e a multidão.
— Gosto de Trump, gosto do que ele está fazendo pelo nosso país, acho que ele é uma bênção para nosso país e não vejo nada de errado em acrescentarem seu nome — afirmou Jeanette, quase sem conseguir ser ouvida em meio aos gritos de “tirem isso daí”.
Seu marido, também apoiador de Trump, tinha uma opinião diferente:
— Deveria haver um senso de continuidade aqui. Por que inserir o seu próprio nome? — questionou.
Em dezembro de 2025, o conselho do Kennedy Center votou pela inclusão do nome de Trump no edifício em reconhecimento ao que dirigentes descreveram como sua dedicação à instituição e sua ajuda para garantir US$ 257 milhões destinados a uma reforma considerada necessária.
Quando o juiz federal Christopher R. Cooper decidiu sobre a ação de Joyce Beatty no final de maio, concluiu que o conselho não possuía autoridade para renomear unilateralmente a instituição. Segundo ele, esse poder pertence exclusivamente ao Congresso, citando a legislação de 1964 que dedicou o centro à memória de Kennedy, defensor das artes e apoiador de sua criação.
“O rótulo ‘Trump Kennedy Center’ acrescenta um nome inteiramente novo ao título formal da instituição”, escreveu Cooper, “e relega o nome do presidente Kennedy ao segundo plano”.
O juiz concedeu ao centro um prazo de duas semanas, até sexta-feira, para restaurar o nome original no edifício e em todos os materiais oficiais.
Queda na venda de ingressos
Ao recusar suspender seu próprio prazo na sexta-feira, Cooper observou que o Kennedy Center já havia tomado medidas para cumprir a decisão. Na semana anterior, funcionários receberam instruções para alterar imediatamente formulários, contas em redes sociais e assinaturas de e-mail. Pouco depois, o nome de Trump desapareceu do topo do site oficial do centro.
“Esses esforços enfraquecem a ideia de que os réus sofreriam dano irreparável ao cumprir integralmente a ordem”, escreveu o magistrado.
Ao solicitar a suspensão da decisão ao tribunal de apelações, o Kennedy Center argumentou, entre outras coisas, que remover o nome agora e eventualmente restaurá-lo depois seria “extremamente confuso para o público”.
O recurso continha argumentos jurídicos e referências a precedentes, mas também apresentava uma introdução em estilo que lembrava o modo de escrever de Trump, com sua pontuação peculiar e tendência à autopromoção.
Assinado por Brett A. Shumate, procurador-geral adjunto do Departamento de Justiça, o documento afirmava que a retirada do nome poderia prejudicar seriamente a arrecadação de recursos, pois muitos doadores que contribuíram com milhões de dólares só teriam feito isso porque o nome Trump estava no edifício.
“Muitos fizeram isso”, acrescentava o texto, “porque adoravam o conceito de dois Grandes Presidentes, um Republicano e um Democrata, trabalhando juntos como um só — de muitas formas, uma relação bipartidária!”
Os advogados de Joyce Beatty responderam que o recurso foi apresentado “na última hora”, numa tentativa transparente de pressionar o tribunal e manipular o sistema judicial.
As decisões de Cooper ameaçaram enfraquecer o esforço de Trump para remodelar a paisagem cultural de Washington. No início de seu segundo mandato, ele transformou o Kennedy Center em peça central dessa visão.
Trump assumiu o controle da instituição internamente, removendo indicados do governo Biden do conselho e substituindo-os por aliados que rapidamente o elegeram presidente do órgão. Também promoveu mudanças estéticas externas, como pintar de branco colunas douradas para adequá-las ao seu gosto. No principal evento da instituição, o Kennedy Center Honors, atuou pessoalmente como apresentador.
Em fevereiro, Trump anunciou a intenção de fechar o centro por dois anos para resolver problemas de manutenção que considerava graves.
A ação movida por Beatty também contestou esse fechamento planejado, questionando se a medida não teria sido concebida para ocultar a queda nas vendas de ingressos e a saída de artistas.
Após meses de disputa judicial, Cooper concordou em bloquear temporariamente o fechamento, concluindo que o conselho havia tomado uma decisão “mal informada e aparentemente predeterminada” ao aprovar o plano presidencial. Contudo, afirmou que não continuaria impedindo a medida caso os conselheiros analisassem a questão de forma séria.
Autoridades alinhadas a Trump no Kennedy Center anunciaram imediatamente que recorreriam da decisão sobre a mudança de nome, afirmando estar confiantes de que os tribunais reconheceriam “a vontade do conselho de homenagear as contribuições históricas do presidente Trump ao centro cultural da nação”.
Os planos para o recurso tornaram-se menos certos depois que Trump reagiu à decisão com uma publicação furiosa nas redes sociais. Sem controle sobre os assuntos do centro, escreveu ele, não tinha “nenhum interesse em continuar o que só poderia ser uma jornada sem esperança para a ‘TERRA DO NUNCA’”.
O nome do presidente aparecia não apenas na fachada, mas também em papéis timbrados, cartazes e placas de sinalização. Nesta semana, uma placa de estacionamento tinha a palavra Trump coberta por fita branca, enquanto em um dos ônibus do centro o nome havia sido riscado com marcador preto.
Ainda assim, o conselho decidiu prosseguir com o recurso.
Na sexta-feira, Allerton Kilborn, de 79 anos, levou um livro para passar o tempo enquanto aguardava o que esperava ser a retirada do nome de Trump. Ele saiu de sua casa em Chevy Chase, Maryland, e permaneceu mais de 12 horas no local, alternando entre a área externa e o interior climatizado do centro.
— Pela aventura. Isto é história” — disse. — Sou tão velho que conheci John Kennedy pessoalmente e sempre fui um enorme admirador dele — afirmou. Para ele, acrescentar o nome de Trump ao memorial dedicado a Kennedy foi uma profanação. — Não sou religioso, mas vejo isso em termos religiosos — concluiu.