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— Se alguém aqui ainda acha que a União Europeia, ou a Europa como um todo, pode se defender sem os EUA, continue sonhando — disse Rutte aos membros do Parlamento Europeu, em Bruxelas. — Não pode. Nós não podemos. Precisamos uns dos outros — completou.
As afirmações de Rutte vieram após dias de apreensão que atingiram o auge na semana passada, depois que Trump afirmou, em um discurso no Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça, que não tomaria a Groenlândia, um território autônomo da Dinamarca, recuando de ameaças feitas anteriormente. No mesmo discurso, Trump menosprezou a Europa, afirmando essencialmente que ela não existiria sem os Estados Unidos.
Trump também havia ameaçado impor tarifas adicionais a países europeus que resistissem à sua tentativa de controlar a Groenlândia, mas recuou dessa ideia.
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Rutte, ex-primeiro-ministro da Holanda, cultivou uma relação próxima com Trump, o que levantou suspeitas entre líderes europeus. Nesta segunda-feira, ele respaldou a visão estratégica do presidente americano para o Ártico e a defesa reforçada da Groenlândia.
Ele também se defendeu por ter ajudado a afastar Trump de ameaças em escalada e por tentar conduzir o presidente dos EUA a um compromisso em relação à ilha.
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Líderes da Dinamarca e da Groenlândia reagiram com irritação à ideia de que Trump e Rutte estariam negociando o futuro da Groenlândia sem o conhecimento deles.
— É claro que não tenho mandato para negociar em nome da Dinamarca, então não negociei e não vou negociar — explicou Rutte. — Isso cabe à Dinamarca.
Vários membros do Parlamento Europeu pressionaram Rutte por mais informações sobre o que exatamente ele discutiu com Trump na semana passada e o que isso poderia significar para a Dinamarca e para a Groenlândia, que rejeitaram com veemência a ideia de uma tomada americana.
Rutte não foi muito específico. Ele não detalhou o arcabouço de um acordo com a Otan sobre o futuro da Groenlândia que Trump disse, na semana passada, ter sido alcançado. O anúncio trouxe grande alívio após meses de ameaças repetidas, embora muitos na Europa temam que Trump possa mudar de ideia novamente.
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Rutte afirmou que havia “duas frentes de trabalho daqui para frente” envolvendo a Groenlândia.
Uma delas seria a negociação entre aliados da Otan sobre um plano mais amplo de defesa do Ártico, que incluiria a Groenlândia, uma ilha gigantesca situada em grande parte dentro do Círculo Polar Ártico.
A outra seria um processo envolvendo representantes dos Estados Unidos, da Dinamarca e da Groenlândia, iniciado neste mês em Washington e que continua em andamento, segundo Rutte. Autoridades dinamarquesas confirmaram que realizaram uma reunião na quinta-feira, em Washington, sobre a Groenlândia, mas se recusaram a divulgar detalhes.
Diversos representantes ocidentais afirmaram que uma possível solução de compromisso discutida na Otan seria conceder aos Estados Unidos status soberano sobre bases militares americanas na Groenlândia.
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Os EUA mantêm forças militares na ilha desde a Segunda Guerra Mundial, quando a Alemanha nazista ocupou a Dinamarca e o embaixador dinamarquês em Washington firmou um acordo com os Estados Unidos para defender a Groenlândia.
Após as conversas de Rutte com Trump na semana passada, líderes dinamarqueses deixaram claro que qualquer concessão sobre a soberania da Groenlândia continua sendo “uma linha vermelha”. Rutte, que foi convidado a participar de uma reunião do comitê de segurança e defesa do Parlamento, não comentou a ideia de soberania sobre bases militares.
Vários parlamentares europeus fizeram questionamentos duros nesta segunda-feira, incluindo o dinamarquês Villy Sovndal.
— Não vamos ceder um único metro quadrado a nenhum país por causa de ameaças — afirmou Villy.
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Ao longo de suas declarações, Rutte elogiou Trump, brincando que sabia que isso poderia irritar parte do público. O discurso bombástico de Trump na semana passada em Davos abalou profundamente a Europa, especialmente a afirmação, considerada ofensiva por muitos países, de que “sem nós, neste momento, todos vocês estariam falando alemão e talvez um pouco de japonês”.
As declarações de Rutte foram mais diplomáticas. Ainda assim, ele enfatizou que, mais de 70 anos após a Segunda Guerra Mundial, a Europa continua dependente do poderio militar americano. Segundo ele, o continente teria de gastar muito mais com defesa do que já gasta para conseguir montar seu próprio arsenal nuclear robusto.
— Esqueçam a ideia de que dá para chegar lá com 5% — disse, referindo-se à meta de 5% do Produto Interno Bruto que os países da Otan se comprometeram a destinar anualmente à defesa até 2035. — Será 10%. É preciso construir uma capacidade nuclear própria, que custa bilhões e bilhões de euros — destacou.
E, se a Europa realmente tentasse seguir sozinha, ele acrescentou: “Boa sorte”.
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Rutte também reiterou a insistência de Trump de que China e Rússia estão se tornando ameaças à segurança no Ártico.
— O presidente Trump está fazendo muitas coisas boas, eu acredito; e, eu sei, estou irritando muitos de vocês de novo — disse Rutte.
Segundo ele, quando o assunto é a defesa do Ártico, “acho que ele está certo”.







