Análise: Trump chega a China, que vê cada vez mais os Estados Unidos como um império em declínio
Comércio, Irã, IA e Taiwan: Em visita à China, Trump leva pautas espinhosas para discussões com Xi
Xi cumprimentou Trump no opulento Grande Salão do Povo pouco depois das 10h (23h em Brasília), numa recepção grandiosa que contradiz as profundas tensões entre as maiores economias do mundo. Ambos estavam no centro enquanto uma banda militar chinesa tocava o hino nacional americano, “The Star-Spangled Banner”, e em seguida o hino nacional chinês, ao som de disparos de canhão.
Crianças em idade escolar, vestindo roupas coloridas e agitando bandeiras dos EUA e da China, pulavam e gritavam “bem-vindos, bem-vindos” enquanto Trump e Xi passavam por elas na praça.
Nos breves discursos dos líderes no início da reunião, Xi disse a Trump que estava “feliz” em recebê-lo em um momento em que o mundo se encontra numa “encruzilhada”. O americano, por sua vez, disse que Washington e Pequim terão “um futuro fantástico juntos.”
— Devemos ser parceiros em vez de adversários, alcançar o sucesso uns para os outros, prosperar juntos e forjar um caminho correto para que os principais países da nova era convivam em harmonia — acrescentou Xi.
Trump é recebido por Xi Jinping em Pequim
Brendan SMIALOWSKI / AFP
Depois da recepção no opulento Grande Salão do Povo, os dois líderes também participarão de um banquete de Estado no salão à noite, e Trump visitará o histórico Templo do Céu, um Patrimônio Mundial da Unesco, onde os imperadores da China oravam por boas colheitas.
O presidente dos EUA chegou para a cúpula a bordo do Air Force One na noite de quarta-feira, acompanhado por importantes CEOs, incluindo Jensen Huang, da Nvidia, e Elon Musk, da Tesla — símbolos dos acordos comerciais que Trump espera fechar.
Na ocasião, ele foi recebido com tapete vermelho, com 300 jovens chineses em uniformes brancos gritando “bem-vindo” e acenando em uníssono com pequenas bandeiras chinesas e americanas enquanto ele descia os degraus do avião presidencial, erguendo o punho em sinal de comemoração.
Na sexta-feira, Trump e Xi devem tomar chá e almoçar juntos antes de o presidente americano retornar a Washington.
Trump e Xi Jinping se reúnem em Pequim
Brendan SMIALOWSKI / AFP
Trump e Xi se encontraram pela última vez em outubro, na Coreia do Sul, onde concordaram em suspender uma desgastante guerra comercial na qual os EUA impuseram tarifas de três dígitos sobre produtos chineses e Pequim ameaçou restringir o fornecimento global de terras raras.
Muita coisa mudou desde então. Trump está agora envolvido em uma guerra com o Irã, o parceiro mais próximo da China no Oriente Médio, que levou a uma crise energética global e desviou recursos militares americanos da Ásia. A guerra também esgotou os estoques de munição dos EUA, levantando dúvidas entre alguns analistas chineses sobre a capacidade dos Estados Unidos de defender Taiwan, um parceiro próximo de Washington.
Xi, por sua vez, enfrenta seus próprios desafios ao lidar com um crescimento econômico mais lento, preços de energia mais altos e a possibilidade de uma recessão global que prejudicaria a economia chinesa, dependente das exportações.
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‘Um grande abraço’
Trump afirmou que espera um “grande abraço” de Xi, apostando no que acredita ser uma forte relação pessoal com o líder chinês, a quem elogiou dizendo que governa a China com “mão de ferro”. No topo da sua lista de desejos estarão acordos comerciais nas áreas de agricultura, aviação e outros temas.
A bordo do Air Force One, a caminho de Pequim, Trump prometeu nas redes sociais pressionar Xi para que ele “abrisse” a China para empresas americanas “para que essas pessoas brilhantes possam fazer sua mágica”.
O Ministério das Relações Exteriores da China afirmou na quarta-feira que “acolhe com satisfação” a visita de Trump e que “a China está pronta para trabalhar com os Estados Unidos… para expandir a cooperação e administrar as diferenças”.
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Mas Trump está lidando com uma China diferente e mais ousada do que aquela que visitou há nove anos, com uma série de tensões comerciais e geopolíticas não resolvidas entre os dois países. A guerra com o Irã, em particular, ameaçou enfraquecer a posição de Trump nas negociações com Xi, tendo-o já forçado a adiá-las, inicialmente previstas para março.
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Trégua tarifária?
A guerra comercial latente entre os dois países também estará no topo da agenda, depois que as tarifas abrangentes de Trump no ano passado desencadearam uma série de retaliações que ultrapassaram os 100%. Trump e Xi devem discutir a prorrogação da trégua tarifária de um ano, alcançada durante o último encontro entre os dois líderes, embora um acordo esteja longe de ser certo.
Sobre Taiwan, outra questão que tem prejudicado as relações bilaterais, Trump disse na segunda-feira que conversaria com Xi sobre a venda de armas americanas para a democracia autônoma reivindicada pela China. Isso representaria um afastamento da insistência histórica dos EUA em não consultar Pequim sobre seu apoio à ilha, e será acompanhado de perto por Taipei e pelos aliados dos EUA na região.
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Os controles da China sobre as exportações de terras raras, a rivalidade na área de inteligência artificial e a tumultuada relação comercial entre os países também estão entre os temas que devem ser abordados pelos dois chefes de Estado.
Ambos os lados procurarão sair da cúpula com quaisquer vitórias possíveis, ao mesmo tempo que buscam estabilizar uma relação frequentemente tensa entre Pequim e Washington, que tem implicações globais.
Trump também espera sair com uma data definida para uma visita recíproca de Xi aos Estados Unidos ainda em 2026, para demonstrar sua boa relação com seu homólogo chinês.
Com AFP e New York Times.








