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O paper Chasing Lightning (“À caça do relâmpago”, em tradução livre), publicado em maio de 2026 e ainda em fase de revisão científica, identificou a constelação russa, que atua formalmente contra mísseis balísticos, como responsável por 75 dias de perturbações que derrubaram sinais de GPS, Galileo e BeiDou. E sobre um território que vai da Polônia ao Canadá.
O principal autor do estudo, o professor americano Todd Humphreys, descarta uma ação acidental. O padrão temporal das interferências, concentradas entre terças e quintas, sempre em horário comercial europeu, é incompatível com qualquer falha aleatória de hardware.
— Estou convicto de que é jamming deliberado — disse Humphreys ao GLOBO.
Para Mauricio Santoro, pesquisador colaborador do Centro de Estudos Político-Estratégicos da Marinha e especialista em relações internacionais, a descoberta se encaixa com precisão num quadro que a Europa já reconhece, mesmo sem nomear abertamente.
— Um embaixador aposentado brasileiro que viajou recentemente à Europa me disse que, para ele, o continente estava em pré-guerra com a Rússia. Achei uma expressão muito boa — disse Santoro. — Você não tem exércitos atirando uns nos outros, mas todo um cenário de tensão, de preparação militar, de disputa por domínios novos do campo de batalha.
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Estação de satélites construída pelos EUA na Guerra Fria, conhecida como ‘Mickey Mouse’, em colina perto de Kangerlussuaq, no oeste da Groenlândia, em junho de 2025
Ivor Prickett/The New York Times
A tensão nas relações entre a Europa e a Rússia não era tão elevada desde o fim da Guerra Fria. A Alemanha ampliou seus gastos militares de forma expressiva. Polônia, países bálticos e Romênia reforçam suas defesas diante da ameaça de incursões russas. Drones sobrevoam fronteiras. E, segundo Santoro, as interferências no GPS se encaixam nesse contexto como um ensaio, não uma operação de combate, mas um teste de capacidade para uso eventual.
A lógica foi resumida por Humphreys: se a Rússia quisesse causar dano real, bastaria calibrar o sinal para coincidir exatamente com a frequência central do GPS e mantê-lo ativo de forma contínua. Hoje, a interferência está centrada 2 Megahertz ao lado da frequência-alvo e dura apenas alguns segundos, o suficiente para verificar que o sistema funciona e insuficiente para revelar todo o potencial destrutivo.
— Se os sinais fossem calibrados para coincidir exatamente com a frequência central do GPS e transmitidos de forma contínua, o impacto sobre aviação, navegação marítima, sistemas bancários e redes elétricas representaria uma escalada massiva em guerra eletrônica — alertou o cientista.
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O GPS como arma
Ao longo de quatro anos de conflito contra a Ucrânia, a Rússia disparou milhares de mísseis de cruzeiro contra o território vizinho, todos dependentes de sistemas de navegação por satélite para encontrar seus alvos. O GPS, nesse contexto, deixou de ser apenas uma ferramenta civil e se tornou infraestrutura de combate.
Santoro lembra um episódio recente que ilustra bem a disputa. Em 2024, mísseis iranianos erraram alvos em larga escala — resultado, segundo especialistas, de interferências americanas e israelenses nos sistemas de navegação. No ano seguinte, a precisão iraniana melhorou de forma expressiva. A hipótese mais aceita é a de que Teerã trocou o GPS pelo BeiDou chinês, aproveitando a cooperação militar com Pequim.
Satélite GPS
Freepik
— Quando a gente fala dessa capacidade de usar um satélite para interferir com o GPS, isso tem um impacto enorme nos mísseis de cruzeiro — disse Santoro. — Controlar esse domínio espacial é fundamental para a guerra contemporânea quando você está falando de estados com alto nível tecnológico.
Na prática, a dimensão do risco vai além dos campos de batalha. Do espaço, a visibilidade é direta e total, ou seja, um jamming contínuo e calibrado afetaria simultaneamente aviação civil, navegação marítima, sincronização de sistemas bancários, redes de energia elétrica e logística.
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Quem responde e como?
A dificuldade de atribuição — foram seis anos de cálculos e estudos científicos para identificar o satélite responsável — não é um detalhe secundário, e pode ser interpretada como parte da estratégia. Sem prova técnica incontestável, qualquer resposta diplomática ou militar do Ocidente fica juridicamente fragilizada.
Representação visual do congestionamento de satélite na órbita da Terra
Reprodução/satellitemap.space
A Otan ainda não tem doutrina clara para tratar ataques no espectro eletromagnético como atos de guerra. Ataques cibernéticos russos contra a Estônia, anos atrás, foram classificados como guerra híbrida, não como agressão militar direta. Santoro acredita que essa classificação deve mudar com o tempo, à medida que o dano potencial desses ataques se torna mais evidente.
Dentro da ONU, a União Internacional de Telecomunicações é o fórum competente, mas sua velocidade, segundo o especialista, é incompatível com a urgência do tema. Humphreys é direto ao avaliar que os governos precisam confrontar a Rússia diplomaticamente e, ao mesmo tempo, investir em sistemas de navegação completamente independentes do GPS, combinando sinais terrestres de alta potência com distribuição de tempo por fibra óptica.
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Santoro vai na mesma direção ao observar que países como China, Coreia do Sul e Reino Unido já desenvolvem redes alternativas. Mesmo o Brasil, que não está envolvido em conflitos diretos com outros países, já criou um Grupo Técnico através da Agência Espacial Brasileira (AEB) para estudar e propor a implantação de um Sistema Brasileiro de Posição, Navegação e Tempo (PNT).
Segundo a AEB, os objetivos são o diagnóstico das vulnerabilidades da atual dependência de sistemas estrangeiros de navegação, como o GPS; a formulação de estratégias para o desenvolvimento de um sistema nacional autônomo; e o mapeamento das capacidades industriais, laboratoriais e tecnológicas necessárias à viabilização do projeto.
— A maioria dos sistemas de localização foram afetados. No momento, isso é um incômodo. Mas, se os sinais de interferência fossem sintonizados para coincidir exatamente com os do GPS/Galileo/BDS, teríamos um problema significativo. É necessário confrontar a Rússia sobre essa interferência e preparar sistemas de backup que sejam totalmente independentes [para lidar com o fato] — afirma Humphreys.










