Contexto: Trump anuncia bloqueio ‘de todos os navios’ que tentarem entrar ou sair de Ormuz
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“Aviso: se qualquer um desses navios chegar perto do nosso BLOQUEIO, será imediatamente ELIMINADO”, escreveu Trump em publicação nas redes sociais pouco depois do horário previsto para o início do bloqueio. Em outra mensagem, acrescentou que os EUA utilizariam “o mesmo sistema de morte” empregado contra embarcações suspeitas de tráfico de drogas no mar, classificando-o como “rápido e brutal”.
Segundo Trump, a Marinha iraniana já teria sido amplamente destruída. O líder americano afirmou que 158 navios foram “completamente obliterados”, ressaltando que o que ainda não foi atingido foi “o pequeno número do que eles chamam de ‘navios de ataque rápido’, porque não os considerávamos uma grande ameaça”, escreveu.
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O bloqueio do tráfego marítimo foi anunciado pelo republicano no domingo, após negociações entre EUA e Irã no Paquistão encerrarem sem acordo. As conversas haviam buscado estender um cessar-fogo frágil entre os dois países, em meio a um conflito de seis semanas que já deixou milhares de mortos na região. O impasse envolveu, entre outros pontos, o futuro do programa nuclear iraniano e o controle do Estreito de Ormuz.
O centro United Kingdom Maritime Trade Operations (UKMTO), afiliado à Marinha Real britânica, informou que as restrições marítimas estavam sendo aplicadas a embarcações de qualquer bandeira que operem com portos iranianos, terminais de petróleo ou instalações costeiras. Segundo o aviso, as medidas abrangem toda a costa iraniana.
O Comando Central dos Estados Unidos já havia indicado anteriormente que o bloqueio seria aplicado “de forma imparcial” contra navios de todas as nações que entrem ou saiam de portos iranianos. Um aviso também indicou que embarcações poderiam ser interceptadas, desviadas ou capturadas. Navios neutros que não tenham feito escala no Irã não seriam impedidos, podendo, no entanto, ser revistados.
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O Irã classificou a ameaça como “ato de pirataria” e afirmou que atingirá todos os portos dentro e próximos ao Golfo Pérsico caso seus próprios centros de navegação sejam ameaçados. A segurança dos portos da região é “ou para todos ou para ninguém”, disseram as forças armadas iranianas em comunicado nesta segunda, sinalizando que o Irã está pronto para retomar ataques. O movimento aumentaria as tensões entre os EUA e a China, que compra quase todo o petróleo iraniano.
O bloqueio também eleva a pressão sobre o cessar-fogo entre os dois países, firmado há menos de uma semana. Autoridades iranianas acusaram os EUA de violar a trégua ao permitir que Israel continue a bombardear o Líbano. O Paquistão, que mediou o acordo, afirmou que todas as frentes regionais faziam parte do entendimento e disse que continuará tentando intermediar uma solução diplomática.
“O Paquistão continua comprometido em manter esse impulso pela paz e estabilidade”, disse o premier paquistanês, Shehbaz Sharif, nas redes sociais, indicando a continuidade dos esforços diplomáticos.
Já aliados dos EUA demonstraram cautela. O Reino Unido indicou que não participará do bloqueio, enquanto a ministra da Defesa da Espanha, Margarita Robles, disse que o bloqueio naval planejado “não faz sentido” e é “mais um episódio nesta espiral descendente para a qual fomos arrastados”. O presidente francês, Emmanuel Macron, disse que França e Reino Unido sediarão uma conferência com países dispostos a participar de uma “missão multinacional pacífica” para garantir a segurança do estreito, mas que ela será “estritamente defensiva”.
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Os mercados reagiram à escalada. Os preços do petróleo subiram com o temor de restrições na oferta, enquanto as ações americanas abriram em leve queda. O aumento das tensões ocorre em uma via marítima estratégica por onde normalmente passa cerca de um quinto do petróleo e do gás natural liquefeito do mundo.
Autoridades iranianas também alertaram para impactos econômicos. O presidente do Parlamento do Irã, Mohammad Bagher Ghalibaf, afirmou que o cerco no Golfo elevará os preços da gasolina para os americanos, observando que o preço médio do galão nos EUA já supera US$ 4,12, acima dos níveis registrados antes do início da guerra.
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A geografia da região permitiu que o Irã utilizasse o Estreito como instrumento de pressão ao longo da guerra, impedindo seletivamente a passagem de embarcações pela via marítima e elevando os preços do petróleo no processo. Ao fechar o Estreito, Trump poderia cortar uma importante fonte de receita para o governo iraniano, embora isso também possa elevar ainda mais os preços do petróleo e do gás.
Isso porque um bloqueio de navios iranianos cortaria uma linha vital financeira para Teerã, que manteve as exportações de petróleo em níveis pré-guerra e arrecadou milhões de dólares extras com a alta dos preços do petróleo provocada pelo conflito. O bloqueio de Trump também poderia ter grande impacto sobre a China, parceiro comercial-chave da República Islâmica. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores chinês, Guo Jiakun, disse nesta segunda que a medida ameaça o comércio global e pediu que ambos os lados “permaneçam calmos”.
Enquanto EUA e Israel interromperam os bombardeios ao Irã — e Teerã, por sua vez, parou de disparar mísseis contra Estados do Golfo — Israel manteve sua invasão do Líbano para atingir o Hezbollah, grupo militante apoiado por Teerã. Nesta segunda-feira, o Exército israelense disse ter cercado Bint Jbeil, uma cidade em colina a cerca de 4 km da fronteira israelense, e que iniciará um ataque. O Hezbollah considera Bint Jbeil um de seus principais redutos e a chama de “capital da resistência”.
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A ofensiva de Israel no Líbano — que, segundo o governo libanês, já matou mais de 2 mil pessoas — foi um ponto de discórdia durante a negociação dos termos do cessar-fogo entre EUA e Irã. Conversas entre Israel e o governo libanês, que há anos promete desarmar o Hezbollah sem sucesso, devem ocorrer nesta semana.
Os desdobramentos em Ormuz e no Líbano ameaçam prolongar e ampliar a guerra, enquanto a escassez emergente de energia alimenta temores de uma crise inflacionária global. O acordo de cessar-fogo de duas semanas deve expirar em 22 de abril, caso o bloqueio americano não leve ao seu colapso antes disso. A Guarda Revolucionária do Irã afirmou que qualquer embarcação militar que tente se aproximar do Estreito “sob qualquer pretexto” será considerada uma violação do cessar-fogo, segundo a TV estatal iraniana.
Embora nenhum dos lados tenha se comprometido com uma segunda rodada de negociações, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Esmail Baghaei, disse que os países chegaram a um entendimento sobre várias questões, mas persistem divergências “em dois ou três pontos-chave”. Um funcionário americano, que pediu anonimato, disse no domingo que estava claro para a equipe dos EUA que a delegação iraniana não compreendia o principal objetivo do governo Trump, que era garantir que a República Islâmica nunca tenha uma arma nuclear.
(Com Bloomberg e AFP)









