Guga Chacra: A singularidade de ser porto-riquenho como Bad Bunny
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A resposta começa no fim do século XIX. Porto Rico foi colonizado pela Espanha a partir de 1493 e permaneceu sob domínio espanhol por mais de 400 anos. O território, no entanto, foi cedido aos Estados Unidos em 1898, após a invasão americana durante a Guerra Hispano-Americana e a assinatura do Tratado de Paris.
Desde o início, a relação entre os territórios foi de discriminação. Apenas três anos após conquistar a ilha, decisões da Suprema Corte americana em 1901 deixaram claro que os porto-riquenhos estavam vinculados a uma relação colonial desigual, na qual os residentes da ilha eram vistos como inferiores: as medidas afirmavam que a ilha era “habitada por raças alienígenas” que não poderiam compreender os “princípios anglo-saxões” e que era “pertencente aos EUA, mas não parte dos EUA”.
Bad Bunny no intervalo do Super Bowl LX, no Levi’s Stadium, na Califórnia. Ele exibiu a bandeira de Porto Rico em azul-claro, símbolo do independentismo.
Loren Elliott/The New York Times
Inicialmente administrado por militares, o território passou depois a ter governo civil organizado por leis aprovadas pelo Congresso americano. Em 1917, os porto-riquenhos receberam cidadania dos Estados Unidos por meio da Lei Jones-Shafroth — tornando-os elegíveis para o recrutamento militar obrigatório durante a Primeira Guerra Mundial.
Ainda assim, foi preciso esperar até 1947 para que os habitantes da ilha tivessem o direito de eleger seu próprio governador. Em 1952, Porto Rico adotou sua própria Constituição e passou a ser oficialmente classificado como “Estado Livre Associado”. Na prática, trata-se de um território não incorporado dos Estados Unidos.
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A ilha tem governo próprio, governador eleito, Assembleia Legislativa e autonomia administrativa em diversas áreas. No entanto, continua sob soberania americana, e o Congresso dos EUA mantém autoridade final sobre o território. Os moradores de Porto Rico são cidadãos americanos, mas não votam nas eleições presidenciais enquanto residem na ilha. Também não elegem senadores nem deputados com voto pleno.
Em vez disso, Porto Rico escolhe um comissário residente, que pode participar de debates e comissões na Câmara dos Representantes, mas não vota nas decisões finais do plenário. Se fosse admitido como Estado, Porto Rico teria direito a senadores e representantes com direito a voto, como ocorre com as demais unidades da federação. A admissão de um novo Estado, porém, depende de aprovação do Congresso americano.
Ainda hoje, quando os nascidos da ilha têm passaporte americano e podem viver e trabalhar em qualquer parte dos Estados Unidos, apenas cerca de metade dos adultos americanos sabe que os porto-riquenhos são cidadãos dos EUA.
Debate recorrente
O debate sobre o status político da ilha é recorrente. Desde 1967, Porto Rico realizou diversos plebiscitos para consultar a população sobre possíveis mudanças. Em votações realizadas nos últimos anos, a opção pela transformação em Estado obteve maioria entre os participantes. No entanto, as consultas não tiveram efeito automático, porque qualquer alteração depende de decisão do Congresso dos Estados Unidos.
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Em 2022, a Câmara dos Representantes aprovou um projeto prevendo um referendo federal vinculante com três alternativas: tornar Porto Rico o 51º Estado, torná-lo independente ou estabelecer uma livre associação soberana com os EUA. O texto, porém, não foi aprovado pelo Senado antes do fim da legislatura e perdeu a validade.
Com cerca de 3 milhões de habitantes, Porto Rico tem tamanho semelhante ao do Distrito Federal. Na região, o espanhol é o idioma predominante, e a identidade cultural é principalmente latino-caribenha. Mas, ao finalizar sua apresentação na noite de domingo, Bad Bunny optou pelo inglês para enviar sua mensagem final: “God bless America” (“Deus abençoe a América”), disse ele, antes de citar todos os países das Américas e exibir uma bola de futebol americano com as palavras em inglês: “Together, we are America” (“Juntos, nós somos a América”):
— Ainda estamos em aqui — concluiu ele em espanhol.
(Com New York Times)









