Pesquisa NYT/Siena: Maioria dos eleitores dos EUA rejeita retomada da guerra contra o Irã mesmo sem fim imediato de programa nuclear
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— Se o inimigo for tolo o suficiente para cair na armadilha sionista mais uma vez e lançar uma nova agressão contra o nosso amado Irã, nós vamos abrir novas frentes, com novos equipamentos e novos métodos — afirmou o porta-voz militar iraniano Mohammad Akraminia, citado pela agência de notícias ISNA nesta terça.
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A avaliação de especialistas é de que o Irã se preparou para um conflito prolongado na primeira fase da guerra, estimando que pudesse durar cerca de três meses. A leitura inicial fez com que Teerã limitasse o uso de mísseis para sustentar semanas de ataques contra Israel e alvos regionais, segundo o especialista em questões de segurança iraniana do Instituto Alemão para Assuntos Internacionais e de Segurança, Hamidreza Azizi, em entrevista ao New York Times.
Em contraste, se a guerra recomeçar, a leitura da liderança iraniana é de uma mudança no perfil dos combates, “curtos, porém de alta intensidade”, incluindo ataques coordenados e pesados contra a infraestrutura energética do Irã. A repercussão disso na prática, avalia Azizi, seria o disparo de dezenas ou centenas de mísseis por dia para “enfrentar efetivamente o inimigo e também mudar os cálculos do outro lado”.
O impacto imediato seria maior para países árabes do Golfo Pérsico, como Emirados Árabes Unidos, Kuwait, Arábia Saudita e Catar, bombardeados na primeira fase da guerra. Os danos no caso de uma ação mais direcionada e intensa poderiam, no entanto, ter uma dimensão diferente, sobretudo para o setor energético do país — o que aprofundaria a crise de fornecimento de petróleo e gás, que já é uma ferramenta de pressão econômica usada pelo Irã.
Autoridades iranianas e analistas alinhados ao governo têm feito ameaças e declarações agressivas a países da região, sobretudo contra os Emirados Árabes, que abriga bases militares americanas e, de acordo com relatos recentes, teria realizado ataques secretos contra Teerã durante a ofensiva.
— Certamente devemos fazer os Emirados voltarem à era de andar de camelo, e podemos fazer isso — disse Mehdi Kharatian, analista próximo às forças de segurança iranianas, em uma entrevista em podcast no mês passado. — Se necessário, ocuparemos Abu Dhabi.
Por mais hiperbólicas que sejam essas declarações, elas refletem correntes importantes de pensamento dentro da liderança da Guarda Revolucionária Islâmica, segundo Ali Alfoneh, pesquisador sênior do Arab Gulf States Institute.
“A ameaça de retaliação iraniana contra grandes produtores de petróleo continua sendo um dos poucos fatores que restringem o comportamento dos EUA em relação ao Irã”, escreveu o pesquisador.
O vice-presidente executivo do Quincy Institute, Trita Parsi, apontou em uma publicação na rede social X que o objetivo da retaliação poderia ser causar dano máximo não apenas ao setor energético, mas a data centers do país, em meio às ambições de Abu Dhabi de se tornar um hub de inteligência artificial alinhado aos EUA.
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O outro estreito
Enquanto o controle do Estreito de Ormuz continua sendo um ponto controverso nas negociações de cessar-fogo, estrategistas militares iranianos avaliam estender suas operações de bloqueio ao tráfego naval no Oriente Médio para além da principal via comercial. Em caso de uma nova escalada, Teerã poderia tentar exercer controle sobre o Estreito de Bab el-Mandeb, que conecta o Mar Vermelho e o Golfo de Áden, com ajuda das milícias Houthis do Iêmen.
A avaliação dos analistas é de que se o governo iraniano acreditar que o controle sobre Ormuz está ameaçado — uma vez que os EUA trataram publicamente sobre a intenção de liberar a passagem com o emprego das Forças Armadas —, uma solução seria ampliar as ações ofensivas no segundo estreito, fazendo os americanos terem que se dividir em duas frentes marítimas.
Kharatian disse na entrevista em podcast do mês passado que, se os EUA atacarem a infraestrutura econômica iraniana, o Irã retaliará limitando o tráfego em Bab el-Mandeb. A manobra em si, porém, pode ser difícil de realizar, uma vez que os aliados no Iêmen têm reagido com cautela aos combates mais recentes, com analistas atribuindo isso a cálculos de estoques militares disponíveis cada vez menores.
Estreitos de Ormuz e Bab el-Mandeb
Editoria de Arte
Treinamento civil
Mesmo sem o retorno de fato das hostilidades, o regime iraniano usa a sombra da ameaça americana para manter a mobilização em setores populares, mantendo a população civil engajada para o caso de necessidade de uma resistência patriótica. Em Teerã, treinamentos para capacitar civis ao uso de fuzis AK-47 foram vistos nas últimas semanas.
Autoridades instalaram estandes de treinamento militar por toda Teerã para ensinar ao público o básico do manuseio de armas, buscando preparar a sociedade iraniana para a possibilidade de um combate corpo a corpo, embora as ofensivas ao país tenham se concentrado em ataques aéreos até o momento. Na Praça Haft-e Tir, nos últimos dias, um soldado da Guarda Revolucionária do Irã ensinou por quase meia hora um grupo de iranianos a montar e desmontar um fiz AK-47, além de demonstrar diferentes tipos de munição.
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— A resposta das pessoas, de homens e mulheres, tem sido extraordinária. É totalmente voluntária — disse Nasser Sadeghi, soldado responsável por um dos treinamentos realizados no estande da Praça Haft-e Tir. — O objetivo é promover a cultura do martírio e da vingança pelo sangue do líder. Se Deus quiser, nos próximos dias, dependendo do que as autoridades superiores considerarem apropriado, outras armas também serão incluídas no treinamento.
Entre os participantes, havia homens com pouca experiência militar prévia, bem como mulheres vestidas com chador, algumas com faixas na cabeça e nos pulsos com a bandeira iraniana. Crianças e adolescentes também foram vistos posando para fotos com fuzis descarregados.
— Se Deus quiser, poderemos usá-la contra a agressão inimiga, caso um dia eles tenham más intenções contra esta terra — disse Fardin Abbasi, um funcionário público de 40 anos, após participar de um dos treinamentos.
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Mahnaz, uma mulher de 39 anos mãe de três filhos, disse que aprender a usar armas se tornou necessário nas circunstâncias atuais.
— Na minha opinião, nessas circunstâncias que os EUA criaram para nós, onde não poupam mulheres, crianças, jovens ou idosos, é nosso dever humano pelo menos aprender a atirar e a manusear armas — disse ela em entrevista à agência de notícias AFP. — Para que, se necessário, possamos usá-las com facilidade.
Perto dos estandes de treinamento, outros postos ofereciam chá, serviços de aconselhamento psicológico e assistência médica, enquanto alto-falantes transmitiam discursos, cânticos e homenagens a comandantes militares mortos. A televisão estatal iraniana também abraçou a iniciativa, chegando a convidar um membro da Guarda Revolucionária para ensinar um apresentador de televisão a mirar e disparar um fuzil de assalto. (Com AFP e NYT)









