Premier japonesa: ascensão de Sanae Takaichi confirma guinada ainda mais conservadora do país
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Primeira mulher a liderar o governo japonês, a líder ultranacionalista busca consolidar a maioria conservadora, apostando em seu bom desempenho nas pesquisas de opinião para impulsionar os resultados de seu Partido Liberal Democrático (PLD, nacionalista de direita).
A coalizão governista, que detém uma pequena maioria na Câmara baixa e busca ampliar sua base de apoio, deve ultrapassar facilmente as 233 cadeiras na Câmara Baixa segundo as pesquisas. Com seu aliado, o Partido da Inovação, a coalizão poderia ultrapassar 300 das 465 cadeiras, quase dois terços do total.
Na oposição, a Aliança Reformista Centrista, que inclui o Partido Democrático Constitucional (PDC) e o antigo aliado do PLD, o Komeito, pode perder metade de suas 167 cadeiras.
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“Os resultados são muito importantes para o futuro do país. A primeira-ministra Takaichi já provou ser uma líder forte, poderosa e sábia, que realmente ama seu país”, escreveu Trump, afirmando ainda que ela “não decepcionará o povo japonês”. O gesto reforça a aproximação entre os dois governos em um contexto de disputas comerciais, tensões de segurança e deterioração das relações entre Japão e China.
Embora raras, intervenções desse tipo não são inéditas na trajetória política de Trump. Nos últimos meses, ele também manifestou apoio ao presidente da Argentina, Javier Milei, e ao primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán.
A aproximação com Washington tem sido uma estratégia central de Takaichi desde que assumiu o cargo, em outubro, após vencer a disputa interna em seu partido e garantir apoio no Parlamento. No mês passado, ela convocou eleições antecipadas visando obter um mandato popular direto.
A relação bilateral ganhou novo impulso após negociações comerciais em julho, quando o Japão concordou em investir US$ 550 bilhões (cerca de R$ 2,86 trilhões) nos Estados Unidos. Em contrapartida, o governo americano reduziu tarifas de importação que inicialmente poderiam chegar a 25% para 15%.
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Poucos dias após assumir o cargo, Takaichi recebeu Trump em Tóquio com honras militares completas, em uma visita marcada por forte simbolismo político. Em um dos momentos mais emblemáticos, a premier apareceu ao lado do presidente americano a bordo do porta-aviões USS George Washington, em imagens amplamente divulgadas internacionalmente.
Além do alinhamento econômico, os dois líderes compartilham posições semelhantes na área de defesa. Trump tem pressionado aliados a ampliar seus gastos militares, posição defendida também por Takaichi, em meio ao debate interno no Japão sobre a necessidade de reforçar a capacidade de autodefesa do país.
Durante a visita, os governos assinaram acordos sobre o fornecimento de terras raras e divulgaram um documento que descreve uma nova “era de ouro” nas relações bilaterais. Takaichi elogiou o papel de Trump na diplomacia internacional, especialmente no Oriente Médio, enquanto o presidente americano afirmou ter ficado “extremamente impressionado” com a primeira-ministra.
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Trump também afirmou estar “ansioso” para receber Takaichi na Casa Branca em 19 de março, sinalizando que sua administração vê a líder japonesa como uma parceira estratégica.
Apelo popular nas redes
Conservadora ferrenha e admiradora de Margaret Thatcher, Takaichi, de 64 anos, é popular especialmente entre os jovens e se tornou um fenômeno nas redes sociais.
Sua retórica incisiva sobre imigração também pode ter diminuído o espaço para o partido populista Sanseito, que defende uma política de “Japão Primeiro”.
— A linguagem que ela usa é fácil de entender — observa Mikitaka Masuyama, do Instituto Nacional de Estudos Políticos.
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O antecessor de Takaichi, Shigeru Ishiba, “refletia muito, mas falava como um acadêmico”, completa.
Nova escalada
A declaração de Trump tem impacto que vai além do eleitorado japonês e é interpretada como um recado direto à China. As relações entre Pequim e Tóquio atravessam um de seus momentos mais delicados em mais de uma década, agravadas por disputas territoriais e pelo tema sensível de Taiwan.
Em novembro, Takaichi irritou o governo chinês ao afirmar que o Japão poderia reagir com suas Forças de Autodefesa caso a China atacasse Taiwan, ilha autogovernada reivindicada por Pequim. A premier se recusou posteriormente a recuar da declaração.
A China respondeu aconselhando seus cidadãos a não viajarem para o Japão, reforçando seus controles comerciais e organizando exercícios aéreos conjuntos com a Rússia ao redor do arquipélago japonês.
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Segundo Yee Kuang Heng, da Universidade de Tóquio, as tensões poderiam diminuir em caso de uma vitória esmagadora, já que “a China reconhece sua força e pode considerar que possui mais resiliência do que o previsto, e que terá de ser levada em consideração”.
O apoio de Trump ocorre um dia após uma conversa telefônica entre o presidente americano e o líder chinês, Xi Jinping. Segundo o presidente americano, ambos reconhecem a importância de manter uma relação estável. Xi, por sua vez, classificou Taiwan como “a questão mais importante” do vínculo bilateral e pediu prudência dos EUA no fornecimento de armas à ilha, segundo a imprensa estatal chinesa.
Pesquisas indicam ampla vantagem de Takaichi na eleição deste domingo. Ainda assim, analistas avaliam que sua liderança será testada na condução da economia japonesa, que enfrenta crescimento lento, e no equilíbrio da relação com Washington, seu principal aliado em segurança, e com Pequim, seu maior parceiro comercial.










